Jorge era um cara solitário.
Do tipo que acreditava que tinha nascido para ser sozinho.
Vivia se ocupando com seu trabalho. Apenas com ele. Na verdade, o importante era apenas manter a mente ocupada, sempre em atividade.
Se o trabalho de organizar papeis, planilhas, descobrir e aprender novas fórmulas no Excel cumpria esta função, perfeito.
A mente estar vazia é uma utopia de filmes de kung-fu. Jorge sempre pensava que, se ele ficasse embaixo de uma cachoeira tentando meditar, ele provavelmente estaria amaldiçoando e blasfemando contra todos os santos e deuses por aquela porra de água gelada e dura estar golpeando suas omoplatas.
Para Jorge, um engarrafamento na Berrini é um pesadelo. Uma visão do inferno. É um momento em que não há nada muito complexo para refletir.
Neste momento, ele está parado há 13 minutos. Ele chega a pensar que não sabe mais colocar a terceira marcha.
Ah, se esse fosse seu único pensamento.
Depois da segunda vez que desligou seu Fiesta prata para diminuir a emissão de poluentes (sim, ele pensou até nisso), Jorge coloca seu cotovelo direito no volante e apoia seu queixo na palma de sua mão enquanto observa as luzes.
Luzes dos carros, dos postes. Está com os vidros fechados, então berra um sonoro “Porra!”.
Quando ele grita “filho da puta”, o trânsito volta a andar.
Rapidamente, Jorge liga o carro para andar uns dois metros em primeira marcha. Tudo para novamente.
Ele apoia seu cotovelo direito no encosto do banco de passageiros e começa a mexer em seus cabelos na parte de trás da sua cabeça.
Neste momento, seus pensamentos vão ainda mais longe.
Primeiro, se questiona sobre o quanto está realmente sozinho no mundo. Lembra de seus amigos. Todos eles. Depois, lembra de um conhecido que saiu de férias e morreu de enfarto sozinho em casa. Aí, pensa na diferença entre “sozinho” e “solitário”. Que o problema não é ser só, e sim quando você fica só.
Então, lembra de todas as mulheres que passaram por sua vida e no que ele provavelmente fez para que todos seus relacionamentos dessem errado. Aí percebeu que o ônibus na sua frente está ocupando duas faixas e que a velha num Celta logo atrás ficou confusa em relação à sua posição na avenida. A qualquer momento, Jorge poderia perder o retrovisor direito de seu carro.
A inocência imprudente e estúpida da velha levou Jorge até outra linha de pensamento. Pensou em destino.
As coisas realmente estão escritas? Estava programado que uma velha num Celta quase arrancaria o retrovisor de seu Fiesta e que Jorge impediu isso? O que é o acaso? A velha que dirige sem noção ou Jorge ter desviado o carro?
O trânsito continua parado e, enquanto reflete sobre o controle do acaso, Jorge vê um posto Esso aberto.
Não pode entrar ainda porque não há uma guia rebaixada. “Ótimo. Mais tempo para pensar na decisão!”. Ele fala sozinho.
Quando os carros andam mais um pouco, ele resolve entrar no posto. Estava morrendo de vontade de ir ao banheiro. Percebeu a bexiga cheia quando seus joelhos começaram a dançar sob o volante.
Ele desce do carro, aciona o alarme, dá mais uma olhada na Berrini e entra na loja de conveniência.
Ao olhar o anúncio de camisetas promocionais, sem razão aparente, Jorge pensa em um plano perfeito.
Quer encontrar a mulher da sua vida, curtir todos os bons momentos com ela, gastar todas suas economias em uma festa de casamento épica e morrer afogado no próprio vômito na noite de núpcias. Sorri.
Pergunta onde é o banheiro, pede um sanduíche de salaminho, provolone e salada. Para beber, um chá branco. No caminho para o banheiro, ignora uma barata morta ao lado de uma mesa.
Ignora? Nem tanto. Enquanto urina, pensa na barata, saneamento básico, descaso e na passarela Marcelo Fromer. Que é um monumento às atitudes do brasileiro: a construção de uma passarela homenageando alguém que morreu atropelado. E tenta elaborar uma teoria que explique porque houve tantas manifestações no caso Nardoni, mas nenhuma importante no caso Sarney.
Enquanto lava as mãos, pensa na reviravolta evolutiva do aquecimento global e derretimento dos pólos. Criaturas consideradas primitivas passariam a dominar o planeta num futuro próximo. Ou talvez, fosse a chance dos golfinhos de montar uma nova civilização.
De volta à mesa para comer seu sanduíche que estava pronto, olha para a televisão e, inexplicavelmente começa a reparar em semelhanças incríveis entre o Datena e a Juliana Paes. Passa a viajar nisso.
Ao terminar o último gole de seu chá branco gelado, Jorge se dirige à porta para ver o trânsito.
Mágica! Berrini livre.
Paga tudo no caixa e se dirige para casa.
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