sexta-feira, 12 de junho de 2015

Até nunca mais!



Antes de começar, achei interessante estabelecer um critério baseado naquela frase: "Elogie em público, corrija em particular". Só vou citar nomes neste post de quem eu for falar bem.

Tinha prometido para mim mesmo que a Isobar/Massive365 seria a última agência de publicidade que eu trabalharia, inclusive, escrevi este texto antes da minha demissão se concretizar.

Aliás, vale aqui meu pedido de desculpas para todos de lá: tenho certeza que eles não pegaram a minha melhor fase profissional.

Fiquei feliz de poder voltar a trabalhar novamente com a infraestrutura de uma agência grande como a Isobar, mas já havia alguns anos que me encontrava decepcionado e um pouco desanimado com o mercado publicitário.

As grandes e premiadas campanhas deixaram de me empolgar. Pode ser que elas estejam realmente muito piores que as antigas, talvez seja só nostalgia minha, mas de qualquer maneira, não achava nenhuma legal e não me via na gana de fazer coisas sequer parecidas com tudo aquilo de Cannes e outros festivais.

Em resumo, achava tudo uma grande bosta. Bostas fantasmas que só funcionam em videocases.

Via os grandes festivais como aqueles desfiles de moda ultra conceituais. A única coisa que passa pela cabeça é: "nunca ninguém vai usar isso na rua!".


Tudo muito inútil criado por um monte de egos inflados e frustrados usando camisa xadrez.

Mas calma. Não são todos assim. Fiz amigos muito queridos na imensa maioria de agências que trabalhei. Alguns estão sempre presentes no meu dia a dia, outros, lamento por não manter tanto contato.

Pessoas fantásticas (que eu admiro até hoje) me ajudaram a entrar na redação publicitária. Não me arrependo de ter feito essa mudança do RH para a Criação.

A OgilvyOne sempre vai ser a melhor agência de publicidade em que já botei os pés. Por ter começado no RH de lá, sabia de dentro dos bastidores todo o respeito que eles tinham por seus funcionários. Desde a preocupação em estar dentro das leis da paternalista CLT até na relação entre todos.

Não sei como está o ambiente por lá atualmente e o quanto este mercado bizarro prejudicou e/ou moldou a maneira de todos trabalharem.

Nesses sete anos de experiência, tive que ouvir uma série de pérolas que definem a merda que o mercado publicitário se tornou. Seguem elas.


1 - "Gente! Publicitário não tem vida pessoal!".

No começo de carreira, até embarquei nessa viagem. Hoje em dia, me enoja ver que os profissionais ainda pensam assim. Os babacas acham legal comer pizza à noite na agência ou que voltar para casa de táxi compensa o cansaço.

Já me diverti fazendo isso por conta de jobs, porém, sempre tive na cabeça que isso deveria ser uma exceção, algo que deu errado durante todo o processo que exigiu essa jornada extra não-remunerada. Essas noites são divertidas porque as pessoas mantém o bom humor apesar de tudo.

Não sei quando começou isso, mas os publicitários são os maiores enganados com a publicidade. Alguém fez esses profissionais acreditarem que devemos respirar tudo que é relacionado à área. Assistir Reclame em casa, pesquisar referências na internet no seu tempo livre; assistir filmes, séries, teatro e desenhos; visitar galerias de arte, museus, exposições.

Até aí, ótimo, mas você tem que fazer tudo isso pensando em como transformar o que foi absorvido em insights e ideias para a agência.

Você acaba trabalhando 24 horas por dia. Sim, porque até sonhos podem conter insights para as próximas campanhas. Vai saber...

Eles fizeram você acreditar que a publicidade também é seu hobby.

Ouvi uma história de um funcionário que adiou a própria cirurgia para trabalhar em uma concorrência. Isso para mim não é dedicação, é ser otário. Por conta dessa opinião, posso dizer que não sou apaixonado pela publicidade.



2 - "Você tem que agradecer pela oportunidade de trabalhar aqui.".

Essa eu ouvi faz pouco tempo. Fantástica! É ridiculamente aceitável no mercado o fato que, se uma agência cresceu o suficiente para ter um bom nome, os salários dela podem ser mais baixos.

Todos aceitam isso como uma coisa normal.

Quanto mais paga-pau uma agência tem, menor o salário.



3 - "Acho que ele vai aprovar se fizermos assim...".

Tive alguns problemas com meus dois últimos chefes. Mas acho que o fator principal é o fato de nossos santos não terem batido. Simples assim.

Entretanto, havia algo que me incomodava em ambos.

Certa vez, minha dupla observou que boa parte dos funcionários da criação são artistas frustrados. Pintores, escritores, ilustradores, músicos entre outros, que viram na publicidade uma única área de atuação com salário fixo que paga as contas. Poucas pessoas, quando perguntadas ainda adolescentes, dizem que querem ser "diretoras de arte" quando crescerem.

Quando esses profissionais caem no varejo, essa frustração duplica. Se eles já trabalhavam em outra área mais "glamourosa" da agência e se sentiram "rebaixados" para o varejo, pior ainda.

Tenho a impressão que era assim que ambos os chefes se sentiam. Por mais que demonstrassem e racionalizassem os seus objetivos na área: "Eu quero um case premiado de varejo!".

Não cumprimentavam nem se enturmavam. Tinham sintonia e parceria nulos com toda a equipe.

Chegamos ao ponto de criar as peças com o objetivo de agradar ao chefe, e não pensando no que seria relevante para o cliente.

Eu, em especial, passei a travar criativamente. Um misto de insegurança e evidente irritação que me impediam de escrever direito. Isso poderia ser só uma desculpa da minha incapacidade ou então, eu fiquei incapaz por conta do meu saco cheio.

Enfim, quero deixar claro que reconheço a minha responsabilidade no problema, mas esse tipo de chefe não facilita a vida de ninguém, até porque todos da equipe estavam insatisfeitos.


4 - "Você vai se queimar no mercado!".


Desde que comecei a trabalhar como criativo, tive que entrar em um único processo trabalhista. A agência em questão perdia suas principais contas e estava para fechar as portas.

Os sinais apareciam aos poucos: 13º atrasado pago somente em março do ano seguinte, salários atrasados, vale-refeição atrasado...

O pior de tudo era o que rolava em paralelo a tudo isso: sócios com carros cada vez mais caros; guitarras, amplificadores e mesas de som; helicópteros de brinquedo circulavam pela agência; viagens para Aspen nas redes sociais...

Quando fui demitido por conta desse fechamento de portas, vi minha rescisão atrasar uns 3 meses. Não deu outra, precisei acionar a justiça para garantir o recebimento do meu dinheiro.

Com essa história de "você vai se queimar no mercado", os donos de agência usam terrorismo para que você aceite todas essas bizarrices que existem. Isso infelizmente se cristalizou na cabeça das pessoas.


Menção honrosa à agência que inspirou este texto do Ricardo Cavallini.

Citei a Ogilvy como o melhor lugar que já trabalhei, queria encerrar esta "carta de despedida" com o pior.

Um local caricato mesmo após ser comprado por um grande grupo internacional.

O dia a dia lá dentro parecia um filme de comédia... dramática.

Um amigo dizia que lá parecia uma rinha de galos que entretinha os sócios. Eu chamava de "mini tretas" porque de repente, duas ou mais pessoas começavam a brigar intensamente. Muitos gritos por poucos minutos e como se nada tivesse acontecido, acabava tudo.

O sócio maior chegava e anunciava para todos o novo smartphone que tinha comprado e recebia todos os dias às 17h um pão na chapa com toddy em sua sala, preparado e levado por uma das copeiras. Ele também tinha um banheiro exclusivo: sua sala era uma suíte.

Quando ele convocava reuniões com todos os funcionários, seus discursos motivadores pareciam stand-up comedy. Ninguém levava ou leva um cara desses a sério.

Os funcionários viravam noites, criavam úlceras e pediam cobertores para o RH para poderem dormir no sofá da recepção.

Em uma das ocasiões, dormi no meu carro acompanhando o progresso de um job.

Ironicamente, nesses lugares em que todos se fodem muito, as amizades são as mais duradouras. Lá, fiz bons amigos de agência.


Para finalizar, quero dizer que isto não é um manual de etiquetas, ou guia espiritual/profissional/reflexivo. É apenas uma carta de despedida mesmo.

Acredito que devemos nos dar ao luxo de fechar algumas portas na nossa vida. Essa é uma delas.

Adeus, publicidade!


PS.: tinha escrito este post há alguns meses. Nesse meio tempo, muitas putarias e aventuras aconteceram. Felizmente, uma delas me levou para um lugar excelente. Gostaria de agradecer a todo pessoal da Casa de Desenho e parabenizar seus sócios por terem conseguido reunir tanta gente legal em uma empresa. Assim como a turma do varejo da Isobar, conhecer esse povo até me deu esperança para o futuro da área, mas a minha decisão é final.

2 comentários:

Marcos Cestari disse...

Valeu por escrever impressões que sempre senti. E olha que por 1 ou 2 meses não foi vc que tratou da minha demissã na ogilvy =o)

Bem vindo a Vida me Caro

Israel. disse...

Excelente texto, Will. Sobre o item 4, trabalhamos na mesma agência e vi esses absurdos, porém trabalhando em outro segmento. Era no mínimo estranho. Sobre sair da vida prostituta de agências de publicidade, eu consegui isso há 4 anos atrás e posso dizer que foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida profissional e digo que, se tiver oportunidade, nunca mais retorno a esse nicho, por ser cansativo por todos esses fatores que empobrecem o trabalho, mas também ver que esse empobrecimento gerava muita frustração de uns.
Espero e desejo toda a sorte do mundo fora das agências, que cada dia mais, perdem o espírito de criatividade, e se tornam departamentos de com protocolos invisíveis, mas sólidos e bizarros a serem seguidos (camiseta xadrez, banda hipster pra ouvir, cabelos certos para ter e lugar certo para morar).