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quinta-feira, 23 de maio de 2019

A/C Aisha

Talita Aisha Oura. 大浦タリータ愛写

Nem sei se, quando você tiver idade para ler e compreender este texto, o Blogspot ainda vai existir. De qualquer maneira, escrevo apenas para expressar o que estou vivendo agora.

Quando eu e a sua mãe fizemos o vídeo de 上を向いて歩こう, só sabíamos que o nosso bebê tinha 70% de chances de ser menina.



Quando o ultrassom deu certeza do sexo, seu nome japonês surgiu primeiro: 愛写(あいしゃ - Aisha).
Tiramos ele da música 愛車リマインド da banda japonesa Jill-Decoy Association. Trocamos os kanjis para dar outro significado e mantivemos a pronúncia. Até porque Aisha é o nome da filha do Stevie Wonder que ele canta em Isn't she lovely.

“Talita” veio depois. Um pouco por causa da Tatá Werneck, um pouco também porque gostamos do nome.

Um querido primo nosso disse uma vez que “nós só aprendemos a ser filhos, quando viramos pais.”.

Faz muito sentido. Passamos a entender que, com os erros e acertos, nossos pais deram o melhor para nos criar.

Você é nossa primeira filha. Então, estamos com alguns medos. Normal, né? Ainda mais que todos dizem "a culpa é sempre dos pais". O que ajuda é focar no presente e curtir cada momento do seu desenvolvimento.

Eu e sua mãe, logo no começo do namoro, combinamos que não poderíamos tomar decisões por medo e que “viver com medo é viver pela metade”. Não sabemos de quem é essa frase.

Por um bom período do nosso casamento, não queríamos ter filhos. Só que um dia, percebemos que não ter filhos era uma resolução criada pelo medo.

Medo de que nossas viagens não fossem mais como antes.

Medo de não poder mais sair, tocar, curtir a noite.

Medo de não poder mais tomar umas cervejas e jogar videogame junto de nossos amigos.

Medo de perder a vida que tínhamos.

Aos poucos, alguns de nossos amigos tornaram-se pais. Eu e sua mãe fazíamos parte de três casais da turma que sobraram com a dúvida da paternidade.

Podemos dizer que quatro fatores foram cruciais para chamarmos você a este mundo.


1 - Este diálogo com um dos casais que ainda não eram pais.

— Se parar e pensar, a decisão mais racional é não ter filhos. — disse ela.

— Na verdade, não. Se você for racional, você tem filhos. — respondeu ele.
Repetindo o que falei acima, concluímos que não ter filhos seria uma decisão tomada pelo medo e não pela razão.

Ah! Eles ficaram grávidos antes da gente! Seu amigo Lucas nasceu meses antes de você.


2 - Encontro Feminino da Mahikari.

Eu não fui a esse evento. Sua mãe pode explicar melhor a inspiração que rolou por lá.


3 - Sua prima Amélie.

Eu e sua mãe nunca vimos a paternidade como algo mágico, meloso, romântico.

Nunca nos imaginamos correndo na praia em câmera lenta com você, sorrindo e saltitando nas nuvens com um braço sujo de merda que vazou da sua fralda dizendo: “Ser pai (mãe) é o sonho da minha vida!”. Tudo isso com corações vermelhos brotando da pele e flutuando ao redor das nossas cabeças.

Quando sua prima nasceu, 3 anos antes de você, vimos que a criança vem para integrar um grupo.

O grupo se adapta ao bebê e o bebê se adapta ao grupo. É até bom para aprender que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo.

Para nós, isso que corresponde a uma família. Ou, como somos fãs de cachorros, a uma matilha.


4 – O-Shogatsu

A família da sua mãe sempre foi grande. Leva um tempo para decorar todos os nomes, mas os encontros de Ano-Novo com todo mundo junto são sempre muito bons.

Sua avó materna é a caçula de 10 irmãos. A mamãe tem 40 primos de primeiro grau.

Sempre comentamos o quanto esses encontros são divertidos. Qualquer festa de aniversário vira um evento grande.

Só que, geração após geração, a quantidade de filhos diminui em cada núcleo familiar.

Hoje fala-se até que o conceito de primo será raro ou vai deixar de existir, porque a maioria dos casais tem apenas um filho.

— Ter família grande é gostoso, né?

— É!

— E aí, vocês vão ter filhos?

— Não!

Algo não bate nessa conta.

Pouco a pouco, nossa rotina mudou e não foi por sua causa. Paramos de tocar à noite, passamos a gravar nossas músicas em casa e espontaneamente tudo se preparou para a sua chegada.

Até o momento deste texto, trabalho em home-office. Tomara que isso seja realmente o futuro das relações de trabalho.

Toda essa introdução só para dizer o que me motivou a escrever esta “carta”. Talvez, um complemento ao nosso vídeo de 上を向いて歩こう.

Sabe a frase "Amarás o teu próximo como a ti mesmo"? Estava pensando: ela não é imperativa, e sim um bom indicativo das relações humanas.

O que quero dizer é: se não somos capazes de ter amor próprio, não conseguiremos amar qualquer outra pessoa.

Novamente o Caminho do Meio: é possível ser generosa sem esquecer o próprio bem-estar. Pensar em si mesma sem ser egoísta.

Até as companhias aéreas sabem disso: “Em caso de descompressão, coloque a máscara primeiro em você, depois na pessoa ao seu lado!”.

Autoestima não é só cuidar da beleza.

Se tudo der certo, conquistarei a faixa preta em Aikido quando você tiver uns 4 meses de idade. Mas não quero ser aquele pai clichê que vai fazer cara de mau para receber seu namorado. Estarei sempre pronto para te proteger, é claro, mas na minha cabeça, você também pode se tornar faixa preta de alguma arte marcial e ser bem capaz de se defender sozinha. Ainda mais se tiver a força da sua mãe (depois eu conto a história de quando ela quebrou o meu nariz com uma cabeçada no meio de um abraço).

Mas é isso. Quero muito que você seja feliz. Preocupação é realmente “ocupar-se antes da hora”.

Vai-se o desabafo, volto a curtir o momento. Vou colocar uma música porque sei que você sempre chuta e se mexe quando eu e sua mãe cantamos.

Espero que sempre confie na gente.

Beijo.

Papai.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Ikigai


Sei que é meio clichê, mas vou fazer uma segmentação bem idiota agora.

Entrei numa jornada de autoconhecimento. Talvez por causa do meio dos 30 anos. Vai saber... Mas falando da minha vida profissional, estou como um adolescente punheteiro: em descoberta.

Talvez por isso, meus dois últimos posts aqui tiveram esse teor "querido diário". Escrever sempre ajudou a sintetizar minhas ideias.

Entre textos de despedida das agências de publicidade e duas reativações do meu CRP para voltar a atender na Psicologia clínica, uma coisa sempre esteve presente no meu cotidiano: Música.

Um antigo colega de trabalho, hoje YouTuber e digital influencer disse que eu deveria trabalhar com música.

Falou muitos anos atrás. Só hoje que isso passou a fazer sentido. Cheguei a montar um blog de bandas com um amigo, mas a chama da empolgação se apagou pouco a pouco, e hoje ele está abandonado.

A inveja sempre foi pintada como algo ruim, mas ela também pode ser vista como algo motivador. Enquanto percorria meus caminhos malucos, alguns amigos sempre souberam o que queriam. Hoje, vivem, batalham e seguem em seus trabalhos como músicos profissionais. Também me inspiram e ensinam muito.

Obrigado por isso!

Eu estava cansado.

Cansado de tocar em bares vazios, carregar equipamento, montar o som, de me estressar com o trânsito e o horário marcado, voltar de madrugada para casa. Mais ainda de ganhar pouco e ficar o tempo todo pesando "vale a pena isso tudo por aplausos?".

Observando grandes bandas da noite paulistana, pensava também: "será que estou disposto a passar por tudo o que eles passaram para chegar onde eles estão?".

Em respeito a todos eles, sempre dei o meu máximo para ser o melhor profissional a cada apresentação.

Não me entendam mal. Estar num palco é uma das melhores sensações que existem. O contato com o público, tocar o estilo de música que você mais gosta de ouvir e estudar... É uma energia diferente. Uma sensação de "I fucking love my job" que poucos no mundo têm o privilégio de sentir.

"I fucking love my job!"

Talvez por isso, as pessoas não-musicistas têm em suas cabeças o estigma: "você é músico mas trabalha com o que?". Sinceramente, não sei dizer qual outra profissão oferece este prazer indescritível no ato e momento de estar trabalhando.

Aquelas 2 horas de show, no palco em contato com a plateia, a sensação é maravilhosa. Cura dor de cabeça, mau humor, tristeza. Tudo!

Mas calma lá. Esse prazer todo não é pagamento. Músicos têm contas para pagar. Muitas. Não têm plano de saúde entre outros benefícios que um funcionário tem, só para citar um exemplo.

Colocando tudo no liquidificador, veio a pergunta: como continuar tocando sem passar por todos esses perrengues e desventuras que me incomodavam tanto?

A resposta veio da nostalgia. A primeira banda que tive com minha esposa era um trio. Em um reencontro com o pianista, percebemos que estávamos todos no mesmo barco. Saudades de fazer música, mas de saco cheio dos bares.

Passamos a gravar em home studio, editar clipes e criamos nosso canal: Careless Home Studio.

Faz pouco mais de um ano e continuamos empolgados. Entre versões, covers e composições próprias, já temos uma frequência de publicações e o projeto continua. Aproveitando, inscrevam-se lá e curtam nossos vídeos.



Aqui que entra o "IKIGAI". Acho que até esperei a gravação do vídeo acima para falar sobre o assunto. Música se enquadra nas quatro categorias da imagem no começo deste post.

What you love: sim, sou apaixonado por música, guitarras, baixos, baterias, teclas, blues, rock, grooves e afins.

What the world needs: acredito do fundo das minhas tripas que o mundo está precisando de música. Mensagens fortíssimas podem ser passadas através de sons e canções. Tem muita gente legal mostrando seus trabalhos. Temos que parar de reclamar que esse ou aquele artista comercial é ruim, tal estilo é um lixo e etc. Em vez de reclamar que "Fulano é uma bosta", que tal prestigiar uma caralhada de artistas legais que estão tocando por aí?

What you can be paid for: bom... Essa é parte difícil. Mas estou correndo atrás de conseguir pagar minhas contas fazendo o que amo.

What you are good at: mesmo medíocre, continuo estudando guitarra sempre com aquele pensamento de que é menos do que deveria. Felizmente, tenho a impressão de que as pessoas gostam do que ofereço musicalmente.

Não vou mentir. Além de vomitar o que passava na minha cabeça, também quis promover o nosso canal. Espero que gostem!

domingo, 30 de julho de 2017

Por que a gratidão mijou na cozinha?


Quando o Barry morreu, o Marvin se sentiu muito sozinho. Não teve jeito: adotamos a Susan em uma feirinha realizada pela ONG APPA. Sim, estou falando de cães.

Barry era um cachorro muito inteligente. Personalidade praticamente humana. Ele foi uma pessoa peluda de 4 patas.

Marvin é um cão muito alegre. Bom humor em 100% do dia. Corre, brinca, pula e fica com o rabo abanando o tempo todo.

Já a Susan é um pouco mais calma, porém tem uma característica que nos chama muito a atenção.

Quando ela termina de comer, ou no momento em que a libero da guia do passeio, ela para ao meu lado, senta e fica olhando. A sensação que dá é a de que ela está agradecendo: seja por ter sido adotada, pela refeição e até mesmo pela caminhada.

Sendo assim, Marvin representa a alegria e a Susan passou a ser associada à gratidão.

No geral, ambos são muito obedientes.

O problema é que de vez em quando, a Susan faz xixi na cozinha.

Nunca soube a causa, motivo, razão ou circunstância para ela fazer isso.

Primeiro deduzimos que era por causa do frio: ela percebe o quintal mais gelado do que dentro da casa e desencana de ir até lá. A teoria caiu por terra quando o problema se repetiu no verão.

Depois, achamos que era porque o quintal estava sujo, com cocô do Marvin. Teoria descartada: um dia, a cozinha estava mijada mesmo com tudo limpinho lá fora.

Nunca descobrimos o que realmente acontece, até que de repente me deu um estalo: por que a gratidão mijou na cozinha?

Quando penso nessa pergunta, vem um monte de coisas na cabeça: todas as vezes que reclamei do trânsito, trabalho, vizinhos, conexão da internet, fome, preguiça, sono, frio e etc.

As filosofias orientais em geral valorizam muito o sentimento de gratidão, e uma reclamação é um sinal de que não estamos satisfeitos.

Porém, é uma questão de ponto de vista. Se estou preso no trânsito, é um sinal que tive condições de comprar um carro. Condições que vieram do meu trabalho, que também me ajuda a pagar as outras contas, financiar minhas viagens e cervejas.

Se o vizinho é chato e há conexão de internet, significa que tive condições de viver em uma casa. Por mais clichê que soe, é um privilégio que não existe para muita gente no mundo.

Já fiquei puto porque meu almoço atrasou umas horas. Depois de comer, parei para pensar: isso não é nada. Um monte de gente ainda morre de fome. Ficar de mau humor por conta disso é um puro melindre. Frescura mesmo. Tem uma padaria a cada esquina em São Paulo onde posso comprar um bolovo que seja.

Mas sem sofrência.

É uma perda de tempo sofrer pelo que não se pode mudar. Com pé no chão é melhor pensar: "está engarrafado? Ouça a música!", "Internet está lenta? Leia um livro!" e por aí vai.

Não há como comprovar a relação. Não reparei com atenção se quando estou com os pensamentos mais gratos, a Susan deixa de mijar na cozinha.

O importante é o resultado. Essa reflexão faz com que eu me policie para ter pensamentos mais produtivos e positivos. Porque entendo que a reclamação só atrapalha e deixa ansioso.

Obrigado ou ありがとうございます!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Até nunca mais!



Antes de começar, achei interessante estabelecer um critério baseado naquela frase: "Elogie em público, corrija em particular". Só vou citar nomes neste post de quem eu for falar bem.

Tinha prometido para mim mesmo que a Isobar/Massive365 seria a última agência de publicidade que eu trabalharia, inclusive, escrevi este texto antes da minha demissão se concretizar.

Aliás, vale aqui meu pedido de desculpas para todos de lá: tenho certeza que eles não pegaram a minha melhor fase profissional.

Fiquei feliz de poder voltar a trabalhar novamente com a infraestrutura de uma agência grande como a Isobar, mas já havia alguns anos que me encontrava decepcionado e um pouco desanimado com o mercado publicitário.

As grandes e premiadas campanhas deixaram de me empolgar. Pode ser que elas estejam realmente muito piores que as antigas, talvez seja só nostalgia minha, mas de qualquer maneira, não achava nenhuma legal e não me via na gana de fazer coisas sequer parecidas com tudo aquilo de Cannes e outros festivais.

Em resumo, achava tudo uma grande bosta. Bostas fantasmas que só funcionam em videocases.

Via os grandes festivais como aqueles desfiles de moda ultra conceituais. A única coisa que passa pela cabeça é: "nunca ninguém vai usar isso na rua!".


Tudo muito inútil criado por um monte de egos inflados e frustrados usando camisa xadrez.

Mas calma. Não são todos assim. Fiz amigos muito queridos na imensa maioria de agências que trabalhei. Alguns estão sempre presentes no meu dia a dia, outros, lamento por não manter tanto contato.

Pessoas fantásticas (que eu admiro até hoje) me ajudaram a entrar na redação publicitária. Não me arrependo de ter feito essa mudança do RH para a Criação.

A OgilvyOne sempre vai ser a melhor agência de publicidade em que já botei os pés. Por ter começado no RH de lá, sabia de dentro dos bastidores todo o respeito que eles tinham por seus funcionários. Desde a preocupação em estar dentro das leis da paternalista CLT até na relação entre todos.

Não sei como está o ambiente por lá atualmente e o quanto este mercado bizarro prejudicou e/ou moldou a maneira de todos trabalharem.

Nesses sete anos de experiência, tive que ouvir uma série de pérolas que definem a merda que o mercado publicitário se tornou. Seguem elas.


1 - "Gente! Publicitário não tem vida pessoal!".

No começo de carreira, até embarquei nessa viagem. Hoje em dia, me enoja ver que os profissionais ainda pensam assim. Os babacas acham legal comer pizza à noite na agência ou que voltar para casa de táxi compensa o cansaço.

Já me diverti fazendo isso por conta de jobs, porém, sempre tive na cabeça que isso deveria ser uma exceção, algo que deu errado durante todo o processo que exigiu essa jornada extra não-remunerada. Essas noites são divertidas porque as pessoas mantém o bom humor apesar de tudo.

Não sei quando começou isso, mas os publicitários são os maiores enganados com a publicidade. Alguém fez esses profissionais acreditarem que devemos respirar tudo que é relacionado à área. Assistir Reclame em casa, pesquisar referências na internet no seu tempo livre; assistir filmes, séries, teatro e desenhos; visitar galerias de arte, museus, exposições.

Até aí, ótimo, mas você tem que fazer tudo isso pensando em como transformar o que foi absorvido em insights e ideias para a agência.

Você acaba trabalhando 24 horas por dia. Sim, porque até sonhos podem conter insights para as próximas campanhas. Vai saber...

Eles fizeram você acreditar que a publicidade também é seu hobby.

Ouvi uma história de um funcionário que adiou a própria cirurgia para trabalhar em uma concorrência. Isso para mim não é dedicação, é ser otário. Por conta dessa opinião, posso dizer que não sou apaixonado pela publicidade.



2 - "Você tem que agradecer pela oportunidade de trabalhar aqui.".

Essa eu ouvi faz pouco tempo. Fantástica! É ridiculamente aceitável no mercado o fato que, se uma agência cresceu o suficiente para ter um bom nome, os salários dela podem ser mais baixos.

Todos aceitam isso como uma coisa normal.

Quanto mais paga-pau uma agência tem, menor o salário.



3 - "Acho que ele vai aprovar se fizermos assim...".

Tive alguns problemas com meus dois últimos chefes. Mas acho que o fator principal é o fato de nossos santos não terem batido. Simples assim.

Entretanto, havia algo que me incomodava em ambos.

Certa vez, minha dupla observou que boa parte dos funcionários da criação são artistas frustrados. Pintores, escritores, ilustradores, músicos entre outros, que viram na publicidade uma única área de atuação com salário fixo que paga as contas. Poucas pessoas, quando perguntadas ainda adolescentes, dizem que querem ser "diretoras de arte" quando crescerem.

Quando esses profissionais caem no varejo, essa frustração duplica. Se eles já trabalhavam em outra área mais "glamourosa" da agência e se sentiram "rebaixados" para o varejo, pior ainda.

Tenho a impressão que era assim que ambos os chefes se sentiam. Por mais que demonstrassem e racionalizassem os seus objetivos na área: "Eu quero um case premiado de varejo!".

Não cumprimentavam nem se enturmavam. Tinham sintonia e parceria nulos com toda a equipe.

Chegamos ao ponto de criar as peças com o objetivo de agradar ao chefe, e não pensando no que seria relevante para o cliente.

Eu, em especial, passei a travar criativamente. Um misto de insegurança e evidente irritação que me impediam de escrever direito. Isso poderia ser só uma desculpa da minha incapacidade ou então, eu fiquei incapaz por conta do meu saco cheio.

Enfim, quero deixar claro que reconheço a minha responsabilidade no problema, mas esse tipo de chefe não facilita a vida de ninguém, até porque todos da equipe estavam insatisfeitos.


4 - "Você vai se queimar no mercado!".


Desde que comecei a trabalhar como criativo, tive que entrar em um único processo trabalhista. A agência em questão perdia suas principais contas e estava para fechar as portas.

Os sinais apareciam aos poucos: 13º atrasado pago somente em março do ano seguinte, salários atrasados, vale-refeição atrasado...

O pior de tudo era o que rolava em paralelo a tudo isso: sócios com carros cada vez mais caros; guitarras, amplificadores e mesas de som; helicópteros de brinquedo circulavam pela agência; viagens para Aspen nas redes sociais...

Quando fui demitido por conta desse fechamento de portas, vi minha rescisão atrasar uns 3 meses. Não deu outra, precisei acionar a justiça para garantir o recebimento do meu dinheiro.

Com essa história de "você vai se queimar no mercado", os donos de agência usam terrorismo para que você aceite todas essas bizarrices que existem. Isso infelizmente se cristalizou na cabeça das pessoas.


Menção honrosa à agência que inspirou este texto do Ricardo Cavallini.

Citei a Ogilvy como o melhor lugar que já trabalhei, queria encerrar esta "carta de despedida" com o pior.

Um local caricato mesmo após ser comprado por um grande grupo internacional.

O dia a dia lá dentro parecia um filme de comédia... dramática.

Um amigo dizia que lá parecia uma rinha de galos que entretinha os sócios. Eu chamava de "mini tretas" porque de repente, duas ou mais pessoas começavam a brigar intensamente. Muitos gritos por poucos minutos e como se nada tivesse acontecido, acabava tudo.

O sócio maior chegava e anunciava para todos o novo smartphone que tinha comprado e recebia todos os dias às 17h um pão na chapa com toddy em sua sala, preparado e levado por uma das copeiras. Ele também tinha um banheiro exclusivo: sua sala era uma suíte.

Quando ele convocava reuniões com todos os funcionários, seus discursos motivadores pareciam stand-up comedy. Ninguém levava ou leva um cara desses a sério.

Os funcionários viravam noites, criavam úlceras e pediam cobertores para o RH para poderem dormir no sofá da recepção.

Em uma das ocasiões, dormi no meu carro acompanhando o progresso de um job.

Ironicamente, nesses lugares em que todos se fodem muito, as amizades são as mais duradouras. Lá, fiz bons amigos de agência.


Para finalizar, quero dizer que isto não é um manual de etiquetas, ou guia espiritual/profissional/reflexivo. É apenas uma carta de despedida mesmo.

Acredito que devemos nos dar ao luxo de fechar algumas portas na nossa vida. Essa é uma delas.

Adeus, publicidade!


PS.: tinha escrito este post há alguns meses. Nesse meio tempo, muitas putarias e aventuras aconteceram. Felizmente, uma delas me levou para um lugar excelente. Gostaria de agradecer a todo pessoal da Casa de Desenho e parabenizar seus sócios por terem conseguido reunir tanta gente legal em uma empresa. Assim como a turma do varejo da Isobar, conhecer esse povo até me deu esperança para o futuro da área, mas a minha decisão é final.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Admiração

Já admirei alguns colegas da escola.

Porque eles eram sociáveis e engraçados.

Hoje, só admiro os amigos próximos que ficaram na minha vida.


Admirava muito o Bruce Lee.

Porque ele descia o cacete em todo mundo.

Hoje, admiro as artes marciais apenas como uma forma de buscar equilíbrio e saúde.


Admirava os intelectuais.

Porque eles liam bastante e eram cultos.

Hoje, acho esse rótulo uma babaquice e admiro quem não vende qualquer tipo de auto-imagem.


Admirava os politizados.

Porque eles tinham opinião sobre tudo que acontecia com o país e sabiam com certeza o que precisava ser feito.

Hoje, enxergo o quanto esse eles são fechados em suas dogmas como nas piores religiões.


Admirava os apaixonados pelo futebol.

Porque eles realmente veneravam seus clubes na vitória e na derrota com o maior dos orgulhos.

Hoje, vejo corrupção por todos os lados, violência e cegueira por conveniência.


Admirava os paulistanos.

Porque eles eram trabalhadores, faziam horas extras e adoravam falar sobre o que acontece no próprio emprego.

Hoje, entendo que isso é um desperdício de vida e admiro quem consegue usar seu trabalho como uma ferramenta para se realizar, alcançar sonhos, fazer seus hobbies e viver melhor.


Já admirei os bem-sucedidos.

Porque eles tinham muito dinheiro, frequentavam lugares caros, festas badaladas, usavam grifes e consumiam coisas refinadas.

Hoje, acho que muitos desses lugares, serviços e produtos são um desperdício de tempo. Admiro um bom boteco com cerveja, petiscos e amigos.


Já admirei os briguentos.

Porque eles não desistiam até ganhar uma discussão e convenciam os outros a aceitarem seu ponto de vista.

Hoje, percebo o quanto essas discussões são desagradáveis e desnecessárias.


No fim, admiro tudo que aprendo.

Porque a sensação de perceber as coisas de maneiras diferentes do que eu via antes me deixa feliz.

Daqui uns anos, provavelmente eu vou olhar para o passado e me achar um completo idiota. Da mesma maneira que faço agora.

Mas isso é parte da experiência. Foda-se.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Velho batuta

 

Tocava baixo na banda ZZ Top Cover SP. A genética ajudava. Sua barba crescia bem rápido e em alguns meses, chegou ao comprimento necessário.

Tinha largado seu último emprego para se dedicar à música, mas as coisas não andavam bem.

"É só uma fase!" — pensava. Além dos covers nas noites do Bixiga e Moema, investia pesado as economias que juntou em seu projeto de composições próprias. Só que os rendimentos das aplicações não estavam sendo suficientes para cobrir todas as despesas.

"Preciso de um bico!". Não queria nem pensar em fazer algo parecido com as atividades do último trabalho dito "normal". Ou seja: nada relacionado a Departamento Pessoal ou Recursos Humanos. Nada de planilhas, CLT, relatórios, orçamento de pessoal, processos seletivos ou dinâmicas de grupo estapafúrdias.

Tinha calafrios quando se lembrava de seu último chefe. O cara era um neurótico hipócrita. Ficava com a antena ligada procurando momentos de ócio de seus subordinados, mas como sentava no canto da sala, passava horas do dia resolvendo assuntos pessoais. Pesquisava preços de tintas para a reforma de sua casa, colhia tranquilamente seus morangos em Farmville e assistia a tutoriais de oito minutos sobre cortes de cabelo no YouTube.

A ansiedade desse gestor era grande. Aplicava tanta força no mouse, que quando o mexia, o atrito com a mesa emitia um som parecido com o de uma buzina de algodão-doce.

Mas eram tempos passados. Desistira de "ser alguém na vida", de pegar o trem lotado todos os dias, de fazer baldeações por corredores estreitos com milhares de pessoas, de ocasionalmente limpar micro-pingos de catarro na manga da camisa quando alguém espirrava sem colocar a mão na boca.

Tudo isso passou por sua cabeça num segundo, enquanto refletia sobre as escolhas que tinha feito na vida e no momento em que aceitou o emprego temporário de Papai Noel do Shopping Center Norte. Um cargo muito concorrido após anos e anos de um jingle inesquecível.

Não estava arrependido. A comprida e sedosa barba natural facilitou a escolha e começou a trabalhar logo no começo de dezembro.

As exigências eram simples: sorrir, ouvir os pedidos das crianças e não ter ereções.

Só que nosso amigo foi proativo: passava lindas mensagens e lições para os pequeninos e seus pais.

— Oi, Papai Noel!

— Ho... Ho... Ho... Olá, pequerrucho! Quantos anos você tem?

— 7 anos!

— E o que você quer de presente de Natal?

— Eu quero um iPad!

— Tenho uma coisa melhor aqui: um vale-lama. Se você chamar um amiguinho para brincar no parquinho mais perto da sua casa após um dia de chuva, você mostra esse cupom para o seus pais. Assim, você pode brincar lá mesmo se tiver lama e pode se sujar à vontade.

— ... Brigadu... — respondeu o menino, sem entender direito.

Com muita criatividade, distribuía diferentes cupons. Além do vale-lama, tinha também o vale-dormida na casa do amiguinho, vale-sobremesa extra, vale-brincadeira com os pais, vale-futebol na chuva e um vale-visita ao parque.

O mês foi passando, e como todos os trabalhos que exigem criatividade, mas que não valorizam os criativos, o saco de nosso protagonista foi se enchendo. Sem trocadilhos.

A cada criança birrenta, o humor do Papai Noel transitava entre a ironia e a completa acidez nas palavras.

— Eu quero o game "Unilever Dish Monsters 3D" para Kinect!

— Dish Monsters? Como é esse jogo? — perguntou o Papai Noel em um súbito lampejo de genuíno interesse.

— É um jogo que se passa na cozinha de uma casa! Bactérias alienígenas planejam o domínio da Terra e se alimentam da combinação de restos de arroz seco grudados em porcelanas. Para combater eles, você precisa lavar a louça com o detergente especial criado pela Unilever! Aí, você faz movimentos circulares com a mão direita, enquanto segura o prato com a mão esquerda! Assim, com o braço esticado na frente e mexendo o pulso, você liga e desliga a torneira!

— Olha só!

E o garoto continuou:

—  Se deixar o prato de molho na água quente, torneira da direita, você facilita a remoção do arroz seco na louça!

O Papai Noel não aguentou, interrompeu a criança e berrou com toda a força do diafragma:

— PORRA! ENTÃO, POR QUE CARALHAS VOCÊ NÃO LAVA A LOUÇA DE VERDADE E AJUDA SEUS PAIS?!

Silêncio no Center Norte. Um fato absolutamente inédito em quase 30 anos de existência, se considerarmos que era dezembro, poucas semanas do natal. Todos ficaram boquiabertos com o grito do bom velhinho.

O capitalismo. Em menos de 5 minutos, o burburinho voltou e todos continuaram com suas compras.

Nosso amigo natalino foi despedido do shopping, mas logo conseguiu outro emprego: uma agência de publicidade o contratara para fazer posts na FanPage "Papai Noel Sincero".

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Dog person



Embora eu goste muito de gatos, entendo que as pessoas me rotulem de "dog person".

Invejo os cães. Nunca escondi isso. Acho que realmente temos muito o que aprender com eles e estou sempre tentando tirar lições ao observá-los.

Faz meses que observo a relação de meus dois vira-latas, Barry White e Marvin Gaye.

O Marvin chegou dois anos depois de termos adotado o Barry e a relação entre eles é muito engraçada.

No começo, fiquei bem preocupado com as brigas. Confesso que não entendia os motivos. Não sei bem o que eles "conversam", nem que mensagens passam um ao outro.

O ponto é que, no resto do tempo, eles se dão bem, brincam e relaxam juntos.

Aí, veio a reflexão. A gente imagina que o relacionamento ideal é aquele tranquilo em que tudo dá certo, como nos grandes clichês das propagandas de margarina.

Os cães me ensinam todos os dias que a crueza da realidade no mundo não é tão ruim quanto os humanos pintam.

Fazendo a devida conversão, pessoas brigam. É inevitável.

A lição aqui é a maneira como os cachorros lidam com isso. Alguns vão dizer que eles têm aquela felicidade exagerada porque são ignorantes. Eu discordo.

Acho que cães são felizes por conta da relação deles com o tempo.

Não importa que o Barry mordeu o pescoço do Marvin em algum momento da tarde de ontem e doeu. Eles vão brincar hoje e vão se divertir.

O Barry não fica pensando se o Marvin vai roubar seu brinquedo amanhã. Ou se vai precisar dar uma mordida nele daqui a um mês.

Nenhum deles fica se remoendo por algo ruim que aconteceu ou por preocupação com algo de ruim que pode estar por vir. Simplesmente vivem o presente.



Gato ou cão, já parou para imaginar o que você pode aprender com seu bicho de estimação? O que você acha que ele teria para te dizer? Qual conselho ele te daria? O que ele faria no seu lugar?

Imaginar essas respostas ajudam bastante no meu dia a dia.

Mesmo que a solução possa ser: "OLHA! UM ESQUILO!". Até dá para tirar uma lição importante. Questão de interpretação.




Faça o teste!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Bean situation



Acho curioso como algumas situações cotidianas, tão comuns e simples, podem causar tanto desespero.

Às vezes, elas ficam na cabeça por anos e sua gravidade é amplificada pelo cérebro.

Esses dias, precisei me policiar para não ficar pensando nelas.

A vez em que eu caí de costas e levantei com as canelas cortadas.

Quando estava agitado na aula e disse, em voz alta, uma piada horrível, mas que parecia hilariante dentro da minha cabeça. Bem no momento em que todos da sala ficaram em silêncio.

Uma vez que tirei sarro de um menino da sala só para ouvir um contra-ataque inesperado que me deixou sem graça.

Outra, no meu estágio de Psicologia Escolar, em que tropecei no meio de uma sala de aula cheia de adolescentes.

 
Scumbag brain nos torturando novamente. E no módulo auto-bullying.
 
Fico pensando no momento em que isso aterroriza tanto, que acaba nos impedindo de seguir em frente.
 
Qual o tamanho da vergonha de voltar da hora do almoço, após sujar a camisa com alguns respingos de molho?
 

Há quem diga que a vergonha é proporcional a intensidade em que reparamos no que os outros estão fazendo. Aquele medo e generalização de que todos percebem as coisas exatamente como você.

A principal lição da tecla Foda-se nesse tipo de situação é: o mundo está cagando para você.

terça-feira, 19 de março de 2013

Quase tentei


Existe um exercício bem interessante na terapia comportamental: fazer o cliente trocar o verbo "conseguir" pelo verbo "querer". Em qualquer uma de suas frases.

Dá até um nó na cabeça.

Viajando pela mesma linha esses dias, lembrei da conversa que tive com uma amiga.

Fazia algum tempo que nosso grupo em comum não se encontrava e tinha surgido a oportunidade em uma festa.

Sobre sua presença no evento, ela me disse:

— Vou tentar!

Imediatamente, me lembrei das palavras do Mestre Yoda e respondi:

— Não existe tentar! Ou você vai ou você não vai!

O que seria "tentar ir a algum lugar"?

Ontem, o sujeito tentou levantar da cama cedo, mas estava cansado demais e apertou o soneca do despertador diversas vezes. Perdeu a hora de chegar ao trabalho.

Depois, tentou pegar o ônibus, mas estava cheio e não conseguiu entrar.

Atrasado, tentou falar com o chefe, mas só dava caixa postal.

Em resumo: ele não levantou da cama cedo, não pegou o ônibus e não falou com o chefe.

Não questiono aqui as possibilidades e probabilidades da realização de cada uma das atividades acima. Até mesmo porque, a telefonia móvel não está facilitando, os ônibus andam bem lotados e a preguiça pode ser uma tirana.

O ponto é: por que é tão difícil assumir que simplesmente não fiz algo? Por que saber que a existência de uma "tentativa" é algo reconfortante para o que a gente não quer fazer ou não fez?

Vou aplicar exercício no dia a dia.

— Wilson, você estudou o tema?

— Eu ten... Não. Eu não estudei.

— Wilson, você está escrevendo com regularidade nos seus blogs?

— Eu estou tent... Não. Não escrevo com regularidade.

— Wilson, você está correndo três vezes por semana?

— Eu tent... Não. Não estou correndo.

Enfim. Já deu para entender.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Hein?

Quando vejo este filme...


... eu quase choro igual ao Debi e o Loide  no comercial da Pacific Bell.


Eu sei. Ridículo, né?

Primeiro, vem aquela questão: "deixar um mundo melhor para os filhos, ou filhos melhores para o mundo?".


Bom. Acho que estamos cagando nos dois aspectos.


Se parar para pensar. Todas as coisas estão meio esquisitas.

Essa última semana, perguntei para uma amiga se era a "semana mundial das notícias bizarras".

Só olhando por cima: homofóbicos, racistas e condenados assumindo cargos importantes.

Vi várias histórias sobre censura e sobre como a ditadura está voltando.

Salários diminuem. Pessoas morrem ou adoecem. Alguns são ídolos.

Outros são atropelados, têm o braço arrancado e jogado no córrego. A retrospectiva da Globo vai ser movimentada no fim do ano.

Acho que eu andava sem trabalho nas últimas semanas. Parecia que eu estava numa lan house. Por isso, acabei acompanhando tudo que era compartilhado. Senti um pouco de falta das boas notícias.

Ao ver tudo isso, na cabeça fica a música do Marvin Gaye:


What the fuck, world?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os carros de Afrânio

Afrânio é um senhor que vive na zona norte de São Paulo.

Apaixonado por carros, é daquelas pessoas que todo mundo procura quando surge alguma dúvida. 

Perguntam sobre o melhor combustível, qual a frequência que deveriam alternar entre álcool e gasolina, se há problemas em ligar o carro com o ar-condicionado ligado, entre outras coisas.

Alguns anos antes de se aposentar em uma grande indústria farmacêutica, Afrânio começou a investir em um hobby: reuniu uma série de carros antigos que daria inveja a qualquer colecionador.


Um Impala 67, um Mustang 66 e seu favorito: Galaxie Standard 1970. Originais. Todo cuidado e manutenção com os carros clássicos fez com que Afrânio adquirisse um conhecimento impressionante sobre esse universo automobilístico.

Certa vez, seu sobrinho pegou o Mustang emprestado às escondidas. Na ocasião, Afrânio estava de férias, passeando pela Rota 66 com um Cadillac Eldorado 1968 alugado.

Após uma noitada bêbado com o Mustang, o sobrinho de Afrânio danificou o câmbio do carro. Felizmente, com mais 20 dias até o retorno do tio, o jovem imbecil conseguiu um conserto às pressas no mecânico do bairro.

Ao que parecia, o serviço tinha sido bom. Bom até Afrânio resolver passear com o Mustang. 

Logo nos primeiros quilômetros, percebeu vários barulhos inaudíveis para qualquer outra pessoa. Uma parte do painel que emitia pequenas vibrações, o volante que rangia ao tomar as direções, alguns graus de desalinhamento dos eixos dianteiros e uma mancha redonda meio apagada no painel, provavelmente de uma lata gelada.

Tudo isso fora o câmbio, que estava muito difícil de manusear. Travava e fazia barulhos irritantes.

Emputecido, Afrânio encontrou seu sobrinho e eles discutiram. Foi uma bronca de proporções épicas. "Irresponsável" seria um elogio dentro de todo o contexto de ofensas utilizadas na discussão.

Durante a briga, Afrânio estava tão alterado que nem sentiu sua mão soltando a chave do carro no chão. Tampouco, que não conseguia falar argumentos claros.

Quando a boca já estava torta para a direita, seu sobrinho foi o primeiro a se dar conta. Apenas alguns segundos para Afrânio cair no chão, ainda sem perceber que tivera um AVC.

Ele sobreviveu com algumas sequelas. 

Essa história deixa algumas dúvidas.

Por que era tão fácil para o Afrânio perceber o que há de errado com o carro, mas tão imperceptível qualquer mudança no próprio corpo?

Perceber que a luz do óleo no painel está acesa, mas passar batido que está dormindo mal por pura ansiedade.

Perceber a queda de rendimento de um motor, mas não se dar conta que o stress no trabalho o faz brigar por qualquer merdinha que acontece.

Saber e usar o melhor combustível para o carro, mas continuar comendo junk food rápido sem sair da mesa no trabalho.

Será que já não se trata mais do Afrânio? Que poucos realmente percebem o que está acontecendo na própria vida?

Outra coisa. Por que caralhas usei o nome "Afrânio"?

domingo, 28 de outubro de 2012

Who cares?


Ontem, estava em uma churrascaria com alguns amigos. Um reencontro típico, com todas as intermináveis besteiras e idiotices que falamos para nos entreter.

Quando já estávamos no estágio da gula, satisfeitos com o que já tínhamos comido porém, ainda aceitando novos pedaços de fraldinha, costela e picanha, um fato no salão do lado chamou nossa atenção.

Um enorme grupo de pessoas chegava nessa ala fechada da churrascaria para uma festa de casamento. Sorrisos, falas e gritarias indistintas, além de toda aquela série de clichês.

Da nossa mesa, não demos muita bola para as festividades, até que chegou a hora de um dos clichês mais interessantes: o arremesso do buquê.

A namorada de um dos meus amigos, única mulher presente na mesa, comentou que ela acha esse momento muito constrangedor. Quando os bêbados da festa gritam “Encalhadas!” e algumas solteiras viram gladiadoras sanguinárias para capturar o ramalhete voador.

Depois de mais alguns comentários observando o evento, comecei a viajar e pensar na situação, no Facebook, nas minhas opiniões, convicções, na vida dos outros e a importância da tecla Foda-se em nossos cérebros.

Sobre a situação, pensei: “Foda-se! Qual o problema? Deixe as mulheres do casamento serem felizes e se divertirem. Por que eu estou aqui sendo ácido e criticando? Quantas coisas eu deixo de fazer porque imagino que as outras pessoas acham ridículo?”.

Sobre o Facebook, lembrei da seguinte tirinha dos Malvados:




Depois pensei: “Foda-se! Odeio gente que caga regra. Não quer ler o que o outro posta? Cancela a assinatura. Já fiz isso com várias pessoas que publicavam e compartilhavam conteúdos que não me agradavam.”

A rápida maré de pensamentos me levou a pensar no quanto eu deixo de curtir vários momentos por conta de algumas convicções e indignações. Em geral, elas são imbecis. Se quiser, mantenha as suas, mas estou tentando me livrar das minhas.

Por exemplo: acho ridículo que em tempos atuais, as pessoas ainda busquem pedigree e comprem cachorros e gatos com tantos animais abandonados precisando de um lar. Fiquei puto com a hipocrisia dos “ativistas de Facebook” por eu ter recebido uma caralhada de ligações e e-mails quando achei um Lhasa Apso perdido e absolutamente nenhuma quando anunciei um cãozinho de rua para adoção.

Foda-se! Vou deixar de brincar com o cachorro de um amigo por conta disso? Passar um sermão nele? Isso que é ridículo.

Odeio música sertaneja, dance music, axé, funk carioca, entre outros. Fecho a cara quando esse lixo toca no mesmo lugar que eu estou. Antes, ficava emputecido por conhecer gente que realmente gosta desses estilos. Depois, tentei achar explicações racionais para tentar entender a cabeça estranha dessas pessoas.

Hoje? Foda-se! Ainda posso ficar de mau humor quando alguém ouve isso perto de mim, mas se estiver numa festa e rolar esse tipo de som, vou dançar, pular, rir e não xingar. Confesso que isso ainda é bem difícil, mas estou evoluindo.


Enfim, foda-se tudo isso. Foda-se esse texto. Fodam-se todos os ativistas partidários, politicamente corretos, revoltados e pequenas autoridades de Facebook. O que eu quero é me divertir.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Hellmann’s Airlines

Quando eu estava no primeiro ano da faculdade, um professor disse que todos da minha geração eram muito jovens para fazer o curso de Psicologia.

Na época, não dei muita bola. Hoje, depois de passar um tempo de fora da área, percebi que tem certas coisas que a faculdade não ensina.

Foi necessário sair da área, respirar novos ares, conhecer pessoas e viver diferentes situações.

1 -  Bom senso.
Mesmo no 5º ano, alguns alunos reclamaram que não utilizávamos técnicas durante os atendimentos na clínica-escola. Fica a pergunta: será que, naqueles casos específicos, era necessário aplicar alguma técnica?

Assim como na música, ou outras áreas, a teoria é uma ferramenta, não a atividade em si.
Um guitarrista deve tocar música apenas para usar suas técnicas ou estuda as técnicas para tocar melhor suas músicas?
Atingir a maturidade do bom senso é tão importante quanto o conhecimento teórico?


2 - Desculpas.

Quando alguém não quer fazer algo, a criatividade para desculpas é infinita. Cabe até um estudo das capacidades do cérebro humano.


3 - Tempo.

Um tema intimamente relacionado ao tópico anterior. Com milhares de livros de auto-ajuda, textos compartilhados nas redes sociais, palestras e treinamento de desenvolvimento e administração do tempo, as pessoas ainda insistem em dizer que deixam de fazer algo por falta de tempo. Por que será que elas não assumem que priorizam e dão preferência a algumas atividades por puro interesse pessoal?


4 - Explicações não solicitadas.

Quando alguém começa a falar uma série de justificativas e explicações da própria personalidade que não foram pedidas por nenhum dos integrantes da conversa, fica a pergunta engatilhada: “quem você está tentando convencer? A mim ou você mesmo?”.


5 -  O que sou X o que faço.

Muita gente se define, primeiramente, pela profissão ou formação acadêmica. Isso é estranho, não? As pessoas se resumem apenas ao que elas fazem?
Ainda não descobri se esta é a definição mais fácil ou se simplesmente não nos interessa descobrir quem somos.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mundos



Todos os anos, a cada Virada Cultural, eu ouço comentários contra o evento. 

“Ai... É muita gente!”

“Meu amigo foi assaltado lá!”

“Você viu que morreu uma pessoa?”

“Está rolando o vinho químico e um monte de brigas por lá!”

“Ai... Estava no Metrô, vi que era muita gente e desisti...”

Até comentei com uma amiga: “Caraca! Eu devo viver no mundo da Coca-Cola, porque faz uns 7 anos que vou direto e nunca me aconteceu nada”.

Otimistas e pessimistas. Todos acham que são realistas.

Isso me fez pensar em outro assunto: o auto-engano.

É impossível dizer o que é a realidade. Sempre teremos uma percepção, próxima ou não, do que as coisas são.



No que diz respeito ao auto-conhecimento, nossa percepção pode ser ainda mais discrepante. Em geral, sabemos muito pouco sobre nós mesmos, até porque não queremos saber.

Aí, criamos um mundo próprio e personalizado para viver. Fiel a realidade? Nunca poderemos dizer.

A não ser que você tenha plena consciência de que o frio não existe, por exemplo. Que são só seus neurotransmissores passando uma informação ao cérebro.

Ou ao chutar uma mesinha de centro descalço, você pense convicto: “se eu não tivesse um cérebro, não sentiria dor. Logo, isso não é nada.”

E que um por do sol ou uma praia são a mesma paisagem monótona em qualquer lugar do mundo. Achar bonito ou feio é apenas outra mensagem entre suas sinapses.

Diferentes visões, julgamentos, percepções, sensações. Se cada um de nós cria o mundo em que vive e a ilusão não é prazerosa ou satisfatória, é mais fácil inventar um mundo novo. 

Acho que psicoterapia pode ajudar nessa tarefa.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ensinamentos da Panqueca

Dentro de uma recente busca pelo meu lado espiritual, a partir de uma vaga ideia sobre o culto à natureza, veio outra ramificação: os cães.
Não conheço alegria mais genuína, amor mais sincero que o do meu cachorro. Acho que esta felicidade e admiração espontâneas mereciam uma homenagem.
Ao olhar o lugar em que minha cachorra dorme, pensei: não existe lugar mais puro, inocente e aconchegante quanto aquele edredon velho, cheio de brinquedos, pelos e alguns restos de ração.
Não hesitaria em seguir seus ensinamentos, entretanto, a Panqueca não fala. Tampouco escreve. Tentarei reproduzir aqui alguns dos "mandamentos" que eu entendo que valem para ela.

1 - Quando você encontrar alguém querido, abrace, beije. Mostre para essa pessoa o quanto você está feliz em vê-la.

2 - Sempre que puder, tome um banho de sol. É revigorante.

3 - Saiba morder quando necessário. A mordida é uma carta que deve estar sempre disponível na sua manga.

4 - A melhor coisa que conquistei veio a mim porque fui amável e obstinada.

5 - Satisfaça suas curiosidades.

6 - Use a imaginação. Qualquer coisa pode se tornar um brinquedo.

7 - Divirta-se. Corra e pule. Sair correndo desembestado é uma grande sensação.

8 - Não tenha vergonha de seus medos. Você só consegue enfrentar um medo após conhecê-lo.

9 - É muito bom fazer novas amizades e estar aberto para isso.

10 - Pratique o desapego. Se algo não tem importância para você, esqueça.


Panqueca é a simpática vira-lata que peguei na Marginal Pinheiros.