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quinta-feira, 23 de maio de 2019

A/C Aisha

Talita Aisha Oura. 大浦タリータ愛写

Nem sei se, quando você tiver idade para ler e compreender este texto, o Blogspot ainda vai existir. De qualquer maneira, escrevo apenas para expressar o que estou vivendo agora.

Quando eu e a sua mãe fizemos o vídeo de 上を向いて歩こう, só sabíamos que o nosso bebê tinha 70% de chances de ser menina.



Quando o ultrassom deu certeza do sexo, seu nome japonês surgiu primeiro: 愛写(あいしゃ - Aisha).
Tiramos ele da música 愛車リマインド da banda japonesa Jill-Decoy Association. Trocamos os kanjis para dar outro significado e mantivemos a pronúncia. Até porque Aisha é o nome da filha do Stevie Wonder que ele canta em Isn't she lovely.

“Talita” veio depois. Um pouco por causa da Tatá Werneck, um pouco também porque gostamos do nome.

Um querido primo nosso disse uma vez que “nós só aprendemos a ser filhos, quando viramos pais.”.

Faz muito sentido. Passamos a entender que, com os erros e acertos, nossos pais deram o melhor para nos criar.

Você é nossa primeira filha. Então, estamos com alguns medos. Normal, né? Ainda mais que todos dizem "a culpa é sempre dos pais". O que ajuda é focar no presente e curtir cada momento do seu desenvolvimento.

Eu e sua mãe, logo no começo do namoro, combinamos que não poderíamos tomar decisões por medo e que “viver com medo é viver pela metade”. Não sabemos de quem é essa frase.

Por um bom período do nosso casamento, não queríamos ter filhos. Só que um dia, percebemos que não ter filhos era uma resolução criada pelo medo.

Medo de que nossas viagens não fossem mais como antes.

Medo de não poder mais sair, tocar, curtir a noite.

Medo de não poder mais tomar umas cervejas e jogar videogame junto de nossos amigos.

Medo de perder a vida que tínhamos.

Aos poucos, alguns de nossos amigos tornaram-se pais. Eu e sua mãe fazíamos parte de três casais da turma que sobraram com a dúvida da paternidade.

Podemos dizer que quatro fatores foram cruciais para chamarmos você a este mundo.


1 - Este diálogo com um dos casais que ainda não eram pais.

— Se parar e pensar, a decisão mais racional é não ter filhos. — disse ela.

— Na verdade, não. Se você for racional, você tem filhos. — respondeu ele.
Repetindo o que falei acima, concluímos que não ter filhos seria uma decisão tomada pelo medo e não pela razão.

Ah! Eles ficaram grávidos antes da gente! Seu amigo Lucas nasceu meses antes de você.


2 - Encontro Feminino da Mahikari.

Eu não fui a esse evento. Sua mãe pode explicar melhor a inspiração que rolou por lá.


3 - Sua prima Amélie.

Eu e sua mãe nunca vimos a paternidade como algo mágico, meloso, romântico.

Nunca nos imaginamos correndo na praia em câmera lenta com você, sorrindo e saltitando nas nuvens com um braço sujo de merda que vazou da sua fralda dizendo: “Ser pai (mãe) é o sonho da minha vida!”. Tudo isso com corações vermelhos brotando da pele e flutuando ao redor das nossas cabeças.

Quando sua prima nasceu, 3 anos antes de você, vimos que a criança vem para integrar um grupo.

O grupo se adapta ao bebê e o bebê se adapta ao grupo. É até bom para aprender que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo.

Para nós, isso que corresponde a uma família. Ou, como somos fãs de cachorros, a uma matilha.


4 – O-Shogatsu

A família da sua mãe sempre foi grande. Leva um tempo para decorar todos os nomes, mas os encontros de Ano-Novo com todo mundo junto são sempre muito bons.

Sua avó materna é a caçula de 10 irmãos. A mamãe tem 40 primos de primeiro grau.

Sempre comentamos o quanto esses encontros são divertidos. Qualquer festa de aniversário vira um evento grande.

Só que, geração após geração, a quantidade de filhos diminui em cada núcleo familiar.

Hoje fala-se até que o conceito de primo será raro ou vai deixar de existir, porque a maioria dos casais tem apenas um filho.

— Ter família grande é gostoso, né?

— É!

— E aí, vocês vão ter filhos?

— Não!

Algo não bate nessa conta.

Pouco a pouco, nossa rotina mudou e não foi por sua causa. Paramos de tocar à noite, passamos a gravar nossas músicas em casa e espontaneamente tudo se preparou para a sua chegada.

Até o momento deste texto, trabalho em home-office. Tomara que isso seja realmente o futuro das relações de trabalho.

Toda essa introdução só para dizer o que me motivou a escrever esta “carta”. Talvez, um complemento ao nosso vídeo de 上を向いて歩こう.

Sabe a frase "Amarás o teu próximo como a ti mesmo"? Estava pensando: ela não é imperativa, e sim um bom indicativo das relações humanas.

O que quero dizer é: se não somos capazes de ter amor próprio, não conseguiremos amar qualquer outra pessoa.

Novamente o Caminho do Meio: é possível ser generosa sem esquecer o próprio bem-estar. Pensar em si mesma sem ser egoísta.

Até as companhias aéreas sabem disso: “Em caso de descompressão, coloque a máscara primeiro em você, depois na pessoa ao seu lado!”.

Autoestima não é só cuidar da beleza.

Se tudo der certo, conquistarei a faixa preta em Aikido quando você tiver uns 4 meses de idade. Mas não quero ser aquele pai clichê que vai fazer cara de mau para receber seu namorado. Estarei sempre pronto para te proteger, é claro, mas na minha cabeça, você também pode se tornar faixa preta de alguma arte marcial e ser bem capaz de se defender sozinha. Ainda mais se tiver a força da sua mãe (depois eu conto a história de quando ela quebrou o meu nariz com uma cabeçada no meio de um abraço).

Mas é isso. Quero muito que você seja feliz. Preocupação é realmente “ocupar-se antes da hora”.

Vai-se o desabafo, volto a curtir o momento. Vou colocar uma música porque sei que você sempre chuta e se mexe quando eu e sua mãe cantamos.

Espero que sempre confie na gente.

Beijo.

Papai.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Two and a half social conventions

Lá se foram alguns anos de casado e tem uma coisa que eu ainda não entendo: algumas piadas e reclamações sobre a vida pós matrimônio.

Felizmente, encontrei amigos casados que também pensam como eu. Assim, não me sinto tão alien.

A conclusão mais plausível que cheguei foi a de que reclamar da vida de casado faz parte de uma convenção social. Algo para você parecer "normal" no seu círculo de amigos que se lamuriam dos mesmos motivos comuns tirados de uma rasa conversa de novela ou programa humorístico global.

"A diferença entre casamento e prisão é que na prisão se pode jogar futebol aos domingos."

"Faltando dois dias para o casamento, o noivo muito católico vai procurar o padre: 
 Padre, eu vim aqui propor um negócio. Eu lhe trouxe mil reais, mas em troca eu quero que o senhor corte algumas coisinhas daquele discurso de casamento: 'Amar, honrar, ser fiel...'. É só não falar essa parte! 
O padre aceita o dinheiro, não fala nada e o noivo fica todo satisfeito. 
Quando chega o dia do casamento, o padre olha bem para o noivo e diz: 
 Promete viver apenas para ela, obedecer a cada uma de suas ordens, levar café na cama todos os dias e jurar perante Deus que nunca terá olhos para nenhuma outra mulher? 
O noivo, completamente sem graça e sem saída, acaba concordando. Mais tarde, durante a festa, chama o padre num canto: 
 Poxa, eu pensei que a gente tinha feito um acordo! 
O padre lhe devolve os mil reais: 
 Sinto muito, meu filho. Mas ela triplicou a sua oferta!"

Acima, duas piadas que encontrei em uma pesquisa no Google, mas existe muita gente que realmente pensa como esses personagens. Aí vem a pergunta: se essas pessoas sentem tanta falta da vida de solteiro, por que continuam casadas?

Acho que não sinto falta da minha vida de solteiro porque continuo fazendo as mesmas coisas. Jogo videogame, tomo cervejas, assisto séries e futebol americano. Tudo em dupla.

Não sinto falta do "começo do namoro, quando há borboletas no estômago e o fogo da paixão blablablablabla..."



Parando para pensar, eu prefiro estar onde estou agora. No começo do namoro eu queria impressionar: matar as baratas, bancar o "alfa", vencer discussões...

Ficava tenso para que a pessoa não se decepcionasse comigo. Hoje, eu quero apenas cultivar e oferecer o meu melhor lado no relacionamento. Ao meu ver é completamente diferente. Quero ser sempre uma pessoa melhor do que eu era antes, aprender com minha parceira e ser feliz. Ser verdadeiro.

Um amigo me disse: "você gosta da sua vida de casado porque ainda não tem filhos. Antes, minha mulher perguntava 'o que você quer comer? Hoje, ela não pergunta nada!'.

Ué! Eu não casei com um mordomo.
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"Eu vos declaro marido e Alfred!".

Toda essa introdução falando da minha luta contra convenções sociais só para dizer que esta cruzada vai ter um novo desafio.

Os mesmos que sempre reclamam de seus casamento são os mesmos que reclamam da paternidade.

A nova fase vem cheia de novos clichês:

"Uma piscina gelada em que todos os seus amigos estão lá dentro te chamando:  Vem, pode pular que a água ta quentinha!"

Se ainda não ficou claro: sim, vou ser pai. Minha matilha vai aumentar.

Acho que só comecei a escrever este texto para me policiar e talvez assumir um compromisso mental comigo, minha família e o novo integrante.

Longe de mim subestimar os desafios e dificuldades desta nova fase, mas desejo que eu nunca utilize a desculpa "não posso porque agora sou pai" em qualquer situação.

Almejei tanto por disciplina e parece que agora vou realmente precisar dela. Para não me atrasar nos compromissos, viagens, encontros e claro, meus treinos.

Quero dar o meu máximo para que meu filho ou filha não se sinta um peso na minha vida.

Detesto a ideia de que um dia ele possa se sentir como no quadrinho abaixo:


- Meus sonhos foram despedaçados anos atrás.

- Há quantos anos?

- Quantos anos você tem?

- ...

Bom, é isso. Quero curtir cada etapa. Sabe aquela história que a viagem é mais inportante que o destino? Então...

domingo, 30 de julho de 2017

Por que a gratidão mijou na cozinha?


Quando o Barry morreu, o Marvin se sentiu muito sozinho. Não teve jeito: adotamos a Susan em uma feirinha realizada pela ONG APPA. Sim, estou falando de cães.

Barry era um cachorro muito inteligente. Personalidade praticamente humana. Ele foi uma pessoa peluda de 4 patas.

Marvin é um cão muito alegre. Bom humor em 100% do dia. Corre, brinca, pula e fica com o rabo abanando o tempo todo.

Já a Susan é um pouco mais calma, porém tem uma característica que nos chama muito a atenção.

Quando ela termina de comer, ou no momento em que a libero da guia do passeio, ela para ao meu lado, senta e fica olhando. A sensação que dá é a de que ela está agradecendo: seja por ter sido adotada, pela refeição e até mesmo pela caminhada.

Sendo assim, Marvin representa a alegria e a Susan passou a ser associada à gratidão.

No geral, ambos são muito obedientes.

O problema é que de vez em quando, a Susan faz xixi na cozinha.

Nunca soube a causa, motivo, razão ou circunstância para ela fazer isso.

Primeiro deduzimos que era por causa do frio: ela percebe o quintal mais gelado do que dentro da casa e desencana de ir até lá. A teoria caiu por terra quando o problema se repetiu no verão.

Depois, achamos que era porque o quintal estava sujo, com cocô do Marvin. Teoria descartada: um dia, a cozinha estava mijada mesmo com tudo limpinho lá fora.

Nunca descobrimos o que realmente acontece, até que de repente me deu um estalo: por que a gratidão mijou na cozinha?

Quando penso nessa pergunta, vem um monte de coisas na cabeça: todas as vezes que reclamei do trânsito, trabalho, vizinhos, conexão da internet, fome, preguiça, sono, frio e etc.

As filosofias orientais em geral valorizam muito o sentimento de gratidão, e uma reclamação é um sinal de que não estamos satisfeitos.

Porém, é uma questão de ponto de vista. Se estou preso no trânsito, é um sinal que tive condições de comprar um carro. Condições que vieram do meu trabalho, que também me ajuda a pagar as outras contas, financiar minhas viagens e cervejas.

Se o vizinho é chato e há conexão de internet, significa que tive condições de viver em uma casa. Por mais clichê que soe, é um privilégio que não existe para muita gente no mundo.

Já fiquei puto porque meu almoço atrasou umas horas. Depois de comer, parei para pensar: isso não é nada. Um monte de gente ainda morre de fome. Ficar de mau humor por conta disso é um puro melindre. Frescura mesmo. Tem uma padaria a cada esquina em São Paulo onde posso comprar um bolovo que seja.

Mas sem sofrência.

É uma perda de tempo sofrer pelo que não se pode mudar. Com pé no chão é melhor pensar: "está engarrafado? Ouça a música!", "Internet está lenta? Leia um livro!" e por aí vai.

Não há como comprovar a relação. Não reparei com atenção se quando estou com os pensamentos mais gratos, a Susan deixa de mijar na cozinha.

O importante é o resultado. Essa reflexão faz com que eu me policie para ter pensamentos mais produtivos e positivos. Porque entendo que a reclamação só atrapalha e deixa ansioso.

Obrigado ou ありがとうございます!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Ansiedade



Era uma sexta-feira qualquer. Estava entediado de pé em um metrô lotado tentando enviar um arquivo via WhatsApp para alguém. Não me lembro quem.

Falhou.

Novamente.

De novo.

Respirei fundo e desisti. Esperaria voltar à superfície da civilização para fazer isso sem me estressar.

Fiquei pensando. Não é por nada que as pessoas ficam estressadas em São Paulo. Aqui, te prometem uma cidade que oferece yakissobas e caldinho de mocotó às 3h da madrugada. A maioria das coisas 24 horas por dia.

E você acredita nisso.

Aí, acaba morando por aqui com essa expectativa.

Como é impossível saber onde começa o círculo vicioso, vamos escolher qualquer situação como ponto de partida.

O cara já vem para São Paulo porque é ansioso. Quer tudo na hora. Quer o tal caldinho de mocotó às 3h da manhã. Admira isso numa grande metrópole.

Já faz alguns anos que vive aqui e ele nunca pediu o tal caldinho. No máximo, foi ao Chico Hambúrguer 24 horas após uma balada.

O sujeito comprou um Punto Jet porque sempre soube que o transporte público da cidade é horrível, porém, começa a pegar um engarrafamento matador todos os dias.

Depois que viaja para Nova York, passa a admirar toda a malha de metrô da cidade e resolve aproveitar melhor o que tem em Sampa.

De repente, seu imediatismo ansioso, que já estava sendo duramente testado nos longos engarrafamentos provocados por motoboys que acham que dirigem ônibus e motoristas de ônibus que pensam que pilotam motos, é golpeado.

Já não adiantava costurar entre as faixas, ultrapassar pela direita ou dar uma escapada pelo corredor de ônibus. Enquanto ficava parado, via as mensagens dos grupos do WhatsApp e Facebook. Quando conseguia, ligava para alguém, só para ter com quem conversar.

No metrô, tudo piorou. Além das paradas operacionais, objetos na via e tentativas de suicídio, nesses momentos o sinal da Vivo também vive caindo.

Nada de 3G. Nada de Wi-fi. Reclamava que o Facebook era 50% pessoas felizes e 50% pessoas que se autointitularam formadores de opinião, mas naquela altura, sentia falta até desses posts.

No trabalho, ligava para seus colegas para ver se tinham recebido o e-mail.

Nas conversas de corredor, reclamava que as atualizações de sistema do PS3 demoravam muito tempo, embora levassem, no máximo, 10 minutos para acabar.

Enquanto o Windows ou qualquer outro software carregava, jogava Candy Crush. Mesmo que fosse só por alguns segundos.

Não utilizava mais Sedex para enviar qualquer coisa. Tinha que contratar um motoboy para ser mais rápido.

Enfim. Alguém ansioso quer tudo na hora. Surgem ferramentas que oferecem rapidez. Acontecem falhas diversas. Vem a frustração. Resultado: mais ansiedade.

Se a preguiça move a evolução, a ansiedade move a tecnologia.

São Paulo atrai porque tem tudo, só que ao mesmo tempo, nada funciona.

A gente contrata um pacote motherfucker na operadora de celular. Só que ficamos sem sinal em um monte de lugares.

Com 200 minutos no plano, a frase mais ouvida/falada é: "A ligação está falhando!".

Pega o Metrô para escapar do trânsito e não entra no vagão porque a estação está lotada.

Compra um carro 8.0 que é tão rápido quanto uma diarreia, e fica preso imóvel na 23 de maio.

Assina um pacote de internet banda larga em casa com 10 mega/segundo e a conexão é instável e a velocidade oficial é de 200 kb.

Contrata um motoboy para entregar as coisas rápido, mas depois sofre com a confusão que alguns deles causam nas avenidas.

Mas o caldinho de mocotó...  Esse você consegue às 3h da manhã. Às vezes.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Admiração

Já admirei alguns colegas da escola.

Porque eles eram sociáveis e engraçados.

Hoje, só admiro os amigos próximos que ficaram na minha vida.


Admirava muito o Bruce Lee.

Porque ele descia o cacete em todo mundo.

Hoje, admiro as artes marciais apenas como uma forma de buscar equilíbrio e saúde.


Admirava os intelectuais.

Porque eles liam bastante e eram cultos.

Hoje, acho esse rótulo uma babaquice e admiro quem não vende qualquer tipo de auto-imagem.


Admirava os politizados.

Porque eles tinham opinião sobre tudo que acontecia com o país e sabiam com certeza o que precisava ser feito.

Hoje, enxergo o quanto esse eles são fechados em suas dogmas como nas piores religiões.


Admirava os apaixonados pelo futebol.

Porque eles realmente veneravam seus clubes na vitória e na derrota com o maior dos orgulhos.

Hoje, vejo corrupção por todos os lados, violência e cegueira por conveniência.


Admirava os paulistanos.

Porque eles eram trabalhadores, faziam horas extras e adoravam falar sobre o que acontece no próprio emprego.

Hoje, entendo que isso é um desperdício de vida e admiro quem consegue usar seu trabalho como uma ferramenta para se realizar, alcançar sonhos, fazer seus hobbies e viver melhor.


Já admirei os bem-sucedidos.

Porque eles tinham muito dinheiro, frequentavam lugares caros, festas badaladas, usavam grifes e consumiam coisas refinadas.

Hoje, acho que muitos desses lugares, serviços e produtos são um desperdício de tempo. Admiro um bom boteco com cerveja, petiscos e amigos.


Já admirei os briguentos.

Porque eles não desistiam até ganhar uma discussão e convenciam os outros a aceitarem seu ponto de vista.

Hoje, percebo o quanto essas discussões são desagradáveis e desnecessárias.


No fim, admiro tudo que aprendo.

Porque a sensação de perceber as coisas de maneiras diferentes do que eu via antes me deixa feliz.

Daqui uns anos, provavelmente eu vou olhar para o passado e me achar um completo idiota. Da mesma maneira que faço agora.

Mas isso é parte da experiência. Foda-se.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A difícil atualização da tecla "Foda-se".


Hoje de manhã, fomos correr com Barry White e Marvin Gaye, meus queridos vira-latas.

Sempre tive conhecimento de diversas fontes de adestramento e que é necessário um toque firme na coleira para controlar e educar o cão durante o passeio.

Como Marvin ainda não foi castrado, mesmo depois do exercício, ele ainda estava meio agitado. Corria, acelerava e queria ultrapassar o Barry que estava na frente. Por isso, eu o corrigia com o auxílio do toque na coleira. Até aí, tudo normal. Um desejo pela liderança de um cachorro na flor da puberdade esbanjando testosterona.

Eis que na rua, parou um sedan prata do meu lado com um senhor e uma mulher pouco mais nova e eles me chamaram.

Eu achei que eles queriam alguma informação. Aí, parei e me agachei para falar com eles.

Foi então que o homem me falou algo parecido com isto:

— Posso te pedir uma coisa? Não maltrate o cachorrinho. Ele é só um filhote! Se você não gosta, doa, mas não maltrata. Eu vi você puxando a coleira e enforcando o coitadinho.

Eu respondi:

— Imagina! Eu adoro eles... Isso é para correção.

— Mas você maltrata o cachorro. Ele é filhote!

Para não prolongar a conversa, abri um sorriso e respondi:

— Ok! Obrigado!

O carro foi embora e nós voltamos para casa.

Dessa cena, vieram as seguintes reflexões:

1 - Acho que tive a atitude correta de não prolongar uma provável discussão e resolver educadamente a história.

2 - Descobri que não sou tão zen assim. Momentos mais tarde, fiquei ofendido, chateado e puto da vida, ao pensar nessa intromissão do casal. A primeira coisa que pensei deles foi: eles devem ser do tipo que deixam o cachorro, ou os próprios filhos, reinarem sobre a casa e a vida deles. Mas parei de pensar dessa maneira, porque assim como eles, estaria julgando a situação e o mundo deles sem ter qualquer conhecimento.

3 - Depois até me senti culpado, pensando se eu estava realmente machucando o cachorro. Mas logo ignorei esse pensamento porque um cachorro escandaloso como o Marvin (meus vizinhos que o digam) não ficaria quieto se sentisse qualquer dor durante o passeio.

4 - Temos que tomar cuidado com o que lemos ou vemos na internet. Numa dessas, o cara poderia viralizar no Facebook uma foto minha, puxando o Marvin para perto de mim, com algum título que falasse de maus tratos de animais.

5 - Minha tecla "Foda-se" não está devidamente atualizada, porque fiquei me remoendo, a ponto de escrever este post, só por causa da opinião de um estranho idiota.


No fim, depois de divagar muito sobre o assunto, não tenho com o que me preocupar.

Marvin e Barry são saudáveis, brincalhões, carinhosos e adoram os humanos deles. Não há dúvidas disso.

Tentando ser zen novamente, posso até aplaudir o casal por essa preocupação e por terem coragem de falar com alguém sobre uma situação que os preocupou. Eles só escolheram a pessoa errada.

Segunda movimentada. A situação teria sido muito mais legal se o Marvin tivesse o impulso de mijar no carro deles, antes que fôssemos embora. Posso até imaginar uma cena assim.

De qualquer maneira, para eu não ficar engasgado com isso, uma mensagem final:

Prezado senhor do sedan prata e sua filha/esposa/companheira: vão tomar no cu.

terça-feira, 19 de março de 2013

Quase tentei


Existe um exercício bem interessante na terapia comportamental: fazer o cliente trocar o verbo "conseguir" pelo verbo "querer". Em qualquer uma de suas frases.

Dá até um nó na cabeça.

Viajando pela mesma linha esses dias, lembrei da conversa que tive com uma amiga.

Fazia algum tempo que nosso grupo em comum não se encontrava e tinha surgido a oportunidade em uma festa.

Sobre sua presença no evento, ela me disse:

— Vou tentar!

Imediatamente, me lembrei das palavras do Mestre Yoda e respondi:

— Não existe tentar! Ou você vai ou você não vai!

O que seria "tentar ir a algum lugar"?

Ontem, o sujeito tentou levantar da cama cedo, mas estava cansado demais e apertou o soneca do despertador diversas vezes. Perdeu a hora de chegar ao trabalho.

Depois, tentou pegar o ônibus, mas estava cheio e não conseguiu entrar.

Atrasado, tentou falar com o chefe, mas só dava caixa postal.

Em resumo: ele não levantou da cama cedo, não pegou o ônibus e não falou com o chefe.

Não questiono aqui as possibilidades e probabilidades da realização de cada uma das atividades acima. Até mesmo porque, a telefonia móvel não está facilitando, os ônibus andam bem lotados e a preguiça pode ser uma tirana.

O ponto é: por que é tão difícil assumir que simplesmente não fiz algo? Por que saber que a existência de uma "tentativa" é algo reconfortante para o que a gente não quer fazer ou não fez?

Vou aplicar exercício no dia a dia.

— Wilson, você estudou o tema?

— Eu ten... Não. Eu não estudei.

— Wilson, você está escrevendo com regularidade nos seus blogs?

— Eu estou tent... Não. Não escrevo com regularidade.

— Wilson, você está correndo três vezes por semana?

— Eu tent... Não. Não estou correndo.

Enfim. Já deu para entender.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Hein?

Quando vejo este filme...


... eu quase choro igual ao Debi e o Loide  no comercial da Pacific Bell.


Eu sei. Ridículo, né?

Primeiro, vem aquela questão: "deixar um mundo melhor para os filhos, ou filhos melhores para o mundo?".


Bom. Acho que estamos cagando nos dois aspectos.


Se parar para pensar. Todas as coisas estão meio esquisitas.

Essa última semana, perguntei para uma amiga se era a "semana mundial das notícias bizarras".

Só olhando por cima: homofóbicos, racistas e condenados assumindo cargos importantes.

Vi várias histórias sobre censura e sobre como a ditadura está voltando.

Salários diminuem. Pessoas morrem ou adoecem. Alguns são ídolos.

Outros são atropelados, têm o braço arrancado e jogado no córrego. A retrospectiva da Globo vai ser movimentada no fim do ano.

Acho que eu andava sem trabalho nas últimas semanas. Parecia que eu estava numa lan house. Por isso, acabei acompanhando tudo que era compartilhado. Senti um pouco de falta das boas notícias.

Ao ver tudo isso, na cabeça fica a música do Marvin Gaye:


What the fuck, world?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os carros de Afrânio

Afrânio é um senhor que vive na zona norte de São Paulo.

Apaixonado por carros, é daquelas pessoas que todo mundo procura quando surge alguma dúvida. 

Perguntam sobre o melhor combustível, qual a frequência que deveriam alternar entre álcool e gasolina, se há problemas em ligar o carro com o ar-condicionado ligado, entre outras coisas.

Alguns anos antes de se aposentar em uma grande indústria farmacêutica, Afrânio começou a investir em um hobby: reuniu uma série de carros antigos que daria inveja a qualquer colecionador.


Um Impala 67, um Mustang 66 e seu favorito: Galaxie Standard 1970. Originais. Todo cuidado e manutenção com os carros clássicos fez com que Afrânio adquirisse um conhecimento impressionante sobre esse universo automobilístico.

Certa vez, seu sobrinho pegou o Mustang emprestado às escondidas. Na ocasião, Afrânio estava de férias, passeando pela Rota 66 com um Cadillac Eldorado 1968 alugado.

Após uma noitada bêbado com o Mustang, o sobrinho de Afrânio danificou o câmbio do carro. Felizmente, com mais 20 dias até o retorno do tio, o jovem imbecil conseguiu um conserto às pressas no mecânico do bairro.

Ao que parecia, o serviço tinha sido bom. Bom até Afrânio resolver passear com o Mustang. 

Logo nos primeiros quilômetros, percebeu vários barulhos inaudíveis para qualquer outra pessoa. Uma parte do painel que emitia pequenas vibrações, o volante que rangia ao tomar as direções, alguns graus de desalinhamento dos eixos dianteiros e uma mancha redonda meio apagada no painel, provavelmente de uma lata gelada.

Tudo isso fora o câmbio, que estava muito difícil de manusear. Travava e fazia barulhos irritantes.

Emputecido, Afrânio encontrou seu sobrinho e eles discutiram. Foi uma bronca de proporções épicas. "Irresponsável" seria um elogio dentro de todo o contexto de ofensas utilizadas na discussão.

Durante a briga, Afrânio estava tão alterado que nem sentiu sua mão soltando a chave do carro no chão. Tampouco, que não conseguia falar argumentos claros.

Quando a boca já estava torta para a direita, seu sobrinho foi o primeiro a se dar conta. Apenas alguns segundos para Afrânio cair no chão, ainda sem perceber que tivera um AVC.

Ele sobreviveu com algumas sequelas. 

Essa história deixa algumas dúvidas.

Por que era tão fácil para o Afrânio perceber o que há de errado com o carro, mas tão imperceptível qualquer mudança no próprio corpo?

Perceber que a luz do óleo no painel está acesa, mas passar batido que está dormindo mal por pura ansiedade.

Perceber a queda de rendimento de um motor, mas não se dar conta que o stress no trabalho o faz brigar por qualquer merdinha que acontece.

Saber e usar o melhor combustível para o carro, mas continuar comendo junk food rápido sem sair da mesa no trabalho.

Será que já não se trata mais do Afrânio? Que poucos realmente percebem o que está acontecendo na própria vida?

Outra coisa. Por que caralhas usei o nome "Afrânio"?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Self-Bullying?



A prática de bullying é condenável. Isso não dá para contestar. Só acho curioso a importância e o destaque que o assunto ganhou nos últimos anos.

Na verdade, voltei a escrever aqui não para trazer mais uma inútil definição/explicação sobre o tema, mas sim para compartilhar uma reflexão viajante.

Estava pensando que, no fundo, todos somos bullies. A diferença entre cada um de nós é o alvo das nossas brincadeiras de mal-gosto, imposição de força, chacota e etc.

Com as atenções voltadas para os diversos tipos de valentão clássico, esquecemos de uma série de pensamentos destrutivos que temos contra nós mesmos.

De repente, no banho, você lembra de uma coisa extremamente idiota que fez no colegial.

Antes de dormir, vem à cabeça algum erro de muitos anos atrás, só que amplificado por 1000.

Uma série de pensamentos que dão vontade de gritar: PORRA, CÉREBRO!



A partir daí, você se acha um monstro. Ou um completo idiota.

Até que chega um ponto em que isso começa a atrapalhar nossas vidas. Quando temos a certeza de que somos horríveis demais para realizar alguma coisa.

Os erros deixam de ser parte do aprendizado para se tornarem uma profecia pessimista que nos impede de arriscar.

"Eu sou péssimo nisso!"

"Eu não consigo pensar de outra maneira!"

"Eu não consigo ver de outra maneira!"

"Nunca mais eu vou conseguir fazer isso!"

Aí, como defesa, vem o clássico complexo de Gabriela: "Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim."

Ok! No fim, tudo se resume ao fato de que nossas atitudes, comportamentos e pensamentos têm consequências. Será que estaremos dispostos e preparados para encará-las?




domingo, 28 de outubro de 2012

Who cares?


Ontem, estava em uma churrascaria com alguns amigos. Um reencontro típico, com todas as intermináveis besteiras e idiotices que falamos para nos entreter.

Quando já estávamos no estágio da gula, satisfeitos com o que já tínhamos comido porém, ainda aceitando novos pedaços de fraldinha, costela e picanha, um fato no salão do lado chamou nossa atenção.

Um enorme grupo de pessoas chegava nessa ala fechada da churrascaria para uma festa de casamento. Sorrisos, falas e gritarias indistintas, além de toda aquela série de clichês.

Da nossa mesa, não demos muita bola para as festividades, até que chegou a hora de um dos clichês mais interessantes: o arremesso do buquê.

A namorada de um dos meus amigos, única mulher presente na mesa, comentou que ela acha esse momento muito constrangedor. Quando os bêbados da festa gritam “Encalhadas!” e algumas solteiras viram gladiadoras sanguinárias para capturar o ramalhete voador.

Depois de mais alguns comentários observando o evento, comecei a viajar e pensar na situação, no Facebook, nas minhas opiniões, convicções, na vida dos outros e a importância da tecla Foda-se em nossos cérebros.

Sobre a situação, pensei: “Foda-se! Qual o problema? Deixe as mulheres do casamento serem felizes e se divertirem. Por que eu estou aqui sendo ácido e criticando? Quantas coisas eu deixo de fazer porque imagino que as outras pessoas acham ridículo?”.

Sobre o Facebook, lembrei da seguinte tirinha dos Malvados:




Depois pensei: “Foda-se! Odeio gente que caga regra. Não quer ler o que o outro posta? Cancela a assinatura. Já fiz isso com várias pessoas que publicavam e compartilhavam conteúdos que não me agradavam.”

A rápida maré de pensamentos me levou a pensar no quanto eu deixo de curtir vários momentos por conta de algumas convicções e indignações. Em geral, elas são imbecis. Se quiser, mantenha as suas, mas estou tentando me livrar das minhas.

Por exemplo: acho ridículo que em tempos atuais, as pessoas ainda busquem pedigree e comprem cachorros e gatos com tantos animais abandonados precisando de um lar. Fiquei puto com a hipocrisia dos “ativistas de Facebook” por eu ter recebido uma caralhada de ligações e e-mails quando achei um Lhasa Apso perdido e absolutamente nenhuma quando anunciei um cãozinho de rua para adoção.

Foda-se! Vou deixar de brincar com o cachorro de um amigo por conta disso? Passar um sermão nele? Isso que é ridículo.

Odeio música sertaneja, dance music, axé, funk carioca, entre outros. Fecho a cara quando esse lixo toca no mesmo lugar que eu estou. Antes, ficava emputecido por conhecer gente que realmente gosta desses estilos. Depois, tentei achar explicações racionais para tentar entender a cabeça estranha dessas pessoas.

Hoje? Foda-se! Ainda posso ficar de mau humor quando alguém ouve isso perto de mim, mas se estiver numa festa e rolar esse tipo de som, vou dançar, pular, rir e não xingar. Confesso que isso ainda é bem difícil, mas estou evoluindo.


Enfim, foda-se tudo isso. Foda-se esse texto. Fodam-se todos os ativistas partidários, politicamente corretos, revoltados e pequenas autoridades de Facebook. O que eu quero é me divertir.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Hellmann’s Airlines

Quando eu estava no primeiro ano da faculdade, um professor disse que todos da minha geração eram muito jovens para fazer o curso de Psicologia.

Na época, não dei muita bola. Hoje, depois de passar um tempo de fora da área, percebi que tem certas coisas que a faculdade não ensina.

Foi necessário sair da área, respirar novos ares, conhecer pessoas e viver diferentes situações.

1 -  Bom senso.
Mesmo no 5º ano, alguns alunos reclamaram que não utilizávamos técnicas durante os atendimentos na clínica-escola. Fica a pergunta: será que, naqueles casos específicos, era necessário aplicar alguma técnica?

Assim como na música, ou outras áreas, a teoria é uma ferramenta, não a atividade em si.
Um guitarrista deve tocar música apenas para usar suas técnicas ou estuda as técnicas para tocar melhor suas músicas?
Atingir a maturidade do bom senso é tão importante quanto o conhecimento teórico?


2 - Desculpas.

Quando alguém não quer fazer algo, a criatividade para desculpas é infinita. Cabe até um estudo das capacidades do cérebro humano.


3 - Tempo.

Um tema intimamente relacionado ao tópico anterior. Com milhares de livros de auto-ajuda, textos compartilhados nas redes sociais, palestras e treinamento de desenvolvimento e administração do tempo, as pessoas ainda insistem em dizer que deixam de fazer algo por falta de tempo. Por que será que elas não assumem que priorizam e dão preferência a algumas atividades por puro interesse pessoal?


4 - Explicações não solicitadas.

Quando alguém começa a falar uma série de justificativas e explicações da própria personalidade que não foram pedidas por nenhum dos integrantes da conversa, fica a pergunta engatilhada: “quem você está tentando convencer? A mim ou você mesmo?”.


5 -  O que sou X o que faço.

Muita gente se define, primeiramente, pela profissão ou formação acadêmica. Isso é estranho, não? As pessoas se resumem apenas ao que elas fazem?
Ainda não descobri se esta é a definição mais fácil ou se simplesmente não nos interessa descobrir quem somos.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Vacinação em Entrevistas de Emprego


A experiência faz você observar mais os fatos e tirar algumas conclusões.

Ao conhecer e passar por diversas empresas, grandes e pequenas, você pode pensar que apenas o seu mercado de trabalho é ruim.

Não é bem assim.


Depois de conversar com um amigo que teve metade do cachê roubado pelo próprio agente, outro que tem uma batalha diária contra os calotes dos clientes, é fácil concluir que há filhos da puta em todas as áreas.

Portanto, a presença de um filho da puta deixa de ser um critério de escolha ao avaliar seu próximo destino. Algum certamente estará lá.

Aliás, está cada vez mais difícil tomar uma decisão. Da mesma maneira que todos os smartphones imitam o iPhone, todas as empresas parecem iguais.

Por exemplo, um fato comum entre todas é que, sempre quando vão propor um salário menor que o desejado, os entrevistadores falam:

- Olha, o salário é menor, mas aqui, você vai ter um carimbo na carteira de trabalho da Mother Fucking Big Corporation. Imagine isso no seu currículo.

Ou no caso de uma empresa pequena:

- Olha, o salário é menor do que você está pedindo. Mas veja que grande oportunidade! Você vai poder crescer junto com a gente!

Na primeira vez que ouve um discurso assim, você acredita com empolgação.

Tempos depois, só acredita com um pé atrás.

Aos 30 e com conhecimento empírico, tudo que vem à mente é a seguinte cena:

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mundos



Todos os anos, a cada Virada Cultural, eu ouço comentários contra o evento. 

“Ai... É muita gente!”

“Meu amigo foi assaltado lá!”

“Você viu que morreu uma pessoa?”

“Está rolando o vinho químico e um monte de brigas por lá!”

“Ai... Estava no Metrô, vi que era muita gente e desisti...”

Até comentei com uma amiga: “Caraca! Eu devo viver no mundo da Coca-Cola, porque faz uns 7 anos que vou direto e nunca me aconteceu nada”.

Otimistas e pessimistas. Todos acham que são realistas.

Isso me fez pensar em outro assunto: o auto-engano.

É impossível dizer o que é a realidade. Sempre teremos uma percepção, próxima ou não, do que as coisas são.



No que diz respeito ao auto-conhecimento, nossa percepção pode ser ainda mais discrepante. Em geral, sabemos muito pouco sobre nós mesmos, até porque não queremos saber.

Aí, criamos um mundo próprio e personalizado para viver. Fiel a realidade? Nunca poderemos dizer.

A não ser que você tenha plena consciência de que o frio não existe, por exemplo. Que são só seus neurotransmissores passando uma informação ao cérebro.

Ou ao chutar uma mesinha de centro descalço, você pense convicto: “se eu não tivesse um cérebro, não sentiria dor. Logo, isso não é nada.”

E que um por do sol ou uma praia são a mesma paisagem monótona em qualquer lugar do mundo. Achar bonito ou feio é apenas outra mensagem entre suas sinapses.

Diferentes visões, julgamentos, percepções, sensações. Se cada um de nós cria o mundo em que vive e a ilusão não é prazerosa ou satisfatória, é mais fácil inventar um mundo novo. 

Acho que psicoterapia pode ajudar nessa tarefa.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Espelhos



Há alguns anos, participei de uma dinâmica de grupo na faculdade.

Tínhamos que escrever nossas características, positivas e negativas, em etiquetas adesivas.

Depois, ao som de uma música qualquer e em movimentação aleatória pela sala de aula, colaríamos as mesmas etiquetas em nossos colegas.

Que eu me lembre, o objetivo do exercício era mostrar alguns traços da própria personalidade e encontrar, em outra pessoa, algo similar.

Duas das minhas etiquetas ficaram registradas na memória até hoje. Uma dizia “egoísta” e a outra “preguiçoso”.

Em doses moderadas, o egoísmo é bom. É importante que cada um olhe para o próprio umbigo de vez em quando. Porém, em geral, a palavra tem conotação bem negativa.

Já a preguiça, apesar de ser uma delícia, também carrega um estigma ruim.

Ao fim da atividade, cada participante faria comentários das rotulações que receberam dos colegas.

A menina que recebeu “egoísta” falou, com lágrimas nos olhos, o quanto ela fazia questão de ajudar os outros, e receber tal adjetivo era uma grande injustiça. Momento de tensão no ar.

Outra colega também ficou indignada ao ser chamada de “preguiçosa”, e tendo o apoio de uma amiga, discursou sobre o quanto ela trabalhava durante o dia para ainda encarar a faculdade.

Confesso: eu não esperava que as minhas etiquetas seriam motivo de tanta polêmica.

No dia, fiquei em silêncio e até acanhado. Hoje, como num pop-up, a cena voltou na cabeça e pensei: se aquela característica era tão discrepante em relação a personalidade delas, por que será que incomodou tanto?

Será que enfiei uma bituca de cigarro em uma ferida aberta e girei?

O que incomoda é o que não gostamos em nós mesmos e preferimos nem pensar?

O que não gostamos no outro é justamente o que não temos coragem de assumir que somos ou fazemos?

segunda-feira, 26 de março de 2012

Trintão cansado

Este blog mudou de cara.

Troquei o layout e apaguei todas as postagens antigas. Deixei apenas as de 2011.

Por que fiz isso? Bom. As ideias mudaram. A cabeça mudou.

Posso dizer que cheguei aos 30 anos e cansei.

Cansei de me irritar com assuntos que estão além do meu controle.

Cansei de me meter em questões polêmicas do mundo, só para mostrar minha opinião. Tanto em bares quanto em redes sociais.

Cansei de tentar convencer, provar, defender e explicar para as pessoas o que eu acho legal. Gosto é realmente igual ao cu, e sendo bom ou sendo mau, cada um tem o seu. E foda-se.

Cansei de justificar o inútil e mostrar meu melhor lado para quem não se importa e/ou para quem eu não dou a mínima.

Cansei de me sentir vencedor em momentos que não fazem a menor diferença na vida.

Cansei de falar de política. Não entendo porra nenhuma. Só sei que está uma merda e que não tenho a menor ideia do que fazer para mudar alguma coisa. Se alguém souber e precisar de ajuda, pode me chamar.

Cansei de brigar e me estressar por causa de futebol. Nenhum daqueles milionários paga as minhas contas.

Cansei da mania paulistana de orgulhosamente contar histórias sobre excesso de trabalho e horas-extras mal pagas.

Cansei de me comparar com quem acho que esteja melhor ou pior do que eu. Cada um na sua.

Cansei de leituras, filmes, lugares e momentos “obrigatórios”.

Para encerrar, cansei de me eximir da responsabilidade da minha vida.