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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Ikigai


Sei que é meio clichê, mas vou fazer uma segmentação bem idiota agora.

Entrei numa jornada de autoconhecimento. Talvez por causa do meio dos 30 anos. Vai saber... Mas falando da minha vida profissional, estou como um adolescente punheteiro: em descoberta.

Talvez por isso, meus dois últimos posts aqui tiveram esse teor "querido diário". Escrever sempre ajudou a sintetizar minhas ideias.

Entre textos de despedida das agências de publicidade e duas reativações do meu CRP para voltar a atender na Psicologia clínica, uma coisa sempre esteve presente no meu cotidiano: Música.

Um antigo colega de trabalho, hoje YouTuber e digital influencer disse que eu deveria trabalhar com música.

Falou muitos anos atrás. Só hoje que isso passou a fazer sentido. Cheguei a montar um blog de bandas com um amigo, mas a chama da empolgação se apagou pouco a pouco, e hoje ele está abandonado.

A inveja sempre foi pintada como algo ruim, mas ela também pode ser vista como algo motivador. Enquanto percorria meus caminhos malucos, alguns amigos sempre souberam o que queriam. Hoje, vivem, batalham e seguem em seus trabalhos como músicos profissionais. Também me inspiram e ensinam muito.

Obrigado por isso!

Eu estava cansado.

Cansado de tocar em bares vazios, carregar equipamento, montar o som, de me estressar com o trânsito e o horário marcado, voltar de madrugada para casa. Mais ainda de ganhar pouco e ficar o tempo todo pesando "vale a pena isso tudo por aplausos?".

Observando grandes bandas da noite paulistana, pensava também: "será que estou disposto a passar por tudo o que eles passaram para chegar onde eles estão?".

Em respeito a todos eles, sempre dei o meu máximo para ser o melhor profissional a cada apresentação.

Não me entendam mal. Estar num palco é uma das melhores sensações que existem. O contato com o público, tocar o estilo de música que você mais gosta de ouvir e estudar... É uma energia diferente. Uma sensação de "I fucking love my job" que poucos no mundo têm o privilégio de sentir.

"I fucking love my job!"

Talvez por isso, as pessoas não-musicistas têm em suas cabeças o estigma: "você é músico mas trabalha com o que?". Sinceramente, não sei dizer qual outra profissão oferece este prazer indescritível no ato e momento de estar trabalhando.

Aquelas 2 horas de show, no palco em contato com a plateia, a sensação é maravilhosa. Cura dor de cabeça, mau humor, tristeza. Tudo!

Mas calma lá. Esse prazer todo não é pagamento. Músicos têm contas para pagar. Muitas. Não têm plano de saúde entre outros benefícios que um funcionário tem, só para citar um exemplo.

Colocando tudo no liquidificador, veio a pergunta: como continuar tocando sem passar por todos esses perrengues e desventuras que me incomodavam tanto?

A resposta veio da nostalgia. A primeira banda que tive com minha esposa era um trio. Em um reencontro com o pianista, percebemos que estávamos todos no mesmo barco. Saudades de fazer música, mas de saco cheio dos bares.

Passamos a gravar em home studio, editar clipes e criamos nosso canal: Careless Home Studio.

Faz pouco mais de um ano e continuamos empolgados. Entre versões, covers e composições próprias, já temos uma frequência de publicações e o projeto continua. Aproveitando, inscrevam-se lá e curtam nossos vídeos.



Aqui que entra o "IKIGAI". Acho que até esperei a gravação do vídeo acima para falar sobre o assunto. Música se enquadra nas quatro categorias da imagem no começo deste post.

What you love: sim, sou apaixonado por música, guitarras, baixos, baterias, teclas, blues, rock, grooves e afins.

What the world needs: acredito do fundo das minhas tripas que o mundo está precisando de música. Mensagens fortíssimas podem ser passadas através de sons e canções. Tem muita gente legal mostrando seus trabalhos. Temos que parar de reclamar que esse ou aquele artista comercial é ruim, tal estilo é um lixo e etc. Em vez de reclamar que "Fulano é uma bosta", que tal prestigiar uma caralhada de artistas legais que estão tocando por aí?

What you can be paid for: bom... Essa é parte difícil. Mas estou correndo atrás de conseguir pagar minhas contas fazendo o que amo.

What you are good at: mesmo medíocre, continuo estudando guitarra sempre com aquele pensamento de que é menos do que deveria. Felizmente, tenho a impressão de que as pessoas gostam do que ofereço musicalmente.

Não vou mentir. Além de vomitar o que passava na minha cabeça, também quis promover o nosso canal. Espero que gostem!

domingo, 30 de julho de 2017

Por que a gratidão mijou na cozinha?


Quando o Barry morreu, o Marvin se sentiu muito sozinho. Não teve jeito: adotamos a Susan em uma feirinha realizada pela ONG APPA. Sim, estou falando de cães.

Barry era um cachorro muito inteligente. Personalidade praticamente humana. Ele foi uma pessoa peluda de 4 patas.

Marvin é um cão muito alegre. Bom humor em 100% do dia. Corre, brinca, pula e fica com o rabo abanando o tempo todo.

Já a Susan é um pouco mais calma, porém tem uma característica que nos chama muito a atenção.

Quando ela termina de comer, ou no momento em que a libero da guia do passeio, ela para ao meu lado, senta e fica olhando. A sensação que dá é a de que ela está agradecendo: seja por ter sido adotada, pela refeição e até mesmo pela caminhada.

Sendo assim, Marvin representa a alegria e a Susan passou a ser associada à gratidão.

No geral, ambos são muito obedientes.

O problema é que de vez em quando, a Susan faz xixi na cozinha.

Nunca soube a causa, motivo, razão ou circunstância para ela fazer isso.

Primeiro deduzimos que era por causa do frio: ela percebe o quintal mais gelado do que dentro da casa e desencana de ir até lá. A teoria caiu por terra quando o problema se repetiu no verão.

Depois, achamos que era porque o quintal estava sujo, com cocô do Marvin. Teoria descartada: um dia, a cozinha estava mijada mesmo com tudo limpinho lá fora.

Nunca descobrimos o que realmente acontece, até que de repente me deu um estalo: por que a gratidão mijou na cozinha?

Quando penso nessa pergunta, vem um monte de coisas na cabeça: todas as vezes que reclamei do trânsito, trabalho, vizinhos, conexão da internet, fome, preguiça, sono, frio e etc.

As filosofias orientais em geral valorizam muito o sentimento de gratidão, e uma reclamação é um sinal de que não estamos satisfeitos.

Porém, é uma questão de ponto de vista. Se estou preso no trânsito, é um sinal que tive condições de comprar um carro. Condições que vieram do meu trabalho, que também me ajuda a pagar as outras contas, financiar minhas viagens e cervejas.

Se o vizinho é chato e há conexão de internet, significa que tive condições de viver em uma casa. Por mais clichê que soe, é um privilégio que não existe para muita gente no mundo.

Já fiquei puto porque meu almoço atrasou umas horas. Depois de comer, parei para pensar: isso não é nada. Um monte de gente ainda morre de fome. Ficar de mau humor por conta disso é um puro melindre. Frescura mesmo. Tem uma padaria a cada esquina em São Paulo onde posso comprar um bolovo que seja.

Mas sem sofrência.

É uma perda de tempo sofrer pelo que não se pode mudar. Com pé no chão é melhor pensar: "está engarrafado? Ouça a música!", "Internet está lenta? Leia um livro!" e por aí vai.

Não há como comprovar a relação. Não reparei com atenção se quando estou com os pensamentos mais gratos, a Susan deixa de mijar na cozinha.

O importante é o resultado. Essa reflexão faz com que eu me policie para ter pensamentos mais produtivos e positivos. Porque entendo que a reclamação só atrapalha e deixa ansioso.

Obrigado ou ありがとうございます!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Esfinge

Todas as segundas e quartas, tem o curso de pós-graduação em Psicologia Hospitalar.

Clarice se formou na faculdade em 2002. Por conta das oportunidades disponíveis no mercado, iniciou um estágio em Recursos Humanos no segundo ano, mas nunca abandonou seu sonho de ser psicóloga na área da saúde.

Por conta desse desejo, mesmo na época em que estagiava e era efetivada no RH da Pássaros de Goiânia Construção e Vendas, fez quatro pós-graduações: uma em Psicologia da Saúde, outra em Psicossomática, além das especializações em Psicanálise moderna e Psicopatologia de Lacan.

E ia para a nova pós todas as segundas e quartas. Sempre com seus óculos de armações grossas azuis, seus cabelos soltos, na altura dos ombros, com reflexos loiros e seu tablet com teclado físico. Tinha uma coleção de sapatos sociais com um saltinho de 5 cm que combinavam com outro conjunto de terninhos sociais.

Chegava às aulas geralmente com um pão de batata, mas dependendo da pressa (e das nóias com o peso) às vezes recorria a seu estoque de barrinhas de cereal, que sempre comprava em um atacadista perto da empresa.

Cinco anos de faculdade até 2002, mais quase 10 anos de pós-graduações, e ainda assim Clarice continuava pensando em descobrir um manual de instruções ou guia infalível ilustrado para o comportamento humano.

Assistia demais a séries como "House", "The Mentalist", "Bones" e "Lie to me". Achava que conseguia reparar nos mesmos detalhes que os protagonistas dos seriados, tanto em entrevistas de processo seletivo na Pássaros de Goiânia, quanto em seus escassos atendimentos psicoterapêuticos.

Apesar do forte barulho "toc-toc" que seus sapatos faziam no chão a cada passo que dava, Clarice parecia flutuar no ar. Fazia questão de olhar nos olhos das pessoas com quem conversava.

A máscara de psicóloga clínica nunca saía de seu rosto. No trabalho, quando atendia a algum funcionário da empresa, tinha o seguinte ritual:

— Bom dia, Clarice! Posso tirar uma dúvida com você?

— Claro! — respondia. E tirava os óculos, deixava sobre a mesa e colocava a mão direita no queixo, com o dedo indicador na sua bochecha apontando para a orelha. Era um detalhe importante que tinha lido em um livro de linguagem corporal: seu dedo indicava o ouvido para mostrar que estava aberta a ouvir.

Enquanto falavam com ela, Clarice fazia uma expressão facial de profunda reflexão sobre o que a pessoa estava dizendo. Franzia a testa, sorria e acenava discretamente com a cabeça para mostrar concordância. Quando necessário, também fechava levemente os olhos e contraía a boca. Tudo dependia do assunto tratado. Ela tinha um leque enorme de expressões para incentivar quem estava falando.

Quando Clarice se formou na faculdade, passou a sentir que podia conversar de igual para igual com seus professores. Agora, eles são colegas de trabalho. Uma postura que digamos, tumultuou todas suas aulas em todos os cursos de pós-graduação que fez.

Porém, a gota d'água foi na última quarta-feira.

O professor discutia um caso clínico de outra aluna com a sala de aula. Em algum momento, ele pediu para a aluna investigar melhor o caso com o paciente.

Citou uma recente pesquisa relacionada ao assunto. Os resultados do trabalho em questão denunciavam várias inconsistências nos comportamentos e reações do paciente da aluna. No caso, ele seria uma gigante exceção a uma forte tendência comportamental.

Claro. Exceções podem ocorrer. Pesquisas não são manuais de comportamento humano. O professor pediu apenas para a aluna investigar melhor. E ela aceitou o conselho.

O problema foi quando Clarice resolveu se meter no debate. Parte por necessidade de autoafirmação, parte por não respeitar muito aquele colega de trabalho que ministrava aulas. Contou um caso clínico parecido e questionou:

 — Quer dizer que ela não pode acreditar no paciente dela? E a relação de confiança? Comigo aconteceu algo bem parecido! — a ironia aqui é Clarice ser fã de House, que afirma: "everybody lies!".

A discussão continuou por alguns minutos. Na cabeça de todos, a balança pesava: trabalho de pesquisa internacional X crazy bitch com três casos clínicos na carreira.

E prosseguiu. Duas alunas aproveitaram para ir ao banheiro. O professor bufava. A mais novinha do curso dormia na cadeira. Outra mulher acessava ao Facebook.

O único homem da sala, com 1,90 m de altura, ficou puto. Levantou da cadeira dele e foi em direção à Clarice.

Como um príncipe, levantou-a nos braços.

E como um ogro, jogou-a pela janela da sala de aula, no corredor da universidade.

Ele foi expulso do curso. Clarice vai voltar na segunda seguinte.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Dog person



Embora eu goste muito de gatos, entendo que as pessoas me rotulem de "dog person".

Invejo os cães. Nunca escondi isso. Acho que realmente temos muito o que aprender com eles e estou sempre tentando tirar lições ao observá-los.

Faz meses que observo a relação de meus dois vira-latas, Barry White e Marvin Gaye.

O Marvin chegou dois anos depois de termos adotado o Barry e a relação entre eles é muito engraçada.

No começo, fiquei bem preocupado com as brigas. Confesso que não entendia os motivos. Não sei bem o que eles "conversam", nem que mensagens passam um ao outro.

O ponto é que, no resto do tempo, eles se dão bem, brincam e relaxam juntos.

Aí, veio a reflexão. A gente imagina que o relacionamento ideal é aquele tranquilo em que tudo dá certo, como nos grandes clichês das propagandas de margarina.

Os cães me ensinam todos os dias que a crueza da realidade no mundo não é tão ruim quanto os humanos pintam.

Fazendo a devida conversão, pessoas brigam. É inevitável.

A lição aqui é a maneira como os cachorros lidam com isso. Alguns vão dizer que eles têm aquela felicidade exagerada porque são ignorantes. Eu discordo.

Acho que cães são felizes por conta da relação deles com o tempo.

Não importa que o Barry mordeu o pescoço do Marvin em algum momento da tarde de ontem e doeu. Eles vão brincar hoje e vão se divertir.

O Barry não fica pensando se o Marvin vai roubar seu brinquedo amanhã. Ou se vai precisar dar uma mordida nele daqui a um mês.

Nenhum deles fica se remoendo por algo ruim que aconteceu ou por preocupação com algo de ruim que pode estar por vir. Simplesmente vivem o presente.



Gato ou cão, já parou para imaginar o que você pode aprender com seu bicho de estimação? O que você acha que ele teria para te dizer? Qual conselho ele te daria? O que ele faria no seu lugar?

Imaginar essas respostas ajudam bastante no meu dia a dia.

Mesmo que a solução possa ser: "OLHA! UM ESQUILO!". Até dá para tirar uma lição importante. Questão de interpretação.




Faça o teste!

terça-feira, 19 de março de 2013

Quase tentei


Existe um exercício bem interessante na terapia comportamental: fazer o cliente trocar o verbo "conseguir" pelo verbo "querer". Em qualquer uma de suas frases.

Dá até um nó na cabeça.

Viajando pela mesma linha esses dias, lembrei da conversa que tive com uma amiga.

Fazia algum tempo que nosso grupo em comum não se encontrava e tinha surgido a oportunidade em uma festa.

Sobre sua presença no evento, ela me disse:

— Vou tentar!

Imediatamente, me lembrei das palavras do Mestre Yoda e respondi:

— Não existe tentar! Ou você vai ou você não vai!

O que seria "tentar ir a algum lugar"?

Ontem, o sujeito tentou levantar da cama cedo, mas estava cansado demais e apertou o soneca do despertador diversas vezes. Perdeu a hora de chegar ao trabalho.

Depois, tentou pegar o ônibus, mas estava cheio e não conseguiu entrar.

Atrasado, tentou falar com o chefe, mas só dava caixa postal.

Em resumo: ele não levantou da cama cedo, não pegou o ônibus e não falou com o chefe.

Não questiono aqui as possibilidades e probabilidades da realização de cada uma das atividades acima. Até mesmo porque, a telefonia móvel não está facilitando, os ônibus andam bem lotados e a preguiça pode ser uma tirana.

O ponto é: por que é tão difícil assumir que simplesmente não fiz algo? Por que saber que a existência de uma "tentativa" é algo reconfortante para o que a gente não quer fazer ou não fez?

Vou aplicar exercício no dia a dia.

— Wilson, você estudou o tema?

— Eu ten... Não. Eu não estudei.

— Wilson, você está escrevendo com regularidade nos seus blogs?

— Eu estou tent... Não. Não escrevo com regularidade.

— Wilson, você está correndo três vezes por semana?

— Eu tent... Não. Não estou correndo.

Enfim. Já deu para entender.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os carros de Afrânio

Afrânio é um senhor que vive na zona norte de São Paulo.

Apaixonado por carros, é daquelas pessoas que todo mundo procura quando surge alguma dúvida. 

Perguntam sobre o melhor combustível, qual a frequência que deveriam alternar entre álcool e gasolina, se há problemas em ligar o carro com o ar-condicionado ligado, entre outras coisas.

Alguns anos antes de se aposentar em uma grande indústria farmacêutica, Afrânio começou a investir em um hobby: reuniu uma série de carros antigos que daria inveja a qualquer colecionador.


Um Impala 67, um Mustang 66 e seu favorito: Galaxie Standard 1970. Originais. Todo cuidado e manutenção com os carros clássicos fez com que Afrânio adquirisse um conhecimento impressionante sobre esse universo automobilístico.

Certa vez, seu sobrinho pegou o Mustang emprestado às escondidas. Na ocasião, Afrânio estava de férias, passeando pela Rota 66 com um Cadillac Eldorado 1968 alugado.

Após uma noitada bêbado com o Mustang, o sobrinho de Afrânio danificou o câmbio do carro. Felizmente, com mais 20 dias até o retorno do tio, o jovem imbecil conseguiu um conserto às pressas no mecânico do bairro.

Ao que parecia, o serviço tinha sido bom. Bom até Afrânio resolver passear com o Mustang. 

Logo nos primeiros quilômetros, percebeu vários barulhos inaudíveis para qualquer outra pessoa. Uma parte do painel que emitia pequenas vibrações, o volante que rangia ao tomar as direções, alguns graus de desalinhamento dos eixos dianteiros e uma mancha redonda meio apagada no painel, provavelmente de uma lata gelada.

Tudo isso fora o câmbio, que estava muito difícil de manusear. Travava e fazia barulhos irritantes.

Emputecido, Afrânio encontrou seu sobrinho e eles discutiram. Foi uma bronca de proporções épicas. "Irresponsável" seria um elogio dentro de todo o contexto de ofensas utilizadas na discussão.

Durante a briga, Afrânio estava tão alterado que nem sentiu sua mão soltando a chave do carro no chão. Tampouco, que não conseguia falar argumentos claros.

Quando a boca já estava torta para a direita, seu sobrinho foi o primeiro a se dar conta. Apenas alguns segundos para Afrânio cair no chão, ainda sem perceber que tivera um AVC.

Ele sobreviveu com algumas sequelas. 

Essa história deixa algumas dúvidas.

Por que era tão fácil para o Afrânio perceber o que há de errado com o carro, mas tão imperceptível qualquer mudança no próprio corpo?

Perceber que a luz do óleo no painel está acesa, mas passar batido que está dormindo mal por pura ansiedade.

Perceber a queda de rendimento de um motor, mas não se dar conta que o stress no trabalho o faz brigar por qualquer merdinha que acontece.

Saber e usar o melhor combustível para o carro, mas continuar comendo junk food rápido sem sair da mesa no trabalho.

Será que já não se trata mais do Afrânio? Que poucos realmente percebem o que está acontecendo na própria vida?

Outra coisa. Por que caralhas usei o nome "Afrânio"?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Self-Bullying?



A prática de bullying é condenável. Isso não dá para contestar. Só acho curioso a importância e o destaque que o assunto ganhou nos últimos anos.

Na verdade, voltei a escrever aqui não para trazer mais uma inútil definição/explicação sobre o tema, mas sim para compartilhar uma reflexão viajante.

Estava pensando que, no fundo, todos somos bullies. A diferença entre cada um de nós é o alvo das nossas brincadeiras de mal-gosto, imposição de força, chacota e etc.

Com as atenções voltadas para os diversos tipos de valentão clássico, esquecemos de uma série de pensamentos destrutivos que temos contra nós mesmos.

De repente, no banho, você lembra de uma coisa extremamente idiota que fez no colegial.

Antes de dormir, vem à cabeça algum erro de muitos anos atrás, só que amplificado por 1000.

Uma série de pensamentos que dão vontade de gritar: PORRA, CÉREBRO!



A partir daí, você se acha um monstro. Ou um completo idiota.

Até que chega um ponto em que isso começa a atrapalhar nossas vidas. Quando temos a certeza de que somos horríveis demais para realizar alguma coisa.

Os erros deixam de ser parte do aprendizado para se tornarem uma profecia pessimista que nos impede de arriscar.

"Eu sou péssimo nisso!"

"Eu não consigo pensar de outra maneira!"

"Eu não consigo ver de outra maneira!"

"Nunca mais eu vou conseguir fazer isso!"

Aí, como defesa, vem o clássico complexo de Gabriela: "Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim."

Ok! No fim, tudo se resume ao fato de que nossas atitudes, comportamentos e pensamentos têm consequências. Será que estaremos dispostos e preparados para encará-las?




domingo, 28 de outubro de 2012

Who cares?


Ontem, estava em uma churrascaria com alguns amigos. Um reencontro típico, com todas as intermináveis besteiras e idiotices que falamos para nos entreter.

Quando já estávamos no estágio da gula, satisfeitos com o que já tínhamos comido porém, ainda aceitando novos pedaços de fraldinha, costela e picanha, um fato no salão do lado chamou nossa atenção.

Um enorme grupo de pessoas chegava nessa ala fechada da churrascaria para uma festa de casamento. Sorrisos, falas e gritarias indistintas, além de toda aquela série de clichês.

Da nossa mesa, não demos muita bola para as festividades, até que chegou a hora de um dos clichês mais interessantes: o arremesso do buquê.

A namorada de um dos meus amigos, única mulher presente na mesa, comentou que ela acha esse momento muito constrangedor. Quando os bêbados da festa gritam “Encalhadas!” e algumas solteiras viram gladiadoras sanguinárias para capturar o ramalhete voador.

Depois de mais alguns comentários observando o evento, comecei a viajar e pensar na situação, no Facebook, nas minhas opiniões, convicções, na vida dos outros e a importância da tecla Foda-se em nossos cérebros.

Sobre a situação, pensei: “Foda-se! Qual o problema? Deixe as mulheres do casamento serem felizes e se divertirem. Por que eu estou aqui sendo ácido e criticando? Quantas coisas eu deixo de fazer porque imagino que as outras pessoas acham ridículo?”.

Sobre o Facebook, lembrei da seguinte tirinha dos Malvados:




Depois pensei: “Foda-se! Odeio gente que caga regra. Não quer ler o que o outro posta? Cancela a assinatura. Já fiz isso com várias pessoas que publicavam e compartilhavam conteúdos que não me agradavam.”

A rápida maré de pensamentos me levou a pensar no quanto eu deixo de curtir vários momentos por conta de algumas convicções e indignações. Em geral, elas são imbecis. Se quiser, mantenha as suas, mas estou tentando me livrar das minhas.

Por exemplo: acho ridículo que em tempos atuais, as pessoas ainda busquem pedigree e comprem cachorros e gatos com tantos animais abandonados precisando de um lar. Fiquei puto com a hipocrisia dos “ativistas de Facebook” por eu ter recebido uma caralhada de ligações e e-mails quando achei um Lhasa Apso perdido e absolutamente nenhuma quando anunciei um cãozinho de rua para adoção.

Foda-se! Vou deixar de brincar com o cachorro de um amigo por conta disso? Passar um sermão nele? Isso que é ridículo.

Odeio música sertaneja, dance music, axé, funk carioca, entre outros. Fecho a cara quando esse lixo toca no mesmo lugar que eu estou. Antes, ficava emputecido por conhecer gente que realmente gosta desses estilos. Depois, tentei achar explicações racionais para tentar entender a cabeça estranha dessas pessoas.

Hoje? Foda-se! Ainda posso ficar de mau humor quando alguém ouve isso perto de mim, mas se estiver numa festa e rolar esse tipo de som, vou dançar, pular, rir e não xingar. Confesso que isso ainda é bem difícil, mas estou evoluindo.


Enfim, foda-se tudo isso. Foda-se esse texto. Fodam-se todos os ativistas partidários, politicamente corretos, revoltados e pequenas autoridades de Facebook. O que eu quero é me divertir.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Hellmann’s Airlines

Quando eu estava no primeiro ano da faculdade, um professor disse que todos da minha geração eram muito jovens para fazer o curso de Psicologia.

Na época, não dei muita bola. Hoje, depois de passar um tempo de fora da área, percebi que tem certas coisas que a faculdade não ensina.

Foi necessário sair da área, respirar novos ares, conhecer pessoas e viver diferentes situações.

1 -  Bom senso.
Mesmo no 5º ano, alguns alunos reclamaram que não utilizávamos técnicas durante os atendimentos na clínica-escola. Fica a pergunta: será que, naqueles casos específicos, era necessário aplicar alguma técnica?

Assim como na música, ou outras áreas, a teoria é uma ferramenta, não a atividade em si.
Um guitarrista deve tocar música apenas para usar suas técnicas ou estuda as técnicas para tocar melhor suas músicas?
Atingir a maturidade do bom senso é tão importante quanto o conhecimento teórico?


2 - Desculpas.

Quando alguém não quer fazer algo, a criatividade para desculpas é infinita. Cabe até um estudo das capacidades do cérebro humano.


3 - Tempo.

Um tema intimamente relacionado ao tópico anterior. Com milhares de livros de auto-ajuda, textos compartilhados nas redes sociais, palestras e treinamento de desenvolvimento e administração do tempo, as pessoas ainda insistem em dizer que deixam de fazer algo por falta de tempo. Por que será que elas não assumem que priorizam e dão preferência a algumas atividades por puro interesse pessoal?


4 - Explicações não solicitadas.

Quando alguém começa a falar uma série de justificativas e explicações da própria personalidade que não foram pedidas por nenhum dos integrantes da conversa, fica a pergunta engatilhada: “quem você está tentando convencer? A mim ou você mesmo?”.


5 -  O que sou X o que faço.

Muita gente se define, primeiramente, pela profissão ou formação acadêmica. Isso é estranho, não? As pessoas se resumem apenas ao que elas fazem?
Ainda não descobri se esta é a definição mais fácil ou se simplesmente não nos interessa descobrir quem somos.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mundos



Todos os anos, a cada Virada Cultural, eu ouço comentários contra o evento. 

“Ai... É muita gente!”

“Meu amigo foi assaltado lá!”

“Você viu que morreu uma pessoa?”

“Está rolando o vinho químico e um monte de brigas por lá!”

“Ai... Estava no Metrô, vi que era muita gente e desisti...”

Até comentei com uma amiga: “Caraca! Eu devo viver no mundo da Coca-Cola, porque faz uns 7 anos que vou direto e nunca me aconteceu nada”.

Otimistas e pessimistas. Todos acham que são realistas.

Isso me fez pensar em outro assunto: o auto-engano.

É impossível dizer o que é a realidade. Sempre teremos uma percepção, próxima ou não, do que as coisas são.



No que diz respeito ao auto-conhecimento, nossa percepção pode ser ainda mais discrepante. Em geral, sabemos muito pouco sobre nós mesmos, até porque não queremos saber.

Aí, criamos um mundo próprio e personalizado para viver. Fiel a realidade? Nunca poderemos dizer.

A não ser que você tenha plena consciência de que o frio não existe, por exemplo. Que são só seus neurotransmissores passando uma informação ao cérebro.

Ou ao chutar uma mesinha de centro descalço, você pense convicto: “se eu não tivesse um cérebro, não sentiria dor. Logo, isso não é nada.”

E que um por do sol ou uma praia são a mesma paisagem monótona em qualquer lugar do mundo. Achar bonito ou feio é apenas outra mensagem entre suas sinapses.

Diferentes visões, julgamentos, percepções, sensações. Se cada um de nós cria o mundo em que vive e a ilusão não é prazerosa ou satisfatória, é mais fácil inventar um mundo novo. 

Acho que psicoterapia pode ajudar nessa tarefa.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Espelhos



Há alguns anos, participei de uma dinâmica de grupo na faculdade.

Tínhamos que escrever nossas características, positivas e negativas, em etiquetas adesivas.

Depois, ao som de uma música qualquer e em movimentação aleatória pela sala de aula, colaríamos as mesmas etiquetas em nossos colegas.

Que eu me lembre, o objetivo do exercício era mostrar alguns traços da própria personalidade e encontrar, em outra pessoa, algo similar.

Duas das minhas etiquetas ficaram registradas na memória até hoje. Uma dizia “egoísta” e a outra “preguiçoso”.

Em doses moderadas, o egoísmo é bom. É importante que cada um olhe para o próprio umbigo de vez em quando. Porém, em geral, a palavra tem conotação bem negativa.

Já a preguiça, apesar de ser uma delícia, também carrega um estigma ruim.

Ao fim da atividade, cada participante faria comentários das rotulações que receberam dos colegas.

A menina que recebeu “egoísta” falou, com lágrimas nos olhos, o quanto ela fazia questão de ajudar os outros, e receber tal adjetivo era uma grande injustiça. Momento de tensão no ar.

Outra colega também ficou indignada ao ser chamada de “preguiçosa”, e tendo o apoio de uma amiga, discursou sobre o quanto ela trabalhava durante o dia para ainda encarar a faculdade.

Confesso: eu não esperava que as minhas etiquetas seriam motivo de tanta polêmica.

No dia, fiquei em silêncio e até acanhado. Hoje, como num pop-up, a cena voltou na cabeça e pensei: se aquela característica era tão discrepante em relação a personalidade delas, por que será que incomodou tanto?

Será que enfiei uma bituca de cigarro em uma ferida aberta e girei?

O que incomoda é o que não gostamos em nós mesmos e preferimos nem pensar?

O que não gostamos no outro é justamente o que não temos coragem de assumir que somos ou fazemos?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Daqui de fora

Estou, há quase cinco anos, fora do mercado da Psicologia.

Meu número de CRP está inativo, mas o interesse pela área sempre correu junto comigo. Por leituras, pesquisas ou mesmo longas conversas com meus amigos e colegas de formação.

Hoje, vejo que eu era inexperiente demais no ano em que me formei. Experiência de vida também conta muito para um bom trabalho do psicólogo, e não apenas competência teórica e técnica. É a diferença entre conhecer a vida por livros e viver de verdade.

Esse fator “vida” faz com que você desenvolva mais empatia, que é essencial na Psicologia moderna.

Outro fator interessante é que passei a entender que os seres humanos não nascem com manual de instrução. Pensar dessa maneira me fez rotular menos. DSM’s e CID’s são excelentes auxiliares diagnósticos, mas os profissionais têm a mania de definir seus clientes pela enfermidade que carregam.

Esse excesso de diagnósticos, ramificações e subtipos criaram um efeito que alguém chamou brilhantemente de “Normalopatia”. Em resumo, um conceito de que existe um padrão de pessoas normais, livres de supostas doenças psicológicas.

Nesse sentido, a sublimação do Freud é um mecanismo de defesa extremamente útil para as pessoas seguirem com suas vidas. Fulano tem TOC de limpeza e foi trabalhar na vigilância sanitária. O sádico Ciclano, em vez de espancar pessoas nas ruas, seguiu uma brilhante e “prazerosa” carreira no UFC.

No fim, é esse o nosso papel como profissionais: ajudar o cliente, seja empresa, pessoa ou qualquer outro grupo, a seguir com sua vida e correr atrás de seus objetivos.

Infelizmente, essa ajuda é quase “passiva”, e na minha neurose, fico muito frustrado. Se o cliente não quiser ser ajudado, nosso trabalho parece ser em vão. Seria apenas mais uma função: eu finjo que presto um serviço e você finge que aproveita.

Tem que querer sair de casa sem a ajuda de antidepressivos.

Tem que querer manter o controle frente a pensamentos irracionais.

Tem que querer entender que somos responsáveis por tudo que acontece na nossa vida e que nossas escolhas têm consequências, agradáveis ou não.

Tem que querer se livrar do que supostamente incomoda.

Frente a essa quase “passividade” do psicólogo, vejo que minha volta ao mercado da Psicologia é muito difícil. Talvez seja um ponto importante para resolver em psicoterapia.