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quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Sem frio
Era inverno. Isso atrapalhou também.
No meio de julho em São Paulo, Dirceu acordou e não sentiu tanto frio. Era aquele clima ideal que agrada calorentos e friorentos. Temperatura em torno dos 16 graus, sol e um pouco de vento. Paulistanos confusos saíam nas ruas alguns com casaco, outros sem.
Porém, estava nevando. Isso que era estranho.
Dirceu nunca tinha visto aquilo em São Paulo. Os pontinhos esbranquiçados caíam sem parar. Era algo que poderia dividir opiniões. Não parecia ser algo macio como a neve do Chile, tampouco lembravam cristais de gelo do Japão.
Na janela, viu que os carros trafegavam sem escorregar pela avenida.
Curioso, ligou no Bom Dia São Paulo para ver se algo foi mencionado. Nada! Crimes, engarrafamento nas marginais, a rodada do futebol...
Estaria alucinando?
Nem parecia que Dirceu estava tão intrigado. Seguiu com sua rotina da manhã com todos os seus movimentos automáticos.
Dourou um pão de forma com manteiga na frigideira, passou cream cheese depois, jogou leite em pó direto no café, escovou os dentes, vestiu seu terno e saiu de casa.
A essa altura, nem prestava mais atenção na neve que continuava caindo.
Já no seu carro, a minúscula nevasca foi foco. Dirigiu com cuidado redobrado e pouco abaixo da velocidade máxima das vias. Isso irritou um pouco os outros motoristas.
Dirceu recebeu buzinadas, foi ultrapassado diversas vezes. Todos os xingavam. Ele ficou constrangido e acanhado, mas manteve a calma. Racionalmente pensou: "minha segurança em primeiro lugar.".
Acabou preso em um engarrafamento. Em outros dias essa situação seria um incômodo, mas como estava com medo de perder o controle do carro, ficou até feliz.
Deduziu que o acidente que estava atrapalhando o trânsito era por causa de um desses motoristas imprudentes e até inexperientes para dirigir na neve.
Andando a uns 15 km/h, o shuffle de seu iPod começou a tocar "N.I.B" do Black Sabbath. Dirceu dançou de leve dentro do carro, mas quando olhou para a direita, viu que a janela estava meio aberta e que tinha um pouco de neve no banco dos passageiros.
— Merda! — gritou.
Fechou a janela.
Quando passou pelo acidente, quase como mágica, o trânsito passou a fluir normalmente. Um motoqueiro tinha caído. O SAMU já o tinha colocado numa maca e eles entravam com cuidado na ambulância.
Dirceu sentiu mais segurança para prosseguir com a velocidade que costumava andar, e uns 10 minutos depois chegou ao trabalho.
Lá pelas 9 horas, aquele sol de inverno começava a esquentar os pontos sem sombra do caminho entre o estacionamento e o prédio da empresa.
Durante a caminhada, a neve não deu trégua e parecia cair cada vez mais. Dirceu estranhou. Estava quase suando. Será que tinha algo errado com ele? Sempre fora meio friorento. Apesar do sol, uma nevasca dessas deveria afetar um pouco seu corpo.
Pensou que estava muito agitado pela aquela sensação de alerta constante. Estava tenso e preocupado enquanto dirigia. Ficou um pouco mais tranquilo.
Bateu o ponto e subiu as escadas. Olhou por uma janela e viu a neve continuar a cair.
Foi direto para o café. Ia fazer um chá de camomila para tentar se acalmar.
Lá, um colega que bebia um capuccino observou Dirceu e perguntou:
— Está tudo bem? O que você tem?
Dirceu respondeu:
— Nada. Só estou achando estranho que não sinto frio! Alguma coisa está errada.
Seu colega o olhou bem no rosto e respondeu:
— Cara, fica tranquilo. Vai ali no banheiro, relaxa e lava o rosto. Isso ajuda.
Dirceu, concordou e assentiu com a cabeça.
Foi até o banheiro e viu que seu rosto tinha vários pontos brancos espalhados.
Não era neve. Dirceu tinha caspa nas sobrancelhas.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Não imagine que te quero mal...
— Você anda muito "zen" ultimamente. Está me assustando.
— Hein? Eu? Por quê?
— Sei lá! Começou com aquela história que rancor dá câncer. Que é um veneno que você toma esperando que o outro morra.
— E daí?
— Você mesmo dizia que pessoas não mudam! Igual ao House!
— Ainda concordo com isso!
— Mas você mudou.
— Mudei nada! Continuo achando que pessoas não mudam. O que acontece é que às vezes, elas passam a enxergar outras coisas.
— Como assim?
— Por exemplo, eu continuo explosivo e fico muito puto em algumas situações, mas não são os mesmos motivos de antes que me tiram do sério.
— Me dá um exemplo.
— Antes, pessoas lerdas no trânsito me deixavam muito puto. Sabe? Quando elas andam devagarinho para depois estacionarem ou fazerem uma conversão à direita?
— Aargh! Isso irrita!
— Então. Antes de ficar nervoso, eu penso se a pessoa não está perdida, ou se é nova no volante, ou mesmo no tempo que eu realmente estou perdendo para chegar aonde preciso. Alguns minutos de atraso vão me prejudicar tanto assim? Mas por exemplo, quando o semáforo acabou de abrir e um babaca buzina em menos de 2 segundos me apressando, aí eu fico louco. Saio com o carro a 10 km\h só pra atrasar o bosta.
— Entendi.
— De qualquer maneira, essa pessoa que buzinou pode estar com pressa. Vai saber se ela tem algum parente no hospital, ou está com diarreia... A gente nunca sabe. Pode até ser que ela seja só alguém frustrado e infeliz que não teve um bom dia. Por isso, queria me reeducar para não ficar tão nervoso nessas situações.
— Interessante...
— Estou me policiando para sempre ver o lado bom de tudo. Não focar no lado ruim.
— Mesmo das pessoas?
— Sim.
— Mesmo daquele seu chefe que você odiava? Lembra? Aquele que reprovava seus trabalhos e mostrava a versão dele dizendo que tinha feito em 5 minutinhos?
— Mesmo ele. Nesses 5 minutinhos ele fazia um trampo tão bosta quanto o que eu tinha feito.
— Sinto um ódio aí...
— Olha, eu ficava muito puto. Ele podia ser um chefe escroto, mas era só uma deficiência dele em lidar com pessoas ou liderança. Sinceramente, é melhor que ele saia logo daquele cargo para ser feliz de verdade em outro lugar.
— E aquele outro cara que combinava as coisas com você e mandava um e-mail ou escrevia no sistema o contrário para documentar e oficializar as coisas do jeito que ele queria?
— Olha... Analisando bem, ele era um outro frustrado. Mal sabia escrever direito, estava estagnado na posição dele e, nas duas vezes que os chefes dele saíram, o cara tinha as esperanças de subir de cargo exterminadas. Nunca ganhava uma promoção. Sempre aparecia um chefe novo.
— E aqueles vizinhos que começaram a implicar com o barulho no condomínio?
— Bom. Esses aí me irritam mais porque estão mais perto de mim. São vizinhos. A gente tem que conviver na área comum. Esses eu ainda tenho dificuldade para ver o lado bom. O velho me serve de mau exemplo: só desejo envelhecer e não me tornar um ser insuportável igual a ele. Dos outros, não quero nada. Só que não me dirijam a palavra.
— Aaah! Então você não gosta deles! Guarda rancor!
— Pode até ser. Mas prefiro seguir a música do Lulu Santos: "não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais". Não vou brigar, atropelar, discutir, implicar, desejar mal ou pensar com ódio. Só não quero mais contato. Só isso. Quero que eles sejam felizes, porque gente feliz não enche o saco. É essa a conclusão: não procuro mais encheção de saco na minha vida.
— Está se reeducando?
— Isso mesmo.
— Seguindo o seu pensamento, você não quer contato, mas se alguns deles estiver precisando de alguma coisa, você ajudaria?
— Claro!
— Ajudaria a carregar um peso? Consertar o carro? Emprestaria uma ferramenta?
— Na verdade, eu mijaria na cara deles se ela estivesse pegando fogo.
— ...
— O que foi?
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Ansiedade
Era uma sexta-feira qualquer. Estava entediado de pé em um metrô lotado tentando enviar um arquivo via WhatsApp para alguém. Não me lembro quem.
Falhou.
Novamente.
De novo.
Respirei fundo e desisti. Esperaria voltar à superfície da civilização para fazer isso sem me estressar.
Fiquei pensando. Não é por nada que as pessoas ficam estressadas em São Paulo. Aqui, te prometem uma cidade que oferece yakissobas e caldinho de mocotó às 3h da madrugada. A maioria das coisas 24 horas por dia.
E você acredita nisso.
Aí, acaba morando por aqui com essa expectativa.
Como é impossível saber onde começa o círculo vicioso, vamos escolher qualquer situação como ponto de partida.
O cara já vem para São Paulo porque é ansioso. Quer tudo na hora. Quer o tal caldinho de mocotó às 3h da manhã. Admira isso numa grande metrópole.
Já faz alguns anos que vive aqui e ele nunca pediu o tal caldinho. No máximo, foi ao Chico Hambúrguer 24 horas após uma balada.
O sujeito comprou um Punto Jet porque sempre soube que o transporte público da cidade é horrível, porém, começa a pegar um engarrafamento matador todos os dias.
Depois que viaja para Nova York, passa a admirar toda a malha de metrô da cidade e resolve aproveitar melhor o que tem em Sampa.
De repente, seu imediatismo ansioso, que já estava sendo duramente testado nos longos engarrafamentos provocados por motoboys que acham que dirigem ônibus e motoristas de ônibus que pensam que pilotam motos, é golpeado.
Já não adiantava costurar entre as faixas, ultrapassar pela direita ou dar uma escapada pelo corredor de ônibus. Enquanto ficava parado, via as mensagens dos grupos do WhatsApp e Facebook. Quando conseguia, ligava para alguém, só para ter com quem conversar.
No metrô, tudo piorou. Além das paradas operacionais, objetos na via e tentativas de suicídio, nesses momentos o sinal da Vivo também vive caindo.
Nada de 3G. Nada de Wi-fi. Reclamava que o Facebook era 50% pessoas felizes e 50% pessoas que se autointitularam formadores de opinião, mas naquela altura, sentia falta até desses posts.
No trabalho, ligava para seus colegas para ver se tinham recebido o e-mail.
Nas conversas de corredor, reclamava que as atualizações de sistema do PS3 demoravam muito tempo, embora levassem, no máximo, 10 minutos para acabar.
Enquanto o Windows ou qualquer outro software carregava, jogava Candy Crush. Mesmo que fosse só por alguns segundos.
Não utilizava mais Sedex para enviar qualquer coisa. Tinha que contratar um motoboy para ser mais rápido.
Enfim. Alguém ansioso quer tudo na hora. Surgem ferramentas que oferecem rapidez. Acontecem falhas diversas. Vem a frustração. Resultado: mais ansiedade.
Se a preguiça move a evolução, a ansiedade move a tecnologia.
São Paulo atrai porque tem tudo, só que ao mesmo tempo, nada funciona.
A gente contrata um pacote motherfucker na operadora de celular. Só que ficamos sem sinal em um monte de lugares.
Com 200 minutos no plano, a frase mais ouvida/falada é: "A ligação está falhando!".
Pega o Metrô para escapar do trânsito e não entra no vagão porque a estação está lotada.
Compra um carro 8.0 que é tão rápido quanto uma diarreia, e fica preso imóvel na 23 de maio.
Assina um pacote de internet banda larga em casa com 10 mega/segundo e a conexão é instável e a velocidade oficial é de 200 kb.
Contrata um motoboy para entregar as coisas rápido, mas depois sofre com a confusão que alguns deles causam nas avenidas.
Mas o caldinho de mocotó... Esse você consegue às 3h da manhã. Às vezes.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Dia de Fúria?
A ansiedade tinha começado no dia anterior. O tempo demorava para passar.
Insatisfeitos com mais essa roubada, os policiais jogaram os escudos no chão e se juntaram ao Exército dos Putos, nome criado por Datena para definir o grupo que aumentava e caminhava unido sem direção.
Da mesma maneira que começou, o frenesi acabou. Uns se deram conta que tinham que fazer o jantar. Outros, ainda precisavam ir ao trabalho. O segurança da rua encontrou um amigo e ambos sorriram ao lembrar da vitória por 2 a 0 do tricolor. Os integrantes foram pouco a pouco se desgarrando por completo.
Mesmo assim, as autoridades passaram a temer que outro evento como esse ocorresse: o dia em que todo mundo ficou puto ao mesmo tempo.
No Guinness Book, o recorde foi registrado como "a maior quantidade de pessoas enfurecidas em uma caminhada de 50 km: 643 mil pessoas".
Ao longo do dia, tinha bebido cinco copos de café na máquina Nescafe do corredor. Ainda tinha uma gambiarra: doses duplas do "café curto". Dose dupla de cafeína.
Tudo isso somado ao fato de que tinha baixado o último episódio de sua série favorita.
Olhava de 15 em 15 minutos no relógio. Enquanto enrolava para fazer suas atividades, ameaçava abrir o arquivo que seu amigo tinha baixado. Estava tudo lá na pasta. MP4 e legendas em português. Assistiu à primeira cena. Parou. Queria ver com calma em casa. Fechou tudo e subiu para seu Dropbox.
Teria que aguentar mais algumas horas até o fim do expediente.
Deu tudo certo.
Chegou em casa em um bom horário. Precisava terminar algumas coisas antes de assistir. Queria deixar tudo preparado para que não tivesse qualquer interrupção. Esquentou a água do Cup Noodles, jantou, lavou a louça, tomou o resto da Coca 2l direto no gargalo e arrumou a bagunça do seu roommate na sala.
Em paralelo, deixou o notebook ligando para que, logo que acabasse as tarefas, sentaria na cama só de cueca para saciar a curiosidade do episódio final.
No fim, o encerramento da série foi como ele esperava. Emocionante, engraçado e intrigante. Mal dormiu durante a noite. Claro que o problema pode ter sido a quantidade de cafeína que ingeriu pouco antes.
Mas o foco desta história é outro.
No dia seguinte, estava no ônibus. A ironia da insônia é o momento que a sonolência chega de verdade. Entre 2h e 3h parecia estar completamente acordado, mas quando o despertador toca às 7h, parece que você está tentando levantar de uma cama feita de Chandelle movediço.
Com aquele ânimo, fechava os olhos e tentava dormir sentado no banco. Ainda estava afobado e ansioso. Não conseguiu dar nem mesmo uma pescada. Aproveitou para resolver algumas coisas pelo telefone.
Era um dia bem quente de outono e o trânsito estava engarrafado. O sol e o calor já começavam a incomodar. Isso não era nada perto da ligação que caía o tempo todo. Ele queria que enviassem uma nova via de um boleto que tinha perdido.
O sinal da Vivo sumiu cinco vezes seguidas. Uma enquanto ouvia as opções:
— Para atendimento, tecle 1. Para nova via de boleto, tecle 2. Para sugestões, reclamações, tecle... PUF!
Bufou. Tentou a segunda. Rede ocupada.
Terceira. Antes de ouvir as instruções, teclou 2. Começou a chamar. Caiu a linha novamente. Sua pele começou a ficar avermelhada.
Quarta vez. Teclou 2. Chamando... Chamando... Tuuuuu... Tuuuuu... Tuuuuu... Cruzou os dedos. Descruzou-os. Fez figa. Caiu de novo.
Quinta vez. Já apertou o 2 com mais força que o normal. Ficou até a marca redonda do dedo na tela touchscreen. Estava quase desistindo. Atenderam! Viva!
— Leilane, bom dia! Como posso ajudá-lo? — a atendente respondeu.
— Eu perdi meu boleto e gostaria de uma nova via.
Passou os dados que foram solicitados. Nome completo e CPF.
— Ok! Estarei encaminhando a nova via do boleto via e-mail. Pode me confirmar, por favor?
—É M, P, da silva, arroba... PUF! — caiu a ligação de novo.
Tirou o telefone da orelha e, com o aparelho ainda apertado em sua palma, a mão direita começou a tremer. Mordeu tão forte o lábio que chegou a sangrar. Já tinha arrancado pelinha uns dias antes.
Olhou para os lados e não resistiu: arremessou o telefone com toda força pela janela.
Dizem que um acidente nunca é provocado por um fator isolado, e sim por um conjunto de incidentes que acontecem ao mesmo tempo.
Nesse caso, foi um surto de fúria coletiva. Outra passageira no ônibus discutia com o namorado em alto volume. Constrangedor para alguns e irritante para outros que se viam atrasados a seus compromissos. O engarrafamento continuava.
Assim que o celular foi arremessado pela janela, a explosão se contagiou pelo ônibus.
— CALA A BOCA! — um homem gritou para a mulher que brigava com o namorado.
— VAI SE FODER! CUIDA DA TUA VIDA! — ela respondeu.
— VAMO PARAR COM ESSA PUTARIA AÍ! — esbravejou o motorista, emputecido com o trânsito parado — ANDA! ANDA, CARALHO! — buzinou aos berros.
Os carros da frente andaram um pouco, mas nem deu tempo para o micro-ônibus andar. Um grupo de 15 pessoas, começou a balançar o veículo. Ele se solidarizaram com a mulher que foi atingida na testa pelo celular e estava tonta.
Cada um deles também tinha seus motivos para ficar tão insano de raiva. O Itaquerão incompleto, o seguro do carro, porrada do dedinho do pé na mesa da sala, uma mancha de café no meio da camisa branca, cheque especial, pisada na poça d'água com sapato de pano...
Enquanto o micro-ônibus balançava de um lado para outro como o barco viking do extinto Playcenter, os passageiros trocavam socos. Uns tentando escapar pela porta, outros direcionados à mulher do celular, que retribuía sem parar de xingar o namorado:
— ELES ESTÃO ME BATENDO! NÃO ESTÁ OUVINDO, SEU IDIOTA?
Os 15 da rua conseguiram finalmente virar o micro-ônibus. Apenas alguns passageiros ficaram feridos, mas mesmo assim, quebraram os vidros e saíram do veículo. Saltaram na rua e gritaram.
Foram em direção de todos os carros em volta com chutes e voadoras nos vidros. Em uma das esquinas, um homem segurava outro pelo pescoço e batia com sua cabeça no vidro traseiro de um Uno estacionado.
Na confusão, voavam extintores, caixas de aspargos do Ceasa, fardos de feno, embalagens de serpentinas, travesseiros, próteses de silicone, coturnos, árvores de natal, cintos, tilápias mortas, perucas ruivas e globos terrestres.
O caos se instalou naquele ponto da cidade e foi só aumentando. Em tempo recorde, a epidemia de fúria já tinha tomado três bairros. Prédios incendiados, vidraças estilhaçadas e alguns corpos nocauteados nas calçadas.
A polícia militar foi acionada. Todos pareciam bem nervosos também. Não foram orientados a dialogar e já chegaram disparando bombas de fumaça.
A população ignorou e avançou como um bando de formigas procurando alimento. Atravessaram a tóxica cortina branca e toda a tropa da PM foi atropelada. Mal tiveram uma chance de reagir, se defender ou até mesmo de pedir reforço.
Cada um deles também tinha seus motivos para ficar tão insano de raiva. O Itaquerão incompleto, o seguro do carro, porrada do dedinho do pé na mesa da sala, uma mancha de café no meio da camisa branca, cheque especial, pisada na poça d'água com sapato de pano...
Enquanto o micro-ônibus balançava de um lado para outro como o barco viking do extinto Playcenter, os passageiros trocavam socos. Uns tentando escapar pela porta, outros direcionados à mulher do celular, que retribuía sem parar de xingar o namorado:
— ELES ESTÃO ME BATENDO! NÃO ESTÁ OUVINDO, SEU IDIOTA?
Os 15 da rua conseguiram finalmente virar o micro-ônibus. Apenas alguns passageiros ficaram feridos, mas mesmo assim, quebraram os vidros e saíram do veículo. Saltaram na rua e gritaram.
Foram em direção de todos os carros em volta com chutes e voadoras nos vidros. Em uma das esquinas, um homem segurava outro pelo pescoço e batia com sua cabeça no vidro traseiro de um Uno estacionado.
Na confusão, voavam extintores, caixas de aspargos do Ceasa, fardos de feno, embalagens de serpentinas, travesseiros, próteses de silicone, coturnos, árvores de natal, cintos, tilápias mortas, perucas ruivas e globos terrestres.
O caos se instalou naquele ponto da cidade e foi só aumentando. Em tempo recorde, a epidemia de fúria já tinha tomado três bairros. Prédios incendiados, vidraças estilhaçadas e alguns corpos nocauteados nas calçadas.
A polícia militar foi acionada. Todos pareciam bem nervosos também. Não foram orientados a dialogar e já chegaram disparando bombas de fumaça.
A população ignorou e avançou como um bando de formigas procurando alimento. Atravessaram a tóxica cortina branca e toda a tropa da PM foi atropelada. Mal tiveram uma chance de reagir, se defender ou até mesmo de pedir reforço.
Insatisfeitos com mais essa roubada, os policiais jogaram os escudos no chão e se juntaram ao Exército dos Putos, nome criado por Datena para definir o grupo que aumentava e caminhava unido sem direção.
Da mesma maneira que começou, o frenesi acabou. Uns se deram conta que tinham que fazer o jantar. Outros, ainda precisavam ir ao trabalho. O segurança da rua encontrou um amigo e ambos sorriram ao lembrar da vitória por 2 a 0 do tricolor. Os integrantes foram pouco a pouco se desgarrando por completo.
Mesmo assim, as autoridades passaram a temer que outro evento como esse ocorresse: o dia em que todo mundo ficou puto ao mesmo tempo.
No Guinness Book, o recorde foi registrado como "a maior quantidade de pessoas enfurecidas em uma caminhada de 50 km: 643 mil pessoas".
segunda-feira, 24 de março de 2014
Fake-up
Era seu primeiro dia de estágio.
Tinha altas expectativas. Durante a entrevista, o coordenador de criação disse que ele teria um grande aprendizado. Supervisão com profissionais renomados e premiados no mercado. A prateleira da sala de reunião tinha alguns leões de Cannes, entre outros troféus, como Prêmio Abril, El Ojo e Caborés.
— Preciso me preparar. Quero me enturmar logo, fazer contatos e aumentar meu networking. Já atualizei e tirei uma foto legal para colocar no Linkedin e fiz uma limpa dos meus posts do Facebook. Agora, preciso ver se minha pesquisa e treinamento deram certo! — estabeleceu como meta para si mesmo.
O treinamento em questão consistia em ler o livro "Como fazer amigos e influenciar pessoas" e tentar parecer o cara mais descolado possível. Foi a característica que usou para definir seus futuros colegas publicitários.
Baixou a discografia completa do Muse, Strokes, Mumford and Sons e 30 Seconds to mars. Descobriu que The Killers e Foo Fighters eram clássicos. Lera que, quem gostava de rock, teria mais chances de prosperar no mundo das agências. Ao mesmo tempo, não podia ser qualquer banda. Tinham que ser aquelas que foram fabricadas para ser alternativas. Aquelas que seus colegas diriam que gostavam menos hoje em dia porque se tornaram mainstream, mesmo assim, mantinham todos os MP3 em seus iTunes.
Era importante conhecer bandas que "não faziam sucesso" e um grande prazer dizer que conhecia antes de todo mundo.
Reformou seu guarda-roupas. Comprou sete camisetas da Camiseteria. Uma para cada dia da semana.
— Filho, por que sete? Você vai trabalhar só de segunda a sexta.
— Mãe, é porque em agências é comum trabalhar de fim de semana. É bom para a imagem e carreira. Tenho que estar preparado, mostrar disposição e proatividade para isso!
Até que chegou o grande dia. Estava com dúvidas sobre o horário de chegada. O entrevistador disse que o horário de chegada variava entre 9h e 9h30. Para não ter qualquer problema, prevaleceu a regra antiga de etiqueta corporativa: apareceu na agência logo no primeiro horário.
A menina do RH o levou até a Criação. Seu coordenador ainda não tinha chegado.
Todo o discurso estava ensaiado. Assim que sentasse em sua nova mesa, diria empolgado que estava ansioso para o Lollapalooza e perguntaria para o colega ao lado, para puxar assunto, "qual show você vai ver?".
Foi um dos primeiros a ligar o computador na Criação. Era um iMac. Estava impressionado e feliz de trabalhar com aquele enorme monitor prateado e fininho. Só não tirou uma foto para não parecer turista demais. Pensava: "fica calmo! Fica calmo!".
A enorme mesa com mais nove iMacs continuava vazia. Parecia uma merendeira de refeitório. Havia brinquedos do Mc' Donalds de várias gerações.
Olhou para o Billy, a Mandy, o Puro-Osso, a Turma do Bairro e os Minions. Imaginou quando ganharia seu primeiro prêmio. Lembrou dos relatos de festas de alguns de seus amigos que já trabalhavam na área. As putarias, o open bar e as baladas da moda fechadas só para a confraternização.
— Será que é igual ao Mad Men? — pensou.
Já vislumbrou seus Tweets e posts de Facebook dos momentos em que estaria trabalhando demais.
Na sexta à noite: "Amanhã estou aqui de novo! :( Mas bora lá porque é o que eu amo fazer! #vidadepublicitarionaoefacil".
Ou então: "Madrugada na agência... O bom é que a internet está rápida pra c@r@&%! #quemmandouescolherpublicidade".
Os posts tinham que dúbios: reclamar que estava trabalhando demais, mas ao mesmo tempo, mostrar a paixão exacerbada pela profissão.
Mensagens assim nas redes sociais eram necessárias porque mostram o quanto se está dedicado ao emprego. Isso é muito valorizado em São Paulo.
A piada/pergunta: "É meio período?", quando alguém vai embora antes de você, tem que estar engatilhada perto das 18h.
Ficou viajando assim até umas 10h15, quando chegou um cara com o cabelo preto até a cintura, barba cerrada, coturno, calça jeans e camiseta preta lisa.
— Opa! Beleza! Você é o novo aspira de redação? Meu nome é Diogo! — disse o cabeludo.
— E aí? Sou sim! Comecei hoje! Meu nome é Theodoro! O pessoal me chama de Theo!
— Theodoro? Ah, não! Aqui, a gente chama os estagiários de Gilmar. Você é o Gilmar III.
— Hahaha! Beleza!
Levou na boa. As outras pessoas começaram a completar a mesa. Alguns se apresentaram, outros não. Todos estavam meio sonolentos e a manhã seguiu meio silenciosa até a hora do almoço.
Nenhum job tinha aparecido para Gilmar III, que acessou o Blueprint, Ads of the world e the FWA para procurar referências, conforme seu professor indicou.
Postou no Facebook: "Primeiro dia em uma agência grande. #conquista #delorean #felizpracaraio". Recebeu seus likes e comentários de parabéns.
Já não tinha mais o que procurar na internet. Era necessário quebrar o gelo e puxar assunto.
Respirou fundo e perguntou para Diogo:
— E aí? Vai no Lollapalooza? Estou ansioso para ver o Arcade Fire!
— Rolla Pra Loser? Hahaha! Numa boa, cara! Eu detesto esse festival e todas as bandas que tocam lá.
E foi a primeira vez que o mundo de Theo caiu.
A segunda, foi quando precisou fazer o texto de e-mail marketing temático de Dia de Finados. Ia rolar um feirão de apartamentos perto da data.
— Preciso me preparar. Quero me enturmar logo, fazer contatos e aumentar meu networking. Já atualizei e tirei uma foto legal para colocar no Linkedin e fiz uma limpa dos meus posts do Facebook. Agora, preciso ver se minha pesquisa e treinamento deram certo! — estabeleceu como meta para si mesmo.
O treinamento em questão consistia em ler o livro "Como fazer amigos e influenciar pessoas" e tentar parecer o cara mais descolado possível. Foi a característica que usou para definir seus futuros colegas publicitários.
Baixou a discografia completa do Muse, Strokes, Mumford and Sons e 30 Seconds to mars. Descobriu que The Killers e Foo Fighters eram clássicos. Lera que, quem gostava de rock, teria mais chances de prosperar no mundo das agências. Ao mesmo tempo, não podia ser qualquer banda. Tinham que ser aquelas que foram fabricadas para ser alternativas. Aquelas que seus colegas diriam que gostavam menos hoje em dia porque se tornaram mainstream, mesmo assim, mantinham todos os MP3 em seus iTunes.
Era importante conhecer bandas que "não faziam sucesso" e um grande prazer dizer que conhecia antes de todo mundo.
Reformou seu guarda-roupas. Comprou sete camisetas da Camiseteria. Uma para cada dia da semana.
— Filho, por que sete? Você vai trabalhar só de segunda a sexta.
— Mãe, é porque em agências é comum trabalhar de fim de semana. É bom para a imagem e carreira. Tenho que estar preparado, mostrar disposição e proatividade para isso!
Até que chegou o grande dia. Estava com dúvidas sobre o horário de chegada. O entrevistador disse que o horário de chegada variava entre 9h e 9h30. Para não ter qualquer problema, prevaleceu a regra antiga de etiqueta corporativa: apareceu na agência logo no primeiro horário.
A menina do RH o levou até a Criação. Seu coordenador ainda não tinha chegado.
Todo o discurso estava ensaiado. Assim que sentasse em sua nova mesa, diria empolgado que estava ansioso para o Lollapalooza e perguntaria para o colega ao lado, para puxar assunto, "qual show você vai ver?".
Foi um dos primeiros a ligar o computador na Criação. Era um iMac. Estava impressionado e feliz de trabalhar com aquele enorme monitor prateado e fininho. Só não tirou uma foto para não parecer turista demais. Pensava: "fica calmo! Fica calmo!".
A enorme mesa com mais nove iMacs continuava vazia. Parecia uma merendeira de refeitório. Havia brinquedos do Mc' Donalds de várias gerações.
Olhou para o Billy, a Mandy, o Puro-Osso, a Turma do Bairro e os Minions. Imaginou quando ganharia seu primeiro prêmio. Lembrou dos relatos de festas de alguns de seus amigos que já trabalhavam na área. As putarias, o open bar e as baladas da moda fechadas só para a confraternização.
— Será que é igual ao Mad Men? — pensou.
Já vislumbrou seus Tweets e posts de Facebook dos momentos em que estaria trabalhando demais.
Na sexta à noite: "Amanhã estou aqui de novo! :( Mas bora lá porque é o que eu amo fazer! #vidadepublicitarionaoefacil".
Ou então: "Madrugada na agência... O bom é que a internet está rápida pra c@r@&%! #quemmandouescolherpublicidade".
Os posts tinham que dúbios: reclamar que estava trabalhando demais, mas ao mesmo tempo, mostrar a paixão exacerbada pela profissão.
Mensagens assim nas redes sociais eram necessárias porque mostram o quanto se está dedicado ao emprego. Isso é muito valorizado em São Paulo.
A piada/pergunta: "É meio período?", quando alguém vai embora antes de você, tem que estar engatilhada perto das 18h.
Ficou viajando assim até umas 10h15, quando chegou um cara com o cabelo preto até a cintura, barba cerrada, coturno, calça jeans e camiseta preta lisa.
— Opa! Beleza! Você é o novo aspira de redação? Meu nome é Diogo! — disse o cabeludo.
— E aí? Sou sim! Comecei hoje! Meu nome é Theodoro! O pessoal me chama de Theo!
— Theodoro? Ah, não! Aqui, a gente chama os estagiários de Gilmar. Você é o Gilmar III.
— Hahaha! Beleza!
Levou na boa. As outras pessoas começaram a completar a mesa. Alguns se apresentaram, outros não. Todos estavam meio sonolentos e a manhã seguiu meio silenciosa até a hora do almoço.
Nenhum job tinha aparecido para Gilmar III, que acessou o Blueprint, Ads of the world e the FWA para procurar referências, conforme seu professor indicou.
Postou no Facebook: "Primeiro dia em uma agência grande. #conquista #delorean #felizpracaraio". Recebeu seus likes e comentários de parabéns.
Já não tinha mais o que procurar na internet. Era necessário quebrar o gelo e puxar assunto.
Respirou fundo e perguntou para Diogo:
— E aí? Vai no Lollapalooza? Estou ansioso para ver o Arcade Fire!
— Rolla Pra Loser? Hahaha! Numa boa, cara! Eu detesto esse festival e todas as bandas que tocam lá.
E foi a primeira vez que o mundo de Theo caiu.
A segunda, foi quando precisou fazer o texto de e-mail marketing temático de Dia de Finados. Ia rolar um feirão de apartamentos perto da data.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Lesma
Era uma tarde preguiçosa no domingo de Carnaval. Esperava por alguns amigos no quiosque bem em frente à praia das Astúrias.
Eu tinha sido o único a acordar sem ressaca naquele dia e resolvi tomar umas brejas até eles chegarem. Aproveitei para ler meu livro em algum lugar que tivesse luz. Mentira. Eu poderia acender as luzes sem incomodar ninguém no apartamento, mas a cerveja tinha acabado.
A praia estava movimentada. Tanto que não conseguia prestar atenção na minha leitura. Resolvi olhar o mar, aproveitar a brisa e continuar com a cerveja.
De vez em quando, dava umas folheadas no livro. Abria em páginas aleatórias anteriores só para confirmar se eu tinha guardado o conteúdo. Coisa besta.
A cerveja estava deliciosamente gelada. Não me lembro se era Original ou Serra Malte. Quando estava para tomar mais um gole, um Uno novo verde lumicolor estacionou na rua de frente para a praia.
De lá, desceu um casal de mãos dadas. Tinham aproximadamente uns 25 anos. A menina carregava na mão esquerda um travesseiro. O cara acompanhava seus passos enquanto olhava se podia travar o carro e acionar o alarme.
Logo atrás deles, vieram uma amiga e um amigo. Obviamente não estavam juntos, mas claramente ele estava tentando alguma coisa. O primeiro casal ia bem mais na frente para dar mais tempo a sós para os amigos.
A menina arrastava uma mala com rodinhas pela calçada. O menino se ofereceu para ajudar.
— Dá aqui que eu levo! — com o esboço de um sorriso.
— Não! Eu levo! — ela respondeu, também sorrindo.
— Dá aqui! — e tomou a mala da mão dela. Ela riu.
A abordagem foi rude, mas bem-humorada. Ele queria deixar sua gentileza e cavalheirismo nas entrelinhas. É aquela insegurança. As gentilezas escapavam aos poucos. Parecia uma criança com boia de dinossauro tentando entrar na água gelada. Mergulhava o dedão, sentava na borda da piscina com as canelas enfiadas na água, molhava a mão direita... Tudo isso poderia resultar num mergulho ou não.
Lembrei na hora de uma viagem que fiz com dois casais de amigos. Uma lembrança que dá vontade de pegar uma máquina do tempo e me estapear cinco vezes na cara lá na época.
Já saíamos bastante juntos. Eu era o único solteiro daquela turma. Não era tão constrangedor. Eles diziam: "não são dois casais e um solteiro. São cinco amigos!". Era verdade. Eu acreditava. Acho que eu era divertido o suficiente para me quererem por perto.
Um dia, a irmã de uma das meninas terminou seu namoro. Ela passou a acompanhar a galera nos encontros.
Sempre fui lerdo. E sempre duvidei da minha percepção. Hoje, sobram facepalms quando essas coisas surgem de repente na cabeça.
Tínhamos ido a uma churrascaria quando a conheci. Falei minhas besteiras normalmente. Sem nervosismo. Vagamente lembro de umas trocas de olhares. Nada demais.
Semanas depois, fomos todos para um bar. Rolaram cervejas e algumas doses de tequila naquele sábado à noite. Entre risos descontrolados e longas abobrinhas, não sei exatamente de onde veio a ideia, mas combinamos uma viagem no próximo feriado prolongado. Todos juntos. Todos toparam.
Cada "casal" ficaria em um chalé.
Ainda no bar, ideias de bêbados, fizeram com que eu assinasse em um guardanapo o termo de compromisso de que não haveria investidas na menina enquanto estivéssemos no quarto. Como se eles não me conhecessem.
A viagem até a cidade foi um pouco mais estranha. Surgiam alguns momentos no banco de trás em que faltava assunto. Nada de muito anormal.
Olhando para trás, se fosse escrever uma carta para meu eu do passado, diria que o erro número um fora cometido logo no check-in. Chegando no chalé que dividiríamos, havia uma cama de casal e outra de solteiro.
Em minha proativa e estúpida gentileza típica dos "nice guys finish last", escolhi a cama de solteiro. BAM! O primeiro passo para a tão temida friendzone.
Foram três diárias. Tínhamos levado bebidas variadas. A tequila era a favorita. Unanimidade. Logo no primeiro shot, quis mostrar virilidade e virei um copo descartável que equivalia a uma dose maior que a normal. Acho que deu para ver o movimento do meu estômago e toda a contração da minha caixa torácica tentando devolver o líquido em um misto de engasgo, soluço e refluxo. Todos se espantaram, mas deu tudo certo. A tiração de sarro até que foi curta.
Mais álcool madrugada a dentro. Risadas, besteiras, risadas, zoeira, risadas, sarros. Eu fazia o alvo gargalhar. Acho que foi um ponto positivo. Só não me lembro se eram palhaçadas que queimavam meu filme.
Lá pelas 3 horas, o primeiro casal se cansou e foi dormir. Despediram-se. Foi a nossa deixa. Aproveitamos e fomos também para o nosso quarto.
Deitei na minha cama de solteiro e ela, na dela de casal. Conversamos por mais algumas horas. Até reclamaram das gargalhadas dela durante o silêncio da pousada. Mas no fim, dormimos. Como nos outros dias até o fim da estada. Cada um em sua cama.
Acho que o momento mais próximo que tivemos foi quando deitamos juntos na cama de casal, bêbados, para tirar umas selfies com uma máquina fotográfica analógica. Nem sei aonde foram parar essas fotos. Também não me lembro porque naquele momento acabou não rolando nada.
Faz muito tempo que não vejo ou falo com qualquer um daqueles cinco. Um casal se desfez, outro já teve filhos. A prospect já deve até estar casada.
Nossa! Parece até uma daquelas histórias sem-graça. Mas a vida é assim. Repleta de coisas sem-graça. Sem cor. Sem grandes reviravoltas. Todos os dias isso acontece.
Muitas vezes, são justamente esses capítulos tediosos que reaparecem na memória. Quando você pensa no que você teria feito de diferente. Quando imagina o que tornaria aquele momento um post de Facebook memorável e colocaria as fotos em um álbum chamado "A vida é tão boa!!!".
Depois da sessão nostalgia, continuei bebendo minha cerveja no quiosque. Uma meia hora depois, meus amigos e minha namorada desceram do apartamento para me acompanhar.
Foi quando me dei conta. Será que eu teria me tornado um putão-comedor depois daquela viagem? Difícil. Mais confiante? Talvez. Qual o rumo que a minha vida teria tomado? O ponto é que estava satisfeito com tudo.
No fim, o mais interessante dessa história é contar que fiquei no mesmo quarto e mesma cama da pessoa que eu gostava. E não fiz nada. Slowpoke!
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Tale Spin
No meio de uma das quadras de basquete, lá no Parque do Ibirapuera, um grupo de jogadores esquece do jogo que tinha planejado e acompanha boquiaberto uma cena inusitada.
Próximo ao centro da segunda quadra, um homem de aproximadamente 25 anos está de braços abertos rodando freneticamente. Provavelmente é destro, porque a perna direita faz a maior parte do esforço. A esquerda parece funcionar mais como apoio ou eixo do movimento. De vez em quando, as duas pernas se mexem, parecendo uma mini-corrida em um minúsculo círculo imaginário no chão.
Abaixo de umas das tabelas, outro cara também jovem bate a cabeça no poste de metal repetidas vezes.
CLANG!
CLANG!
CLANG!
— Idiota! — sussurrava a cada cabeçada.
Após alguns minutos de pura contemplação, olhos arregalados e incompreensão, um dos jogadores resolveu perguntar para o "cabeceador" o que estava acontecendo.
Ele responde:
— Claro! Eu explico. Estão com tempo?
Tudo tinha começado no fim da semana passada. Na sexta à tarde.
As coisas estavam tranquilas depois do almoço.
O departamento discutia sobre as declarações da Rachel Sherazade e o adolescente que fora amarrado no poste. Alguns se exaltavam. Diziam: "daqui do ar-condicionado é fácil julgar as escolhas do menino!". Outros rebatiam: "Tem gente que é ruim mesmo. Não há condições sociais boas ou ruins que mudem a índole de uma pessoa!".
Era mais uma tarde ociosa para turbinar as proporções de algum fato inicialmente insignificante para as vidas deles. Um ibope que faltava para Rachel. Uma tentativa inútil para que seus editoriais não pareçam um piti ranhento-birrento.
Até que surgiu outro assunto: a professora da PUC que postou a foto de um homem vestindo regata e bermuda no aeroporto. Novo debate. Corta para o break! Já voltamos! Conhece a nova Tecpix?
Quando já faziam a associação da professora com os justiceiros que prenderam o menor no poste, Bernardo teve sua epifania.
Bernardo é o primeiro personagem de destaque nesta história. O excêntrico jovem que rodava na quadra de basquete do Ibira.
Ele pensou: "o cara da regata nem percebeu que estava sendo fotografado. A única pessoa que estaria sofrendo com o assunto é a própria professora.".
Todos em volta dele continuaram discutindo, mas era como se estivessem em um longo silêncio. Bernardo continuou refletindo: "o cara de regata estava cagando para toda a situação. Se a foto não tivesse viralizado tanto, ele nem saberia que a letrada professora com abstinência de glamour tinha feito chacota.".
E prosseguiu: "ele só queria ficar confortável. Conseguiu. Agora, se quiser, ainda fatura uma grana em algum processo sobre a mulher. Mas nem é esse o ponto. Ele estava no aeroporto como se fosse uma criança. Só preocupado com o próprio bem-estar. Não estava interferindo na vida alheia. É isso! Veja como ele está desencanado. Preciso ser mais como na minha infância!".
Até que disse em voz alta:
— Começo esta semana!
A discussão acaba. Todos olham para Bernardo, meio sem compreender, e voltam a trabalhar normalmente. Já era hora. Os outros colegas do departamento não estavam gostando do volume e exaltação da conversa.
Na cabeça de Bernardo, tudo estava claro. Era uma nova filosofia de vida.
Quais são as melhores características do nosso comportamento infantil? Sinceridade, autenticidade, alegria. Energia? Disposição? Talvez.
Contou a novidade para seu melhor amigo Paulo, conhecido até aqui simplesmente como o "cabeceador". Este, sabendo como funcionava a cabeça obstinada de Bernardo, fez um facepalm mental e já se preparou para as várias encrencas que estariam por vir.
Nos primeiros dias, Bernardo ficou sincero demais. Sem papas na língua.
Seu chefe chamou:
— Bernardo! Preciso do relatório de orçamento de material pronto às 17 horas.
— Bom, eu tive que refazer a planilha de horários de entrega nas filiais do país inteiro. Só consigo cumprir esse prazo se eu cagar meu próprio avatar de merda e arranjar um computador para ele fazer o serviço. O que acha? Pode me fornecer essas condições de serviço? — respondeu de bate-pronto.
— Strike um, Bernardo! — gritou o chefe, puto.
— Cara, o que você está fazendo? — perguntou um colega de Bernardo.
— Sendo espontâneo! — falou Bernardo — Strike um? Por um acaso isso é uma ameaça?
Levantou-se e foi até a sala do chefe. Lá de dentro, dava para ouvir algumas frases. Todos fizeram silêncio para acompanhar o diálogo.
— Você enlouqueceu? Esqueceu onde está? O que você pensa que está fazendo? Bernardo! Essa caneca foi meu filho que fez pra mim no Dia dos Pais! Pare!
— Estou fazendo meu avatar! Dá licença!
— Segurança!
Em torno de 7 seguranças carregaram um agitado Bernardo até a saída da empresa. Ele se debatia tanto que parecia o rabo de uma lagartixa que acabara de ser cortado. Ainda estava com as calças e cueca abaixadas até a altura do joelho.
Deitado na calçada, Bernardo levantou as calças e se sentou na guia. Após respirar algumas vezes, ligou para Paulo e contou o ocorrido.
— Você é pirado mesmo, cara. Vamos tomar umas brejas e conversar sobre isso.
— Beleza.
Paulo chegou de carro, pediu para Bernardo entrar e seguiram para o primeiro bar que encontraram em Moema. Um boteco de frente para a praça da igreja.
Bernardo não quis entrar.
— Espera! Não posso beber! Crianças não bebem!
Paulo respirou fundo e esfregou os olhos com as palmas das mãos.
— Tá. O que você quer fazer? Como as crianças fazem para afogar as mágoas?
— Tomar uma overdose de Yakult ou Chambinho não vai adiantar... Já sei! Vamos para o Parque do Ibirapuera.
Chegando lá, deixaram o carro em uma travessa da IV Centenário e a foram direto para as quadras de basquete.
Paulo pressentia que nada de bom poderia vir daquilo tudo, mas foi compreensivo ao máximo com seu amigo de infância que acabara de ser demitido. "Vamos ver aonde isso vai dar..." — pensou.
Foi quando Bernardo começou a girar no centro da quadra e gritava para explicar:
— É o único jeito de ficar tonto sem beber, fumar ou cheirar nada! Eu fazia isso quando tinha quatro anos e achava o máximo! Tenta também!
Paulo não acreditava no que via.
— Ber... Bernardo... Para com isso... Pa... Para! O que caralhas você está fazendo?
Com vergonha alheia, ainda pediu mais vezes para Bernardo parar. Em vão. Alguns minutos depois, o senso de responsabilidade com o amigo enlouquecido brigava com a vontade de ir embora. O conflito e o desespero fizeram Paulo bater com sua testa no poste da tabela de basquete.
A ambulância chegou meia hora mais tarde.
Abaixo de umas das tabelas, outro cara também jovem bate a cabeça no poste de metal repetidas vezes.
CLANG!
CLANG!
CLANG!
— Idiota! — sussurrava a cada cabeçada.
Após alguns minutos de pura contemplação, olhos arregalados e incompreensão, um dos jogadores resolveu perguntar para o "cabeceador" o que estava acontecendo.
Ele responde:
— Claro! Eu explico. Estão com tempo?
Tudo tinha começado no fim da semana passada. Na sexta à tarde.
O departamento discutia sobre as declarações da Rachel Sherazade e o adolescente que fora amarrado no poste. Alguns se exaltavam. Diziam: "daqui do ar-condicionado é fácil julgar as escolhas do menino!". Outros rebatiam: "Tem gente que é ruim mesmo. Não há condições sociais boas ou ruins que mudem a índole de uma pessoa!".
Era mais uma tarde ociosa para turbinar as proporções de algum fato inicialmente insignificante para as vidas deles. Um ibope que faltava para Rachel. Uma tentativa inútil para que seus editoriais não pareçam um piti ranhento-birrento.
Até que surgiu outro assunto: a professora da PUC que postou a foto de um homem vestindo regata e bermuda no aeroporto. Novo debate. Corta para o break! Já voltamos! Conhece a nova Tecpix?
Quando já faziam a associação da professora com os justiceiros que prenderam o menor no poste, Bernardo teve sua epifania.
Bernardo é o primeiro personagem de destaque nesta história. O excêntrico jovem que rodava na quadra de basquete do Ibira.
Ele pensou: "o cara da regata nem percebeu que estava sendo fotografado. A única pessoa que estaria sofrendo com o assunto é a própria professora.".
Todos em volta dele continuaram discutindo, mas era como se estivessem em um longo silêncio. Bernardo continuou refletindo: "o cara de regata estava cagando para toda a situação. Se a foto não tivesse viralizado tanto, ele nem saberia que a letrada professora com abstinência de glamour tinha feito chacota.".
E prosseguiu: "ele só queria ficar confortável. Conseguiu. Agora, se quiser, ainda fatura uma grana em algum processo sobre a mulher. Mas nem é esse o ponto. Ele estava no aeroporto como se fosse uma criança. Só preocupado com o próprio bem-estar. Não estava interferindo na vida alheia. É isso! Veja como ele está desencanado. Preciso ser mais como na minha infância!".
Até que disse em voz alta:
— Começo esta semana!
A discussão acaba. Todos olham para Bernardo, meio sem compreender, e voltam a trabalhar normalmente. Já era hora. Os outros colegas do departamento não estavam gostando do volume e exaltação da conversa.
Na cabeça de Bernardo, tudo estava claro. Era uma nova filosofia de vida.
Quais são as melhores características do nosso comportamento infantil? Sinceridade, autenticidade, alegria. Energia? Disposição? Talvez.
Contou a novidade para seu melhor amigo Paulo, conhecido até aqui simplesmente como o "cabeceador". Este, sabendo como funcionava a cabeça obstinada de Bernardo, fez um facepalm mental e já se preparou para as várias encrencas que estariam por vir.
Nos primeiros dias, Bernardo ficou sincero demais. Sem papas na língua.
Seu chefe chamou:
— Bernardo! Preciso do relatório de orçamento de material pronto às 17 horas.
— Bom, eu tive que refazer a planilha de horários de entrega nas filiais do país inteiro. Só consigo cumprir esse prazo se eu cagar meu próprio avatar de merda e arranjar um computador para ele fazer o serviço. O que acha? Pode me fornecer essas condições de serviço? — respondeu de bate-pronto.
— Strike um, Bernardo! — gritou o chefe, puto.
— Cara, o que você está fazendo? — perguntou um colega de Bernardo.
— Sendo espontâneo! — falou Bernardo — Strike um? Por um acaso isso é uma ameaça?
Levantou-se e foi até a sala do chefe. Lá de dentro, dava para ouvir algumas frases. Todos fizeram silêncio para acompanhar o diálogo.
— Você enlouqueceu? Esqueceu onde está? O que você pensa que está fazendo? Bernardo! Essa caneca foi meu filho que fez pra mim no Dia dos Pais! Pare!
— Estou fazendo meu avatar! Dá licença!
— Segurança!
Em torno de 7 seguranças carregaram um agitado Bernardo até a saída da empresa. Ele se debatia tanto que parecia o rabo de uma lagartixa que acabara de ser cortado. Ainda estava com as calças e cueca abaixadas até a altura do joelho.
Deitado na calçada, Bernardo levantou as calças e se sentou na guia. Após respirar algumas vezes, ligou para Paulo e contou o ocorrido.
— Você é pirado mesmo, cara. Vamos tomar umas brejas e conversar sobre isso.
— Beleza.
Paulo chegou de carro, pediu para Bernardo entrar e seguiram para o primeiro bar que encontraram em Moema. Um boteco de frente para a praça da igreja.
Bernardo não quis entrar.
— Espera! Não posso beber! Crianças não bebem!
Paulo respirou fundo e esfregou os olhos com as palmas das mãos.
— Tá. O que você quer fazer? Como as crianças fazem para afogar as mágoas?
— Tomar uma overdose de Yakult ou Chambinho não vai adiantar... Já sei! Vamos para o Parque do Ibirapuera.
Chegando lá, deixaram o carro em uma travessa da IV Centenário e a foram direto para as quadras de basquete.
Paulo pressentia que nada de bom poderia vir daquilo tudo, mas foi compreensivo ao máximo com seu amigo de infância que acabara de ser demitido. "Vamos ver aonde isso vai dar..." — pensou.
Foi quando Bernardo começou a girar no centro da quadra e gritava para explicar:
— É o único jeito de ficar tonto sem beber, fumar ou cheirar nada! Eu fazia isso quando tinha quatro anos e achava o máximo! Tenta também!
Paulo não acreditava no que via.
— Ber... Bernardo... Para com isso... Pa... Para! O que caralhas você está fazendo?
Com vergonha alheia, ainda pediu mais vezes para Bernardo parar. Em vão. Alguns minutos depois, o senso de responsabilidade com o amigo enlouquecido brigava com a vontade de ir embora. O conflito e o desespero fizeram Paulo bater com sua testa no poste da tabela de basquete.
A ambulância chegou meia hora mais tarde.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Velho batuta
Tocava baixo na banda ZZ Top Cover SP. A genética ajudava. Sua barba crescia bem rápido e em alguns meses, chegou ao comprimento necessário.
Tinha largado seu último emprego para se dedicar à música, mas as coisas não andavam bem.
"É só uma fase!" — pensava. Além dos covers nas noites do Bixiga e Moema, investia pesado as economias que juntou em seu projeto de composições próprias. Só que os rendimentos das aplicações não estavam sendo suficientes para cobrir todas as despesas.
"Preciso de um bico!". Não queria nem pensar em fazer algo parecido com as atividades do último trabalho dito "normal". Ou seja: nada relacionado a Departamento Pessoal ou Recursos Humanos. Nada de planilhas, CLT, relatórios, orçamento de pessoal, processos seletivos ou dinâmicas de grupo estapafúrdias.
Tinha calafrios quando se lembrava de seu último chefe. O cara era um neurótico hipócrita. Ficava com a antena ligada procurando momentos de ócio de seus subordinados, mas como sentava no canto da sala, passava horas do dia resolvendo assuntos pessoais. Pesquisava preços de tintas para a reforma de sua casa, colhia tranquilamente seus morangos em Farmville e assistia a tutoriais de oito minutos sobre cortes de cabelo no YouTube.
A ansiedade desse gestor era grande. Aplicava tanta força no mouse, que quando o mexia, o atrito com a mesa emitia um som parecido com o de uma buzina de algodão-doce.
Mas eram tempos passados. Desistira de "ser alguém na vida", de pegar o trem lotado todos os dias, de fazer baldeações por corredores estreitos com milhares de pessoas, de ocasionalmente limpar micro-pingos de catarro na manga da camisa quando alguém espirrava sem colocar a mão na boca.
Tudo isso passou por sua cabeça num segundo, enquanto refletia sobre as escolhas que tinha feito na vida e no momento em que aceitou o emprego temporário de Papai Noel do Shopping Center Norte. Um cargo muito concorrido após anos e anos de um jingle inesquecível.
Não estava arrependido. A comprida e sedosa barba natural facilitou a escolha e começou a trabalhar logo no começo de dezembro.
As exigências eram simples: sorrir, ouvir os pedidos das crianças e não ter ereções.
Só que nosso amigo foi proativo: passava lindas mensagens e lições para os pequeninos e seus pais.
— Oi, Papai Noel!
— Ho... Ho... Ho... Olá, pequerrucho! Quantos anos você tem?
— 7 anos!
— E o que você quer de presente de Natal?
— Eu quero um iPad!
— Tenho uma coisa melhor aqui: um vale-lama. Se você chamar um amiguinho para brincar no parquinho mais perto da sua casa após um dia de chuva, você mostra esse cupom para o seus pais. Assim, você pode brincar lá mesmo se tiver lama e pode se sujar à vontade.
— ... Brigadu... — respondeu o menino, sem entender direito.
Com muita criatividade, distribuía diferentes cupons. Além do vale-lama, tinha também o vale-dormida na casa do amiguinho, vale-sobremesa extra, vale-brincadeira com os pais, vale-futebol na chuva e um vale-visita ao parque.
O mês foi passando, e como todos os trabalhos que exigem criatividade, mas que não valorizam os criativos, o saco de nosso protagonista foi se enchendo. Sem trocadilhos.
A cada criança birrenta, o humor do Papai Noel transitava entre a ironia e a completa acidez nas palavras.
— Eu quero o game "Unilever Dish Monsters 3D" para Kinect!
— Dish Monsters? Como é esse jogo? — perguntou o Papai Noel em um súbito lampejo de genuíno interesse.
— É um jogo que se passa na cozinha de uma casa! Bactérias alienígenas planejam o domínio da Terra e se alimentam da combinação de restos de arroz seco grudados em porcelanas. Para combater eles, você precisa lavar a louça com o detergente especial criado pela Unilever! Aí, você faz movimentos circulares com a mão direita, enquanto segura o prato com a mão esquerda! Assim, com o braço esticado na frente e mexendo o pulso, você liga e desliga a torneira!
— Olha só!
E o garoto continuou:
— Se deixar o prato de molho na água quente, torneira da direita, você facilita a remoção do arroz seco na louça!
O Papai Noel não aguentou, interrompeu a criança e berrou com toda a força do diafragma:
— PORRA! ENTÃO, POR QUE CARALHAS VOCÊ NÃO LAVA A LOUÇA DE VERDADE E AJUDA SEUS PAIS?!
Silêncio no Center Norte. Um fato absolutamente inédito em quase 30 anos de existência, se considerarmos que era dezembro, poucas semanas do natal. Todos ficaram boquiabertos com o grito do bom velhinho.
O capitalismo. Em menos de 5 minutos, o burburinho voltou e todos continuaram com suas compras.
Nosso amigo natalino foi despedido do shopping, mas logo conseguiu outro emprego: uma agência de publicidade o contratara para fazer posts na FanPage "Papai Noel Sincero".
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Avenida das Nações Unidas
eu tenho
consciência
da minha
displiscência
para fazer versos.
leio
e sinto nada
igual
psicopata
só aliteração.
eu só
imagino
professor
de cursinho
lendo empolgado
a grande
ironia
é que acho
poesia
chato pra caralho.
consciência
da minha
displiscência
para fazer versos.
leio
e sinto nada
igual
psicopata
só aliteração.
eu só
imagino
professor
de cursinho
lendo empolgado
a grande
ironia
é que acho
poesia
chato pra caralho.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Caguei
Rodando o copo e sentindo o aroma da bebida.
— Nossa, que cerveja é essa?
— É a gelada.
— Para mim, Muse é a melhor banda do mundo!
— Sabe a diferença entre a sua opinião e uma pizza?
— Não.
— É que a pizza eu vou pedir hoje à noite.
— Caraca! Faltam só 2 meses para acabar 2013!
— Permita-me discordar do que você falou. Anos são apenas enganações. O que muda entre o Natal e o Ano Novo? Nada! Seu dia vai ser o mesmo. Você vai dormir, acordar, trabalhar e fazer suas coisas.
— Foda-se.
— Comecei a ler Universo numa casca de noz!
— É uma bosta! Quando você conseguir ler uma tese de verdade, você vai ter meu respeito.
— Na boa? Caguei pro seu respeito.
— Nossa, que cerveja é essa?
— É a gelada.
— Para mim, Muse é a melhor banda do mundo!
— Sabe a diferença entre a sua opinião e uma pizza?
— Não.
— É que a pizza eu vou pedir hoje à noite.
— Caraca! Faltam só 2 meses para acabar 2013!
— Permita-me discordar do que você falou. Anos são apenas enganações. O que muda entre o Natal e o Ano Novo? Nada! Seu dia vai ser o mesmo. Você vai dormir, acordar, trabalhar e fazer suas coisas.
— Foda-se.
— Comecei a ler Universo numa casca de noz!
— É uma bosta! Quando você conseguir ler uma tese de verdade, você vai ter meu respeito.
— Na boa? Caguei pro seu respeito.
sábado, 12 de outubro de 2013
Bode
Andava com bode de gente.
A situação piorou quando pegou mais um livro do Bukowski para ler. Gostava muito do estilo dele. Não era a crueza de como ele descrevia as cenas, a vida, as corridas de cavalo ou as trepadas. Era a maneira como Buk aloprava a intelectualidade.
Estava de saco cheio das pessoas que tentavam mostrar o tempo todo que sabiam alguma coisa. Sentido da vida: comer, reproduzir, sobreviver e se mostrar.
Aos poucos, evitava entrar em discussões. Há tempos que elas não têm o objetivo da iluminação, como os antigos filósofos queriam. Hoje, toda discussão é só uma batalha de egos. Tipo Pokemon. O importante é a vitória, mesmo que você se descubra como errado em algum momento.
Acho que era por isso que não conseguia ler na cama. Por mais que fosse um livro que gostasse muito. Deitado, não conseguia fugir da rajada de pensamentos metralhando sua cabeça.
Lembrou das vezes em que preferiu ficar calado para não se meter em uma conversa inútil. Seus amigos falavam sobre jazz na hora do almoço. Com um tom de voz muito alto e desnecessário. "Para que isso?", pensava. "Claro que é para mostrar aos outros que são descolados, cool e entendem de jazz.".
Era possível sentir no ar a ansiedade de cada um dos participantes do culturalmente rico diálogo. Arregalavam os olhos e nem prestavam atenção no que o outro estava falando. Só ouviam o suficiente para dar sua importante contribuição ao assunto. Aguardavam ansiosamente o momento e na primeira brecha, se aliviariam com a descarga de conhecimento represado.
Quando o clima ficava assim, resolvia não se meter. O que o deixava agoniado era quando via que falavam algo errado. Queria entrar na história e dizer a resposta correta. Mas se controlava. Era melhor deixar do jeito que estava.
Aos poucos eliminava do seu sentido de vida a necessidade de se mostrar. Ainda cometia alguns deslizes. Lembrou de quando queria espalhar indignação e mensagens para acordar os brasileiros. Queria escrever críticas sociais na internet. Queria ser formador de opinião. Queria protestar sem tirar a bunda da cadeira. Sonhava em se alistar no Sea Shepherd para participar do Whale Wars.
Tentou ser politizado e quis ser religioso.
O interessante é que ao assumir uma posição em qualquer um desses assuntos, e ainda escrever, ficava desconfortável. Sentia que havia algo errado. Acho que é porque lidava com as coisas de maneira absoluta.
Nada deu certo e não se envergonhava de ter falhado, e sim de ter tentado. Mostrar-se entendido de qualquer assunto era o que ele mais abominava. Queria assumir para sua vida que o importante era saber e não que os outros soubessem que você sabe.
Ficava pensando nisso tudo até adormecer, e com toda essa avalanche na cama, só conseguia ler no ônibus.
A situação piorou quando pegou mais um livro do Bukowski para ler. Gostava muito do estilo dele. Não era a crueza de como ele descrevia as cenas, a vida, as corridas de cavalo ou as trepadas. Era a maneira como Buk aloprava a intelectualidade.
Estava de saco cheio das pessoas que tentavam mostrar o tempo todo que sabiam alguma coisa. Sentido da vida: comer, reproduzir, sobreviver e se mostrar.
Aos poucos, evitava entrar em discussões. Há tempos que elas não têm o objetivo da iluminação, como os antigos filósofos queriam. Hoje, toda discussão é só uma batalha de egos. Tipo Pokemon. O importante é a vitória, mesmo que você se descubra como errado em algum momento.
Acho que era por isso que não conseguia ler na cama. Por mais que fosse um livro que gostasse muito. Deitado, não conseguia fugir da rajada de pensamentos metralhando sua cabeça.
Lembrou das vezes em que preferiu ficar calado para não se meter em uma conversa inútil. Seus amigos falavam sobre jazz na hora do almoço. Com um tom de voz muito alto e desnecessário. "Para que isso?", pensava. "Claro que é para mostrar aos outros que são descolados, cool e entendem de jazz.".
Era possível sentir no ar a ansiedade de cada um dos participantes do culturalmente rico diálogo. Arregalavam os olhos e nem prestavam atenção no que o outro estava falando. Só ouviam o suficiente para dar sua importante contribuição ao assunto. Aguardavam ansiosamente o momento e na primeira brecha, se aliviariam com a descarga de conhecimento represado.
Quando o clima ficava assim, resolvia não se meter. O que o deixava agoniado era quando via que falavam algo errado. Queria entrar na história e dizer a resposta correta. Mas se controlava. Era melhor deixar do jeito que estava.
Aos poucos eliminava do seu sentido de vida a necessidade de se mostrar. Ainda cometia alguns deslizes. Lembrou de quando queria espalhar indignação e mensagens para acordar os brasileiros. Queria escrever críticas sociais na internet. Queria ser formador de opinião. Queria protestar sem tirar a bunda da cadeira. Sonhava em se alistar no Sea Shepherd para participar do Whale Wars.
Tentou ser politizado e quis ser religioso.
O interessante é que ao assumir uma posição em qualquer um desses assuntos, e ainda escrever, ficava desconfortável. Sentia que havia algo errado. Acho que é porque lidava com as coisas de maneira absoluta.
Nada deu certo e não se envergonhava de ter falhado, e sim de ter tentado. Mostrar-se entendido de qualquer assunto era o que ele mais abominava. Queria assumir para sua vida que o importante era saber e não que os outros soubessem que você sabe.
Ficava pensando nisso tudo até adormecer, e com toda essa avalanche na cama, só conseguia ler no ônibus.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Esfinge
Todas as segundas e quartas, tem o curso de pós-graduação em Psicologia Hospitalar.
Clarice se formou na faculdade em 2002. Por conta das oportunidades disponíveis no mercado, iniciou um estágio em Recursos Humanos no segundo ano, mas nunca abandonou seu sonho de ser psicóloga na área da saúde.
Por conta desse desejo, mesmo na época em que estagiava e era efetivada no RH da Pássaros de Goiânia Construção e Vendas, fez quatro pós-graduações: uma em Psicologia da Saúde, outra em Psicossomática, além das especializações em Psicanálise moderna e Psicopatologia de Lacan.
E ia para a nova pós todas as segundas e quartas. Sempre com seus óculos de armações grossas azuis, seus cabelos soltos, na altura dos ombros, com reflexos loiros e seu tablet com teclado físico. Tinha uma coleção de sapatos sociais com um saltinho de 5 cm que combinavam com outro conjunto de terninhos sociais.
Chegava às aulas geralmente com um pão de batata, mas dependendo da pressa (e das nóias com o peso) às vezes recorria a seu estoque de barrinhas de cereal, que sempre comprava em um atacadista perto da empresa.
Cinco anos de faculdade até 2002, mais quase 10 anos de pós-graduações, e ainda assim Clarice continuava pensando em descobrir um manual de instruções ou guia infalível ilustrado para o comportamento humano.
Assistia demais a séries como "House", "The Mentalist", "Bones" e "Lie to me". Achava que conseguia reparar nos mesmos detalhes que os protagonistas dos seriados, tanto em entrevistas de processo seletivo na Pássaros de Goiânia, quanto em seus escassos atendimentos psicoterapêuticos.
Apesar do forte barulho "toc-toc" que seus sapatos faziam no chão a cada passo que dava, Clarice parecia flutuar no ar. Fazia questão de olhar nos olhos das pessoas com quem conversava.
A máscara de psicóloga clínica nunca saía de seu rosto. No trabalho, quando atendia a algum funcionário da empresa, tinha o seguinte ritual:
— Bom dia, Clarice! Posso tirar uma dúvida com você?
— Claro! — respondia. E tirava os óculos, deixava sobre a mesa e colocava a mão direita no queixo, com o dedo indicador na sua bochecha apontando para a orelha. Era um detalhe importante que tinha lido em um livro de linguagem corporal: seu dedo indicava o ouvido para mostrar que estava aberta a ouvir.
Enquanto falavam com ela, Clarice fazia uma expressão facial de profunda reflexão sobre o que a pessoa estava dizendo. Franzia a testa, sorria e acenava discretamente com a cabeça para mostrar concordância. Quando necessário, também fechava levemente os olhos e contraía a boca. Tudo dependia do assunto tratado. Ela tinha um leque enorme de expressões para incentivar quem estava falando.
Quando Clarice se formou na faculdade, passou a sentir que podia conversar de igual para igual com seus professores. Agora, eles são colegas de trabalho. Uma postura que digamos, tumultuou todas suas aulas em todos os cursos de pós-graduação que fez.
Porém, a gota d'água foi na última quarta-feira.
O professor discutia um caso clínico de outra aluna com a sala de aula. Em algum momento, ele pediu para a aluna investigar melhor o caso com o paciente.
Citou uma recente pesquisa relacionada ao assunto. Os resultados do trabalho em questão denunciavam várias inconsistências nos comportamentos e reações do paciente da aluna. No caso, ele seria uma gigante exceção a uma forte tendência comportamental.
Claro. Exceções podem ocorrer. Pesquisas não são manuais de comportamento humano. O professor pediu apenas para a aluna investigar melhor. E ela aceitou o conselho.
O problema foi quando Clarice resolveu se meter no debate. Parte por necessidade de autoafirmação, parte por não respeitar muito aquele colega de trabalho que ministrava aulas. Contou um caso clínico parecido e questionou:
— Quer dizer que ela não pode acreditar no paciente dela? E a relação de confiança? Comigo aconteceu algo bem parecido! — a ironia aqui é Clarice ser fã de House, que afirma: "everybody lies!".
A discussão continuou por alguns minutos. Na cabeça de todos, a balança pesava: trabalho de pesquisa internacional X crazy bitch com três casos clínicos na carreira.
E prosseguiu. Duas alunas aproveitaram para ir ao banheiro. O professor bufava. A mais novinha do curso dormia na cadeira. Outra mulher acessava ao Facebook.
O único homem da sala, com 1,90 m de altura, ficou puto. Levantou da cadeira dele e foi em direção à Clarice.
Como um príncipe, levantou-a nos braços.
E como um ogro, jogou-a pela janela da sala de aula, no corredor da universidade.
Ele foi expulso do curso. Clarice vai voltar na segunda seguinte.
Clarice se formou na faculdade em 2002. Por conta das oportunidades disponíveis no mercado, iniciou um estágio em Recursos Humanos no segundo ano, mas nunca abandonou seu sonho de ser psicóloga na área da saúde.
Por conta desse desejo, mesmo na época em que estagiava e era efetivada no RH da Pássaros de Goiânia Construção e Vendas, fez quatro pós-graduações: uma em Psicologia da Saúde, outra em Psicossomática, além das especializações em Psicanálise moderna e Psicopatologia de Lacan.
E ia para a nova pós todas as segundas e quartas. Sempre com seus óculos de armações grossas azuis, seus cabelos soltos, na altura dos ombros, com reflexos loiros e seu tablet com teclado físico. Tinha uma coleção de sapatos sociais com um saltinho de 5 cm que combinavam com outro conjunto de terninhos sociais.
Chegava às aulas geralmente com um pão de batata, mas dependendo da pressa (e das nóias com o peso) às vezes recorria a seu estoque de barrinhas de cereal, que sempre comprava em um atacadista perto da empresa.
Cinco anos de faculdade até 2002, mais quase 10 anos de pós-graduações, e ainda assim Clarice continuava pensando em descobrir um manual de instruções ou guia infalível ilustrado para o comportamento humano.
Assistia demais a séries como "House", "The Mentalist", "Bones" e "Lie to me". Achava que conseguia reparar nos mesmos detalhes que os protagonistas dos seriados, tanto em entrevistas de processo seletivo na Pássaros de Goiânia, quanto em seus escassos atendimentos psicoterapêuticos.
Apesar do forte barulho "toc-toc" que seus sapatos faziam no chão a cada passo que dava, Clarice parecia flutuar no ar. Fazia questão de olhar nos olhos das pessoas com quem conversava.
A máscara de psicóloga clínica nunca saía de seu rosto. No trabalho, quando atendia a algum funcionário da empresa, tinha o seguinte ritual:
— Bom dia, Clarice! Posso tirar uma dúvida com você?
— Claro! — respondia. E tirava os óculos, deixava sobre a mesa e colocava a mão direita no queixo, com o dedo indicador na sua bochecha apontando para a orelha. Era um detalhe importante que tinha lido em um livro de linguagem corporal: seu dedo indicava o ouvido para mostrar que estava aberta a ouvir.
Enquanto falavam com ela, Clarice fazia uma expressão facial de profunda reflexão sobre o que a pessoa estava dizendo. Franzia a testa, sorria e acenava discretamente com a cabeça para mostrar concordância. Quando necessário, também fechava levemente os olhos e contraía a boca. Tudo dependia do assunto tratado. Ela tinha um leque enorme de expressões para incentivar quem estava falando.
Quando Clarice se formou na faculdade, passou a sentir que podia conversar de igual para igual com seus professores. Agora, eles são colegas de trabalho. Uma postura que digamos, tumultuou todas suas aulas em todos os cursos de pós-graduação que fez.
Porém, a gota d'água foi na última quarta-feira.
O professor discutia um caso clínico de outra aluna com a sala de aula. Em algum momento, ele pediu para a aluna investigar melhor o caso com o paciente.
Citou uma recente pesquisa relacionada ao assunto. Os resultados do trabalho em questão denunciavam várias inconsistências nos comportamentos e reações do paciente da aluna. No caso, ele seria uma gigante exceção a uma forte tendência comportamental.
Claro. Exceções podem ocorrer. Pesquisas não são manuais de comportamento humano. O professor pediu apenas para a aluna investigar melhor. E ela aceitou o conselho.
O problema foi quando Clarice resolveu se meter no debate. Parte por necessidade de autoafirmação, parte por não respeitar muito aquele colega de trabalho que ministrava aulas. Contou um caso clínico parecido e questionou:
— Quer dizer que ela não pode acreditar no paciente dela? E a relação de confiança? Comigo aconteceu algo bem parecido! — a ironia aqui é Clarice ser fã de House, que afirma: "everybody lies!".
A discussão continuou por alguns minutos. Na cabeça de todos, a balança pesava: trabalho de pesquisa internacional X crazy bitch com três casos clínicos na carreira.
E prosseguiu. Duas alunas aproveitaram para ir ao banheiro. O professor bufava. A mais novinha do curso dormia na cadeira. Outra mulher acessava ao Facebook.
O único homem da sala, com 1,90 m de altura, ficou puto. Levantou da cadeira dele e foi em direção à Clarice.
Como um príncipe, levantou-a nos braços.
E como um ogro, jogou-a pela janela da sala de aula, no corredor da universidade.
Ele foi expulso do curso. Clarice vai voltar na segunda seguinte.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Lâmpadas e coxinhas
A rotina diária pode não parecer uma grande luta, mas é difícil sobreviver a ela. Quando você vê, sua vida já está na mesmice, os anos vão passando mais rápido e de repente, vem o clássico arrependimento das decisões que você não tomou e das escolhas que foram feitas.
Rodolfo não tinha se dado conta disso. Reclamava para si mesmo todos os dias por ter que acordar cedo, ajudar sua esposa, colocar os dois filhos pequenos na perua do colégio e preparar o lanche deles. Tudo isso a partir das 5h da manhã.
Reclamar é um vício. Igual ao cigarro. Demanda tempo, energia, traz alívio em curto prazo a alguma angústia, mas é um hábito inútil se a pessoa está atrás de mudanças.
Bem como boa parte das pessoas, Rodolfo esperava alguma coisa mágica ou drástica acontecer para mudar sua vida. Tudo para fugir de sua própria responsabilidade pelo rumo das coisas. Por conta desse comodismo, chegou até a imaginar a morte de sua esposa e filhos. Só para poder reiniciar seu próprio mundo.
Visualizava o choque, o choro, o funeral, o consolo dos parentes e amigos, o período de luto e a recuperação triunfante. "Bom... Se ela me pedisse o divórcio, seria menos dramático, mas seria bem mais caro!" — pensava sabendo que não poderia compartilhar esse tipo de ideia com ninguém.
Nada é esperado quando se trata do destino. Sua família continuou viva e bem. Seu emprego no escritório de importação continuou o mesmo marasmo.
Um dia, em um raro almoço feliz de casual friday, foi arrastado com um grupo de amigos para um sex shop perto do escritório. Tinham tomado cerveja no restaurante e o álcool diluiu um pouco do pudor para facilitar o passeio.
Chegando lá, brincaram e tiraram sarro dos acessórios. A funcionária da loja até abriu sorrisos para a leve bagunça na loja. Rodolfo ficou imaginando suas colegas com as fantasias que elas pegavam dos cabides e experimentavam. Uniformes de colegiais japonesas, biquíni dourado da Princesa Leia e as clássicas roupas de couro sadomasoquistas.
Todos começaram a rir quando Rodolfo pegou o chicote da fantasia de dominatrix e disse: "É o Chirrin-Chirrion do diabo!".
Apontou o chicotinho para uma de suas colegas e falou:
— Biquíni da Princesa Leia, CHIRRIN!
Espanto. Todo o grupo ficou sem palavras. Inclusive a atendente da loja. A colega de Rodolfo imediatamente ficou com as roupas-fetiche da princesa.
Foi surpreendente porque ninguém nunca tinha usado um chicote sadomasoquista dessa maneira, e por um acaso bizarro do destino, era realmente o artefato demoníaco mostrado pela primeira vez numa história do Chapolim Colorado.
Rodolfo ficou confuso. Questionou se estava bêbado. A leve simpatia alcoolica passou na hora. Depois se sentiu poderoso.
— Todo mundo nessa loja, CHIRRION! — gritou.
E todos sumiram. Não se sabe para onde foram. O espaço da loja ficou vazio. Só sobrou o chão e as paredes.
— Não gostava de ninguém aqui... Tudo Pra Você Importação Ltda. CHIRRION! — e fez o escritório em que trabalhava desaparecer com todos os funcionários que estavam no prédio.
Riu maleficamente. Pensamentos vingativos começaram a surgir. Foi quando teve uma brilhante ideia. Rodolfo fora assaltado duas vezes em sua vida: uma na rua e outra em que entraram em seu bar favorito durante um longo arrastão em Moema. Isso há uns três anos. Ele não sabia se a polícia tinha capturado os bandidos e teve medo de fazer o reconhecimento quando prenderam alguns suspeitos.
— Todos os bandidos que me assaltaram, algemados em cadeiras, CHIRRIN!
E surgiram. Cinco bandidos, amarrados em cadeiras e completamente confusos. Depois de se recuperar do espanto, Rodolfo falou:
— É... Vocês provavelmente não se lembram de mim. Mas eu sei exatamente quem é cada um de vocês. Hmmm... Os dois da esquerda me roubaram um celular quando eu voltava para casa. E vocês invadiram o bar que eu estava...
Os bandidos mantiveram o silêncio. Pareciam bem desorientados. Nenhum respondeu, apenas olhavam em volta para tentar descobrir onde estavam.
Não foi o susto do arrastão, tampouco o prejuízo material. A pior sensação do assalto para Rodolfo foi a impotência. Desde esse dia, ele ficou mais ansioso. Paranoico.
— Coletes salva-vidas, CHIRRIN! — e todos os bandidos ficaram com um colete salva-vidas.
— Braços, pernas e cordas vocais, CHIRRION! — e todos os bandidos viraram cotocos mudos.
Rodolfo deixou os cinco na loja vazia e foi correndo buscar seu carro: uma Palio Weekend. Alguns minutos depois, conseguiu carregar o que sobrou dos bandidos até o porta-malas de seu carro. Entrou, deu partida, saiu e, com o chicote na mão, gritou:
— Testemunhas, CHIRRION! — Alguns transeuntes desapareceram.
Mais ou menos uma hora e meia depois, Rodolfo chegou com os desesperados bandidos no porto de Santos. Apontou o artefato para a água e disse:
— Barco, CHIRRIN! Testemunhas, CHIRRION!
Carregou cada um dos cotocos para dentro do barco e foi para alto mar.
— O olhar de vocês está impagável, galera. — disse Rodolfo, enquanto dirigia o barco. — Vale cada real de prejuízo que vocês me deram.
Desligou o motor do barco na distância em que não conseguia mais ver o porto. Um por um, Rodolfo jogou os bandidos sem braços, pernas e voz na água. Todos flutuaram devido ao colete salva-vidas.
— Boa sensação de impotência para vocês, pessoal! Até mais! — Ligou o barco e foi embora.
Foi um capricho. Mas Rodolfo era rancoroso demais e teve que fazer isso.
Chegando em terra novamente, passou a fazer seus novos planos com o Chirrin-Chirrion: criar seu atelier, tirar umas férias, viajar com a mulher e os filhos, ouvir mais música, ler mais livros... Opa! Peraí! Precisa de um artefato místico e demoníaco para poder fazer isso?
Rodolfo não tinha se dado conta disso. Reclamava para si mesmo todos os dias por ter que acordar cedo, ajudar sua esposa, colocar os dois filhos pequenos na perua do colégio e preparar o lanche deles. Tudo isso a partir das 5h da manhã.
Reclamar é um vício. Igual ao cigarro. Demanda tempo, energia, traz alívio em curto prazo a alguma angústia, mas é um hábito inútil se a pessoa está atrás de mudanças.
Bem como boa parte das pessoas, Rodolfo esperava alguma coisa mágica ou drástica acontecer para mudar sua vida. Tudo para fugir de sua própria responsabilidade pelo rumo das coisas. Por conta desse comodismo, chegou até a imaginar a morte de sua esposa e filhos. Só para poder reiniciar seu próprio mundo.
Visualizava o choque, o choro, o funeral, o consolo dos parentes e amigos, o período de luto e a recuperação triunfante. "Bom... Se ela me pedisse o divórcio, seria menos dramático, mas seria bem mais caro!" — pensava sabendo que não poderia compartilhar esse tipo de ideia com ninguém.
Nada é esperado quando se trata do destino. Sua família continuou viva e bem. Seu emprego no escritório de importação continuou o mesmo marasmo.
Um dia, em um raro almoço feliz de casual friday, foi arrastado com um grupo de amigos para um sex shop perto do escritório. Tinham tomado cerveja no restaurante e o álcool diluiu um pouco do pudor para facilitar o passeio.
Chegando lá, brincaram e tiraram sarro dos acessórios. A funcionária da loja até abriu sorrisos para a leve bagunça na loja. Rodolfo ficou imaginando suas colegas com as fantasias que elas pegavam dos cabides e experimentavam. Uniformes de colegiais japonesas, biquíni dourado da Princesa Leia e as clássicas roupas de couro sadomasoquistas.
Todos começaram a rir quando Rodolfo pegou o chicote da fantasia de dominatrix e disse: "É o Chirrin-Chirrion do diabo!".
Apontou o chicotinho para uma de suas colegas e falou:
— Biquíni da Princesa Leia, CHIRRIN!
Espanto. Todo o grupo ficou sem palavras. Inclusive a atendente da loja. A colega de Rodolfo imediatamente ficou com as roupas-fetiche da princesa.
Foi surpreendente porque ninguém nunca tinha usado um chicote sadomasoquista dessa maneira, e por um acaso bizarro do destino, era realmente o artefato demoníaco mostrado pela primeira vez numa história do Chapolim Colorado.
Rodolfo ficou confuso. Questionou se estava bêbado. A leve simpatia alcoolica passou na hora. Depois se sentiu poderoso.
— Todo mundo nessa loja, CHIRRION! — gritou.
E todos sumiram. Não se sabe para onde foram. O espaço da loja ficou vazio. Só sobrou o chão e as paredes.
— Não gostava de ninguém aqui... Tudo Pra Você Importação Ltda. CHIRRION! — e fez o escritório em que trabalhava desaparecer com todos os funcionários que estavam no prédio.
Riu maleficamente. Pensamentos vingativos começaram a surgir. Foi quando teve uma brilhante ideia. Rodolfo fora assaltado duas vezes em sua vida: uma na rua e outra em que entraram em seu bar favorito durante um longo arrastão em Moema. Isso há uns três anos. Ele não sabia se a polícia tinha capturado os bandidos e teve medo de fazer o reconhecimento quando prenderam alguns suspeitos.
— Todos os bandidos que me assaltaram, algemados em cadeiras, CHIRRIN!
E surgiram. Cinco bandidos, amarrados em cadeiras e completamente confusos. Depois de se recuperar do espanto, Rodolfo falou:
— É... Vocês provavelmente não se lembram de mim. Mas eu sei exatamente quem é cada um de vocês. Hmmm... Os dois da esquerda me roubaram um celular quando eu voltava para casa. E vocês invadiram o bar que eu estava...
Os bandidos mantiveram o silêncio. Pareciam bem desorientados. Nenhum respondeu, apenas olhavam em volta para tentar descobrir onde estavam.
Não foi o susto do arrastão, tampouco o prejuízo material. A pior sensação do assalto para Rodolfo foi a impotência. Desde esse dia, ele ficou mais ansioso. Paranoico.
— Coletes salva-vidas, CHIRRIN! — e todos os bandidos ficaram com um colete salva-vidas.
— Braços, pernas e cordas vocais, CHIRRION! — e todos os bandidos viraram cotocos mudos.
Rodolfo deixou os cinco na loja vazia e foi correndo buscar seu carro: uma Palio Weekend. Alguns minutos depois, conseguiu carregar o que sobrou dos bandidos até o porta-malas de seu carro. Entrou, deu partida, saiu e, com o chicote na mão, gritou:
— Testemunhas, CHIRRION! — Alguns transeuntes desapareceram.
Mais ou menos uma hora e meia depois, Rodolfo chegou com os desesperados bandidos no porto de Santos. Apontou o artefato para a água e disse:
— Barco, CHIRRIN! Testemunhas, CHIRRION!
Carregou cada um dos cotocos para dentro do barco e foi para alto mar.
— O olhar de vocês está impagável, galera. — disse Rodolfo, enquanto dirigia o barco. — Vale cada real de prejuízo que vocês me deram.
Desligou o motor do barco na distância em que não conseguia mais ver o porto. Um por um, Rodolfo jogou os bandidos sem braços, pernas e voz na água. Todos flutuaram devido ao colete salva-vidas.
— Boa sensação de impotência para vocês, pessoal! Até mais! — Ligou o barco e foi embora.
Foi um capricho. Mas Rodolfo era rancoroso demais e teve que fazer isso.
Chegando em terra novamente, passou a fazer seus novos planos com o Chirrin-Chirrion: criar seu atelier, tirar umas férias, viajar com a mulher e os filhos, ouvir mais música, ler mais livros... Opa! Peraí! Precisa de um artefato místico e demoníaco para poder fazer isso?
segunda-feira, 1 de julho de 2013
São Joaquim
Há tempos que estava intrigado. Se imaginava em uma situação como no filme "O Show de Truman".
Na linha azul do Metrô, reparou que ninguém entrava ou saía do trem quando ele parava na Estação São Joaquim. Tentava identificar se eram sempre as mesmas pessoas que circulavam pela plataforma. Observava atentamente se apareceriam criaturas estranhas nos cantos.
De qualquer forma, não sabia o que procurar. Uma vaca malhada estacionada? Um cachorro-quente alado? Orcs à espreita nas quinas das paredes apenas observando o movimento? Um portal para São Tomé das Letras? A sala de controle do reality show da sua vida? A imaginação ia longe.
Estaria ficando paranoico? Não queria fazer psicoterapia. Achava que psicólogos eram apenas um bando de perdidos ajudando outros desorientados. Tinha esse preconceito. Acabava tendo vários outros por pensar demais.
Não era à toa. Ficava enjoado quando lia em movimento. Também não conseguia jogar games no celular ou acessar o Facebook. Por conta disso, fazia a viagem entre o Jabaquara e o Tucuruvi completamente entediado. Um tempo perdido de sua vida.
Andava meio frustrado. Estava decepcionado com seu novo emprego. Tinha acabado de ser contratado nessa nova empresa. Era muito perto do Metrô. O serviço era o que ele sabia fazer e o salário não era mau. O problema era o chefe: um pé no saco.
— Eu ejaculei na cruz mesmo! — pensou, puto da vida. Era segunda, estava tenso, apressado e o chefe não relevaria os possíveis 20 minutos de atraso no horário de hoje.
Apesar das encheções de saco do seu gestor, era o emprego ideal. Tinha talento e experiência para as atividades. Mesmo assim, queria empreender e ter um negócio próprio, mas faltava-lhe coragem. Fez uma enorme pesquisa de rentabilidade de franquias. Tinha se interessado por uma que vendia relógios de pulso personalizados.
Mas como começar algo novo? O trabalho atual pagava bem suas contas, mas não permitia guardar muito dinheiro. Como largar essa pseudo-estabilidade para entrar em um território totalmente desconhecido? Será que ele ia gostar da vida de empresário?
Eram muitas questões de grandes consequências e mudanças. Até então, normal. Uma decisão dessas não é tomada por impulso. O que realmente estava incomodando era que o sujeito se sentia um grande covarde.
Sentir-se assim fez com que tivesse uma revelação ainda mais incômoda. Ele passou a perceber o quanto era parecido com as pessoas que ele não admirava.
Criticava uma prima solteirona que tinha vários talentos, mas que não os aproveitava. Ela ficava em depressão em casa, cultivando a hipocondria, neuroses e aproveitando os rendimentos da herança que recebera do pai. Ele a via como uma perdedora. Mas ficar em um emprego que, toda segunda-feira de manhã, o fazia suspirar de desgosto é uma vitória? Não é apenas outro tipo de acomodação?
Detestava o comportamento de um amigo, que nunca assumia as próprias responsabilidades. Esse cara sempre encontrava um culpado para tudo que dava errado na vida. Seguia fielmente a frase de Homer Simpson: "Se alguma coisa é difícil demais, então não vale a pena fazer".
Sem que esse amigo soubesse, deu-lhe o apelido de "Madre Teresa". Tudo porque o sujeito é cego para os próprios defeitos: nunca admitia ter preguiça, inveja, ou até mesmo desejar ou falar mal de alguém. Alcançara a perfeição pela cegueira.
Sentado no banco marrom do metrô, nosso protagonista pensava no quanto seu próprio mundo era perfeito pela cegueira. O que ele estava deixando de enxergar que deixava sua vida assim?
— Próxima estação: São Joaquim. Desembarque pelo lado direito do trem. — disse a voz nos altofalantes.
Pensou: "Foda-se! Já estou atrasado. Vou descer aqui mesmo para ver o que acontece!". E o fez.
Na plataforma, tudo certo. Seguiu até as escadas rolantes. Subiu, passou pelos bloqueios e foi em direção à saída.
De repente, sentiu uma enorme força o puxando progressivamente. Primeiro a ponta dos pés, joelhos, quadril, abdome, tórax e cabeça. Incontrolável. Era o vácuo vindo de um buraco negro.
Seus olhos não acreditaram no que viam: um fundo preto, estrelas, átomos circulando e cometas dourados em alta velocidade. Quando sentiu que o ar estava rarefeito, olhou para a direita e viu um cardume de sete peixes-lontra em uma formação de voo igual a de patos selvagens. Na esquerda, uma chuva de cabeças do Régis Tadeu gritando: "Eu odeio Manowar!" em contraponto de terças.
De repente, tudo apagou. O buraco negro o sugou completamente. Mas claro, pode ser que ele só tenha sido nocauteado ao escorregar em uma poça d'água e batido a nuca na calçada.
Na linha azul do Metrô, reparou que ninguém entrava ou saía do trem quando ele parava na Estação São Joaquim. Tentava identificar se eram sempre as mesmas pessoas que circulavam pela plataforma. Observava atentamente se apareceriam criaturas estranhas nos cantos.
De qualquer forma, não sabia o que procurar. Uma vaca malhada estacionada? Um cachorro-quente alado? Orcs à espreita nas quinas das paredes apenas observando o movimento? Um portal para São Tomé das Letras? A sala de controle do reality show da sua vida? A imaginação ia longe.
Estaria ficando paranoico? Não queria fazer psicoterapia. Achava que psicólogos eram apenas um bando de perdidos ajudando outros desorientados. Tinha esse preconceito. Acabava tendo vários outros por pensar demais.
Não era à toa. Ficava enjoado quando lia em movimento. Também não conseguia jogar games no celular ou acessar o Facebook. Por conta disso, fazia a viagem entre o Jabaquara e o Tucuruvi completamente entediado. Um tempo perdido de sua vida.
Andava meio frustrado. Estava decepcionado com seu novo emprego. Tinha acabado de ser contratado nessa nova empresa. Era muito perto do Metrô. O serviço era o que ele sabia fazer e o salário não era mau. O problema era o chefe: um pé no saco.
— Eu ejaculei na cruz mesmo! — pensou, puto da vida. Era segunda, estava tenso, apressado e o chefe não relevaria os possíveis 20 minutos de atraso no horário de hoje.
Apesar das encheções de saco do seu gestor, era o emprego ideal. Tinha talento e experiência para as atividades. Mesmo assim, queria empreender e ter um negócio próprio, mas faltava-lhe coragem. Fez uma enorme pesquisa de rentabilidade de franquias. Tinha se interessado por uma que vendia relógios de pulso personalizados.
Mas como começar algo novo? O trabalho atual pagava bem suas contas, mas não permitia guardar muito dinheiro. Como largar essa pseudo-estabilidade para entrar em um território totalmente desconhecido? Será que ele ia gostar da vida de empresário?
Eram muitas questões de grandes consequências e mudanças. Até então, normal. Uma decisão dessas não é tomada por impulso. O que realmente estava incomodando era que o sujeito se sentia um grande covarde.
Sentir-se assim fez com que tivesse uma revelação ainda mais incômoda. Ele passou a perceber o quanto era parecido com as pessoas que ele não admirava.
Criticava uma prima solteirona que tinha vários talentos, mas que não os aproveitava. Ela ficava em depressão em casa, cultivando a hipocondria, neuroses e aproveitando os rendimentos da herança que recebera do pai. Ele a via como uma perdedora. Mas ficar em um emprego que, toda segunda-feira de manhã, o fazia suspirar de desgosto é uma vitória? Não é apenas outro tipo de acomodação?
Detestava o comportamento de um amigo, que nunca assumia as próprias responsabilidades. Esse cara sempre encontrava um culpado para tudo que dava errado na vida. Seguia fielmente a frase de Homer Simpson: "Se alguma coisa é difícil demais, então não vale a pena fazer".
Sem que esse amigo soubesse, deu-lhe o apelido de "Madre Teresa". Tudo porque o sujeito é cego para os próprios defeitos: nunca admitia ter preguiça, inveja, ou até mesmo desejar ou falar mal de alguém. Alcançara a perfeição pela cegueira.
Sentado no banco marrom do metrô, nosso protagonista pensava no quanto seu próprio mundo era perfeito pela cegueira. O que ele estava deixando de enxergar que deixava sua vida assim?
— Próxima estação: São Joaquim. Desembarque pelo lado direito do trem. — disse a voz nos altofalantes.
Pensou: "Foda-se! Já estou atrasado. Vou descer aqui mesmo para ver o que acontece!". E o fez.
Na plataforma, tudo certo. Seguiu até as escadas rolantes. Subiu, passou pelos bloqueios e foi em direção à saída.
De repente, sentiu uma enorme força o puxando progressivamente. Primeiro a ponta dos pés, joelhos, quadril, abdome, tórax e cabeça. Incontrolável. Era o vácuo vindo de um buraco negro.
Seus olhos não acreditaram no que viam: um fundo preto, estrelas, átomos circulando e cometas dourados em alta velocidade. Quando sentiu que o ar estava rarefeito, olhou para a direita e viu um cardume de sete peixes-lontra em uma formação de voo igual a de patos selvagens. Na esquerda, uma chuva de cabeças do Régis Tadeu gritando: "Eu odeio Manowar!" em contraponto de terças.
De repente, tudo apagou. O buraco negro o sugou completamente. Mas claro, pode ser que ele só tenha sido nocauteado ao escorregar em uma poça d'água e batido a nuca na calçada.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
De Lorean Creative Solutions Ltda.
Lá estava Gustavo. Sentado de frente a uma fogueira assando um besouro que tinha encontrado. Era o jantar mais farto desde a grande tragédia, há três semanas.
Estava faminto. Pensar que fazia dois meses que tinha sido chamado para ser estagiário da agência De Lorean Creative Solutions Ltda. Depois de um longo processo seletivo, fora escolhido para a área de atendimento.
Antes que todos pudessem perceber o avanço tecnológico, a viagem no tempo já era possível. Dos estudos finais até a utilização banal foi uma evolução muito rápida. As agências de publicidade foram as primeiras a adotar as máquinas do tempo como ferramenta de trabalho.
Problemas de prazo, entregas, pressão. Era uma solução perfeita. A expressão "esse trabalho é para ontem" passou a fazer sentido.
A De Lorean foi pioneira. Os gerentes de projeto amaram a ideia. Os clientes, mais ainda.
As duplas criativas trabalhavam da seguinte maneira: o job complicado chegava com um prazo apertado. O diretor de arte e o redator definiam o tempo para a execução do trabalho. Podiam demorar o quanto precisassem para uma entrega de qualidade.
Ao terminar o trabalho, mesmo que muito atrasado, os funcionários do atendimento faziam a viagem no tempo para apresentar, aprovar e veicular as peças na data que tinha sido estipulada.
O único cuidado especial que devia ser tomado era para não desorganizar a agenda dos gerentes do projeto. Mais uma função que deveria ser incorporada nas planilhas de cronograma.
Alguns simplesmente incluíram a coluna "EVT" (Entrega com Viagem no Tempo) ou "EMT" (Entrega com Máquina no Tempo). Tudo era uma questão de planejamento.
Quando passou no processo seletivo, o RH e os gestores de área definiram que o melhor lugar para Gustavo era no departamento de atendimento, auxiliando na administração das contas de varejo.
Gustavo estava feliz. Era uma grande oportunidade. Trabalharia em uma das maiores agências do país. Uma empresa que tinha crescido muito nos últimos anos. A De Lorean duplicou o faturamento com a conquista dos primeiros clientes que buscavam a solução da máquina do tempo.
A viagem temporal, principalmente no período de implantação, era um típico serviço para estagiários. Era necessário vestir uma roupa especial protetora. O material era amianto porque, durante as viagens, havia o risco de combustão espontânea.
Funcionava assim. Havia uma estrutura de metal cilíndrica, de 2 m de altura por 1,60 m de diâmetro.
A cabine tinha um painel eletrônico, com um teclado numérico onde eram digitados a data-destino e o horário. Devido à perda de dois estagiários por erros de digitação, foi estipulado como medida de segurança que a data limite para viagem seria 10/6/2010, dia em que a ferramenta fora implantada na agência. Assim, quem viajasse teria um meio de retornar ao seu tempo de origem.
Em resumo, assim que entrava na cabine, o viajante do tempo era submetido a micro-vibrações muito rápidas. Vibrava tanto que acontecia uma desestabilização molecular, assim, o grupo de moléculas era deslocado no sentido contrário de rotação da Terra, até a data desejada. A combustão nas primeiras viagens vinha do atrito com o ar no início da micro-vibração.
Enfim. O problema estava resolvido. Gustavo já estava se acostumando com as viagens. No começo, sentia um pouco de náuseas. Nada demais. Quando chegava no "tempo de entrega", era necessário apenas dar a seu chefe o pendrive com as peças e depois, voltar à máquina do tempo.
Tudo muito simples.
As coisas começaram a mudar quando a De Lorean venceu a concorrência de sua primeira conta imobiliária: Pássaros de Goiânia Construção e Vendas. O cliente, atraído pela maravilha da viagem no tempo, optou sem pestanejar pela agência.
Com um gordo fee, o maior da casa, a conta tinha muitos poderes e privilégios sobre os funcionários da De Lorean. Por causa disso, todos foram muito imprudentes na utilização das EVT's.
Um e-mail marketing. Algo muito simples que teve consequências desastrosas para o planeta.
A peça, que informaria o mailing de um evento em conjunto com a Caixa Econômica, conteria uma lista de empreendimentos que estariam em promoção e ótimas condições de financiamento. Contando com a EVT, o prazo já estava apertado. O trabalho entrou na agência na quinta-feira. O evento seria no sábado.
Na própria quinta, depois das 19h, a dupla criativa finalizou o trabalho.
Primeira alteração na sexta: a medida de um dos residenciais, o Jardim de Lírios com Orvalho, estava errada. Não eram 82 metros quadrados, e sim 70. Gustavo voltou para quinta-feira às 19h para refazer a entrega.
Segunda alteração na segunda-feira seguinte: o cliente não gostou de uma das cores no layout. Não estava vendedor. Era necessário passar mais alegria e esperança em um evento que oferecia uma oportunidade singular de compra de imóveis. Lá foi Gustavo de novo para a quinta-feira às 19h com o pendrive de alteração.
Terceira mudança, na segunda ainda na parte da tarde: o fundo do logo parecia estar prata, quando, na verdade, deveria ser cinza. Isso ia contra as especificações do guide. "Vai lá, Gus!".
Quarta alteração: trocar a palavra "imóvel" para "apartamento" em todo o e-mail. O enjoo que Gustavo sentia nas primeiras viagens até voltou a atacar seu estômago.
Quase uma semana depois da primeira entrega do job, veio o último pedido de alteração. E foi realmente o último. Pena que não deu tempo de aprender com esse erro: alterações e viagens no tempo formavam uma destrutiva combinação.
Enquanto Gustavo viajava, no formato de um agrupamento de moléculas soltas a grande velocidade, acabou se encontrando com dois outros Gustavos viajantes de outras alterações.
Houve um choque molecular e atômico, similar ao experimento no Grande Colisor de Hádrons, que desestabilizou os nêutrons e gerou a maior explosão atômica já documentada. O cogumelo de fumaça poderia ser visto da Lua.
A explosão varreu a vida na superfície da Terra. Sobraram apenas baratas, alguns insetos e um Gustavo, que surgiu na cabine da máquina do tempo após a estabilização de tudo.
Ele encontrou um mundo pós-apocalíptico típico. Deserto, sem luz e, até onde se sabia, sem zumbis.
No fim, só lhe restava torcer que a Emma Watson também estivesse viva para ajudar a repovoar o mundo.
Estava faminto. Pensar que fazia dois meses que tinha sido chamado para ser estagiário da agência De Lorean Creative Solutions Ltda. Depois de um longo processo seletivo, fora escolhido para a área de atendimento.
Antes que todos pudessem perceber o avanço tecnológico, a viagem no tempo já era possível. Dos estudos finais até a utilização banal foi uma evolução muito rápida. As agências de publicidade foram as primeiras a adotar as máquinas do tempo como ferramenta de trabalho.
Problemas de prazo, entregas, pressão. Era uma solução perfeita. A expressão "esse trabalho é para ontem" passou a fazer sentido.
A De Lorean foi pioneira. Os gerentes de projeto amaram a ideia. Os clientes, mais ainda.
As duplas criativas trabalhavam da seguinte maneira: o job complicado chegava com um prazo apertado. O diretor de arte e o redator definiam o tempo para a execução do trabalho. Podiam demorar o quanto precisassem para uma entrega de qualidade.
Ao terminar o trabalho, mesmo que muito atrasado, os funcionários do atendimento faziam a viagem no tempo para apresentar, aprovar e veicular as peças na data que tinha sido estipulada.
O único cuidado especial que devia ser tomado era para não desorganizar a agenda dos gerentes do projeto. Mais uma função que deveria ser incorporada nas planilhas de cronograma.
Alguns simplesmente incluíram a coluna "EVT" (Entrega com Viagem no Tempo) ou "EMT" (Entrega com Máquina no Tempo). Tudo era uma questão de planejamento.
Quando passou no processo seletivo, o RH e os gestores de área definiram que o melhor lugar para Gustavo era no departamento de atendimento, auxiliando na administração das contas de varejo.
Gustavo estava feliz. Era uma grande oportunidade. Trabalharia em uma das maiores agências do país. Uma empresa que tinha crescido muito nos últimos anos. A De Lorean duplicou o faturamento com a conquista dos primeiros clientes que buscavam a solução da máquina do tempo.
A viagem temporal, principalmente no período de implantação, era um típico serviço para estagiários. Era necessário vestir uma roupa especial protetora. O material era amianto porque, durante as viagens, havia o risco de combustão espontânea.
Funcionava assim. Havia uma estrutura de metal cilíndrica, de 2 m de altura por 1,60 m de diâmetro.
A cabine tinha um painel eletrônico, com um teclado numérico onde eram digitados a data-destino e o horário. Devido à perda de dois estagiários por erros de digitação, foi estipulado como medida de segurança que a data limite para viagem seria 10/6/2010, dia em que a ferramenta fora implantada na agência. Assim, quem viajasse teria um meio de retornar ao seu tempo de origem.
Em resumo, assim que entrava na cabine, o viajante do tempo era submetido a micro-vibrações muito rápidas. Vibrava tanto que acontecia uma desestabilização molecular, assim, o grupo de moléculas era deslocado no sentido contrário de rotação da Terra, até a data desejada. A combustão nas primeiras viagens vinha do atrito com o ar no início da micro-vibração.
Enfim. O problema estava resolvido. Gustavo já estava se acostumando com as viagens. No começo, sentia um pouco de náuseas. Nada demais. Quando chegava no "tempo de entrega", era necessário apenas dar a seu chefe o pendrive com as peças e depois, voltar à máquina do tempo.
Tudo muito simples.
As coisas começaram a mudar quando a De Lorean venceu a concorrência de sua primeira conta imobiliária: Pássaros de Goiânia Construção e Vendas. O cliente, atraído pela maravilha da viagem no tempo, optou sem pestanejar pela agência.
Com um gordo fee, o maior da casa, a conta tinha muitos poderes e privilégios sobre os funcionários da De Lorean. Por causa disso, todos foram muito imprudentes na utilização das EVT's.
Um e-mail marketing. Algo muito simples que teve consequências desastrosas para o planeta.
A peça, que informaria o mailing de um evento em conjunto com a Caixa Econômica, conteria uma lista de empreendimentos que estariam em promoção e ótimas condições de financiamento. Contando com a EVT, o prazo já estava apertado. O trabalho entrou na agência na quinta-feira. O evento seria no sábado.
Na própria quinta, depois das 19h, a dupla criativa finalizou o trabalho.
Primeira alteração na sexta: a medida de um dos residenciais, o Jardim de Lírios com Orvalho, estava errada. Não eram 82 metros quadrados, e sim 70. Gustavo voltou para quinta-feira às 19h para refazer a entrega.
Segunda alteração na segunda-feira seguinte: o cliente não gostou de uma das cores no layout. Não estava vendedor. Era necessário passar mais alegria e esperança em um evento que oferecia uma oportunidade singular de compra de imóveis. Lá foi Gustavo de novo para a quinta-feira às 19h com o pendrive de alteração.
Terceira mudança, na segunda ainda na parte da tarde: o fundo do logo parecia estar prata, quando, na verdade, deveria ser cinza. Isso ia contra as especificações do guide. "Vai lá, Gus!".
Quarta alteração: trocar a palavra "imóvel" para "apartamento" em todo o e-mail. O enjoo que Gustavo sentia nas primeiras viagens até voltou a atacar seu estômago.
Quase uma semana depois da primeira entrega do job, veio o último pedido de alteração. E foi realmente o último. Pena que não deu tempo de aprender com esse erro: alterações e viagens no tempo formavam uma destrutiva combinação.
Enquanto Gustavo viajava, no formato de um agrupamento de moléculas soltas a grande velocidade, acabou se encontrando com dois outros Gustavos viajantes de outras alterações.
Houve um choque molecular e atômico, similar ao experimento no Grande Colisor de Hádrons, que desestabilizou os nêutrons e gerou a maior explosão atômica já documentada. O cogumelo de fumaça poderia ser visto da Lua.
A explosão varreu a vida na superfície da Terra. Sobraram apenas baratas, alguns insetos e um Gustavo, que surgiu na cabine da máquina do tempo após a estabilização de tudo.
Ele encontrou um mundo pós-apocalíptico típico. Deserto, sem luz e, até onde se sabia, sem zumbis.
No fim, só lhe restava torcer que a Emma Watson também estivesse viva para ajudar a repovoar o mundo.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Justiceiro Cotidiano
Edu sempre sonhou ser um super-herói.
Desde os 15 anos até hoje, com 30, ele aleatoriamente testa se seus super poderes vão se manifestar.
Pode ser na hora do almoço, no ponto de ônibus, em uma caminhada qualquer ou até mesmo nos corredores do escritório. Ele olha para os lados, escolhe um alvo e estica seu braço direito em direção a ele. Às vezes com o punho fechado, outras com a mão aberta.
E fica lá alguns segundos esperando o disparo de algum raio incandescente, um kamehameha, hadouken ou mesmo uma descarga da eletricidade estática.
Em outras oportunidades, Edu tenta mover objetos de metal com seus supostos poderes magnéticos. Qualquer habilidade mutante serviria.
Quando está parado em um engarrafamento na Berrini com seu Fiesta, logo se imagina em um voo vertical, que rompe o teto do carro. E abandona todo aquele trânsito para rasgar o céu em alta velocidade até sua casa. Só volta para a realidade quando lembra que, se tivesse tais poderes, não precisaria comprar um carro e pagar em 72 prestações.
Essa imaginação fértil, paixão por quadrinhos e animes, não era muito proveitosa em sua adolescência. Hoje em dia, qualquer um que o analisasse diria que ele sofria bullying e que estaria muito perto de entrar em alguma escola armado de metralhadoras, com a cueca por fora da calça, atirando em todos e gritando: "por Crom, Ishtar e Mithra!".
Como a maioria dos nerds nascidos nos anos 80, Edu cresceu bem. Apesar de seus surtos de imaginação a la "Mundo de Bobby", ele amadureceu, tem um emprego, namorada e amigos.
Bom. De perto, ninguém é normal.
Edu encontrou um jeito de se tornar super herói. Mesmo com suas limitações.
Tornou-se o poderoso Justiceiro Cotidiano. Nada de sair por aí mascarado. Tampouco, pular de prédio em prédio — após os 25, estava bem menos ágil com sua barriga de cerveja. Não tinha equipamentos, cinto de utilidades, nem mesmo uma central de operações secreta.
Simplesmente fazia seus movimentos para resolver qualquer injustiça que encontrasse no caminho.
Uma vez, lá pelas 8h da manhã, em um de seus engarrafamentos diários da Berrini, um carro da autoescola local começou a atrapalhar todo o fluxo da faixa da direita. A menina, que estava em aula, deixou o carro morrer. Com as bochechas vermelhas, ligava o carro, mas quando ia sair em primeira marcha, deixava o Golzinho morrer de novo.
O instrutor respirava fundo, impaciente. O carro de trás começou a buzinar. Tudo isso só aumentou o aparente nervosismo da garota. Que falhou mais três vezes ao dar partida no veículo.
Edu não pensou duas vezes. Parou o Fiesta ao lado do carro da autoescola, engatou a primeira marcha e "assassinou" seu carro. Deixou morrer de propósito. Recebeu suas buzinadas, mas as ignorou. Olhou para a garota, sorriu e deu partida novamente. Ela retribuiu o sorriso, se acalmou e conseguiu sair pouco depois.
Esse dia fora movimentado. Alguns metros à frente, um passageiro do ônibus jogou um copo vazio de água mineral pela janela. O copo tinha peso para ser arremessado porque também continha lenços de papel amassados e cheios de ranho, uns oito ou nove, todos juntinhos no recipiente.
Os reflexos de Edu para a nova vida de herói estavam aguçados. Nem sei como ele conseguiu ser tão rápido. O fabuloso Justiceiro Cotidiano subiu a guia rebaixada, parou o Fiesta na calçada do posto de gasolina, ligou o pisca-alerta, desceu do carro, pegou o copo da calçada e o atirou de volta no ônibus com incrível precisão.
Gritou:
— PORCO! — e voltou correndo para o Fiesta.
Mesmo com o trânsito lento, foi uma grande façanha. Edu acertou a bochecha direita de seu alvo e retomou o caminho para o escritório, sem atrasos.
Durante o expediente, tudo correu normalmente. Mesmo para Edu. Ele terminou todas suas atividades no horário. Era sexta e tinha um happy hour marcado. Deixaria o Fiesta no estacionamento da empresa e iria de trem até a Vila Olímpia. Ia só tomar umas cervejas e esperar a bebedeira passar antes de pegar novamente seu carro.
As estações de trem, na hora do rush, têm várias potenciais injustiças. O Justiceiro Cotidiano não poderia deixar nenhuma passar batida.
Depois de passar pelos bloqueios, Edu viu o elevador para deficientes com uma enorme fila. No meio dela, um idoso aguardava sua vez em meio a várias outras pessoas aparentemente preguiçosas.
Edu, entrou na fila, pegou no braço do velhinho e o conduziu até a porta do elevador. Após parar com o homem lá, virou para as outras pessoas e falou:
— Gente, preguiça não é necessidade especial. Vamos todos fazer exercício, descer as escadas. Abaixo o sedentarismo! Vamos lá! Ilari lari ê!
Acho que carisma era um dos super poderes de Edu. As pessoas da fila imediatamente saíram da frente do elevador e se dirigiram pelo caminho comum até a plataforma. Uma parte sorrindo, outra parte, constrangida. Mas foram.
Empolgado, o Justiceiro Cotidiano continuou com suas imediatas missões. Na escada rolante, tocou no ombro de dois usuários que estavam parados do lado esquerdo.
— Senhor, fique na direita e deixe os apressados descerem por aqui.
— Moça, com licença! Fica na direita? Obrigado!
E continuou feliz e satisfeito com sua carreira de super-herói. Começou a viajar: se imaginou comprando uma passagem para o RS só para dar uma surra na mulher que incentivava o filho a bater no filhote de poodle. Ele levaria um Mastim Napolitano apenas para fazer terror psicológico, enquanto daria tapas de costas de mão na cara daquela escrota. Seria um upgrade na carreira de super-herói.
O devaneio não durou muito tempo. Logo, viu um homem segurando a porta do vagão para que seus amigos, apressados e atrasados na escada, pudessem entrar no mesmo trem. O rapaz estava com a bunda empinada para fora. Provavelmente, chegou correndo e conseguiu segurar a porta com a mão direita.
Edu, que também corria para entrar no mesmo trem, achou injusto com os passageiros que estavam lá dentro. Então, chegou no cara que estava na porta, agarrou-o pela camiseta e o puxou de volta para a estação pelo cinto, em um tranco só.
Aplausos de dentro do trem.
Edu sorriu, deixou o trem partir e acenou para os usuários. Mas a felicidade de mais uma missão cumprida durou pouco.
O cara que segurava a porta ficou emputecido com a cena e deu um cruzado de direita no queixo do Justiceiro Cotidiano.
Foi a última missão do nosso herói. Hoje, ele se contenta em brincar com portas automáticas de shopping. Edu finge que está usando a telecinese para abri-las e fechá-las.
Desde os 15 anos até hoje, com 30, ele aleatoriamente testa se seus super poderes vão se manifestar.
Pode ser na hora do almoço, no ponto de ônibus, em uma caminhada qualquer ou até mesmo nos corredores do escritório. Ele olha para os lados, escolhe um alvo e estica seu braço direito em direção a ele. Às vezes com o punho fechado, outras com a mão aberta.
E fica lá alguns segundos esperando o disparo de algum raio incandescente, um kamehameha, hadouken ou mesmo uma descarga da eletricidade estática.
Em outras oportunidades, Edu tenta mover objetos de metal com seus supostos poderes magnéticos. Qualquer habilidade mutante serviria.
Quando está parado em um engarrafamento na Berrini com seu Fiesta, logo se imagina em um voo vertical, que rompe o teto do carro. E abandona todo aquele trânsito para rasgar o céu em alta velocidade até sua casa. Só volta para a realidade quando lembra que, se tivesse tais poderes, não precisaria comprar um carro e pagar em 72 prestações.
Essa imaginação fértil, paixão por quadrinhos e animes, não era muito proveitosa em sua adolescência. Hoje em dia, qualquer um que o analisasse diria que ele sofria bullying e que estaria muito perto de entrar em alguma escola armado de metralhadoras, com a cueca por fora da calça, atirando em todos e gritando: "por Crom, Ishtar e Mithra!".
Como a maioria dos nerds nascidos nos anos 80, Edu cresceu bem. Apesar de seus surtos de imaginação a la "Mundo de Bobby", ele amadureceu, tem um emprego, namorada e amigos.
Bom. De perto, ninguém é normal.
Edu encontrou um jeito de se tornar super herói. Mesmo com suas limitações.
Tornou-se o poderoso Justiceiro Cotidiano. Nada de sair por aí mascarado. Tampouco, pular de prédio em prédio — após os 25, estava bem menos ágil com sua barriga de cerveja. Não tinha equipamentos, cinto de utilidades, nem mesmo uma central de operações secreta.
Simplesmente fazia seus movimentos para resolver qualquer injustiça que encontrasse no caminho.
Uma vez, lá pelas 8h da manhã, em um de seus engarrafamentos diários da Berrini, um carro da autoescola local começou a atrapalhar todo o fluxo da faixa da direita. A menina, que estava em aula, deixou o carro morrer. Com as bochechas vermelhas, ligava o carro, mas quando ia sair em primeira marcha, deixava o Golzinho morrer de novo.
O instrutor respirava fundo, impaciente. O carro de trás começou a buzinar. Tudo isso só aumentou o aparente nervosismo da garota. Que falhou mais três vezes ao dar partida no veículo.
Edu não pensou duas vezes. Parou o Fiesta ao lado do carro da autoescola, engatou a primeira marcha e "assassinou" seu carro. Deixou morrer de propósito. Recebeu suas buzinadas, mas as ignorou. Olhou para a garota, sorriu e deu partida novamente. Ela retribuiu o sorriso, se acalmou e conseguiu sair pouco depois.
Esse dia fora movimentado. Alguns metros à frente, um passageiro do ônibus jogou um copo vazio de água mineral pela janela. O copo tinha peso para ser arremessado porque também continha lenços de papel amassados e cheios de ranho, uns oito ou nove, todos juntinhos no recipiente.
Os reflexos de Edu para a nova vida de herói estavam aguçados. Nem sei como ele conseguiu ser tão rápido. O fabuloso Justiceiro Cotidiano subiu a guia rebaixada, parou o Fiesta na calçada do posto de gasolina, ligou o pisca-alerta, desceu do carro, pegou o copo da calçada e o atirou de volta no ônibus com incrível precisão.
Gritou:
— PORCO! — e voltou correndo para o Fiesta.
Mesmo com o trânsito lento, foi uma grande façanha. Edu acertou a bochecha direita de seu alvo e retomou o caminho para o escritório, sem atrasos.
Durante o expediente, tudo correu normalmente. Mesmo para Edu. Ele terminou todas suas atividades no horário. Era sexta e tinha um happy hour marcado. Deixaria o Fiesta no estacionamento da empresa e iria de trem até a Vila Olímpia. Ia só tomar umas cervejas e esperar a bebedeira passar antes de pegar novamente seu carro.
As estações de trem, na hora do rush, têm várias potenciais injustiças. O Justiceiro Cotidiano não poderia deixar nenhuma passar batida.
Depois de passar pelos bloqueios, Edu viu o elevador para deficientes com uma enorme fila. No meio dela, um idoso aguardava sua vez em meio a várias outras pessoas aparentemente preguiçosas.
Edu, entrou na fila, pegou no braço do velhinho e o conduziu até a porta do elevador. Após parar com o homem lá, virou para as outras pessoas e falou:
— Gente, preguiça não é necessidade especial. Vamos todos fazer exercício, descer as escadas. Abaixo o sedentarismo! Vamos lá! Ilari lari ê!
Acho que carisma era um dos super poderes de Edu. As pessoas da fila imediatamente saíram da frente do elevador e se dirigiram pelo caminho comum até a plataforma. Uma parte sorrindo, outra parte, constrangida. Mas foram.
Empolgado, o Justiceiro Cotidiano continuou com suas imediatas missões. Na escada rolante, tocou no ombro de dois usuários que estavam parados do lado esquerdo.
— Senhor, fique na direita e deixe os apressados descerem por aqui.
— Moça, com licença! Fica na direita? Obrigado!
E continuou feliz e satisfeito com sua carreira de super-herói. Começou a viajar: se imaginou comprando uma passagem para o RS só para dar uma surra na mulher que incentivava o filho a bater no filhote de poodle. Ele levaria um Mastim Napolitano apenas para fazer terror psicológico, enquanto daria tapas de costas de mão na cara daquela escrota. Seria um upgrade na carreira de super-herói.
O devaneio não durou muito tempo. Logo, viu um homem segurando a porta do vagão para que seus amigos, apressados e atrasados na escada, pudessem entrar no mesmo trem. O rapaz estava com a bunda empinada para fora. Provavelmente, chegou correndo e conseguiu segurar a porta com a mão direita.
Edu, que também corria para entrar no mesmo trem, achou injusto com os passageiros que estavam lá dentro. Então, chegou no cara que estava na porta, agarrou-o pela camiseta e o puxou de volta para a estação pelo cinto, em um tranco só.
Aplausos de dentro do trem.
Edu sorriu, deixou o trem partir e acenou para os usuários. Mas a felicidade de mais uma missão cumprida durou pouco.
O cara que segurava a porta ficou emputecido com a cena e deu um cruzado de direita no queixo do Justiceiro Cotidiano.
Foi a última missão do nosso herói. Hoje, ele se contenta em brincar com portas automáticas de shopping. Edu finge que está usando a telecinese para abri-las e fechá-las.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Pressão
Pressa e pressão. Uma combinação que pode gerar consequências, digamos, chamativas.
O domingo tinha sido divertido. A namorada de um dos amigos de Ricardo fez uma festa de aniversário. Todos os oito amigos se reuniram em um boteco que servia comida mineira.
Cerveja, torresmo e porções de feijão tropeiro. Os amigos se esbaldaram e elogiaram o local.
Como o evento seria no domingo, a turma optou por marcar em um horário pouco mais cedo que o tradicional happy hour de sexta. Encontraram-se no bar logo após a rodada do futebol, perto das 18h.
A conversa sempre rende com esse grupo e a coisa foi terminar tarde do mesmo jeito. Lá pela 1h, Ricardo saiu do bar e foi para casa. Chegou bêbado em seu apartamento às 2h e caiu direto na cama. Chegou a quicar no colchão e cair no vão entre a cama e a parede. Derrubou o abajur, mas sem quebrar. Tudo sob controle. Ninguém tinha acordado.
Ricardo tinha que levantar cedo na segunda-feira. Dormir bêbado costuma ser bem relaxante, mas no dia seguinte, parece que você foi atropelado por um Boeing. É ainda mais torturante se você precisa levantar mais cedo que o usual, ao som do alarme escandaloso do celular.
Ressaca. Sem tempo para banho. Ricardo foi enrolando com o botão soneca. Continuou assim de cinco em cinco minutos até que não teve jeito. A última olhada que deu no display do smartphone serviu para dar uma carga de adrenalina que o ajudou a despertar de vez:
— Puta merda! — Gritou e respirou fundo. Estava atrasado.
Vestiu as primeiras roupas que viu disponíveis e saiu. Sem tomar café. Sem ir ao banheiro. Sem dar tchau para ninguém.
E se dirigiu ao ponto de ônibus. Fazia frio. No meio do caminho, sentiu uma pequenina pontada na barriga.
— Cacete... Não acredito que vou precisar cagar agora... — pensou, mas continuou seu caminho.
ROOOOOONC!
Sua barriga roncou. Uma grande e sonora cólica intestinal. Ricardo ficou até preocupado se as outras pessoas do ponto de ônibus ouviram. Havia muito barulho de carros e vendedores ambulantes, mas só para garantir, ele disfarçou. Passou a mão na altura do estômago e comentou com uma pessoa ao seu lado: "Nossa! Que fome...".
Completamente desinteressada no assunto, a pessoa só virou o rosto para Ricardo, deu um sorriso amarelo e voltou a olhar para a rua.
Ainda dava para aguentar a dor. Até que estava levinha. Era só se distrair com outras coisas. "Olha só! Aquele povo do supermercado ainda não se ligou que agora, a rua é mão única. Entrou no sentido proibido. Ah! Agora volta pro sentido certo, tonto! Hehehe! Mais um! Outro. Nossa... Essa ficou até vermelha de sem-graça."
Isso o distraiu por mais algum tempo: "não, cachorrinho! não atravessa agora... Isso. Volta para a calçada. Ufa... Agora fica aí... Vixe. Olha o tamanho daquela poça. Mas de onde ela veio? Não choveu. É só uma poça no meio da calçada seca. A rua está seca."
Enfim, o ônibus chegou. Cheio. Ricardo já devia ter previsto. Quando demora assim, não é um bom sinal. Normalmente, quando o busão vem cheio, ele deixa passar e pega outro. Mas estava atrasado demais e resolveu encarar a viagem.
Subiu, seguido de boa parte das pessoas do ponto. Chegou a poucos centímetros da catraca. Não dava para ir mais. Tudo bem, estava tão lotado que não conseguiria tirar o bilhete-único do bolso.
O corredor do ônibus já estava parecendo o útero da namorada do Shaquille O' Neal carregando os octogêmeos dele. E as pessoas continuavam a entrar. Alguns passageiros estavam grudados na porta central do veículo. Testas e bochechas oleosas eram esfregadas no vidro. As impressões faciais se misturavam formando um grande rosto disforme com vários olhos e bocas.
Será que tentavam bater algum recorde? O ônibus continuava parado no ponto e alguns atrasados ainda faziam seus esforços para entrar, mas a essa altura, seria impossível.
O ônibus partiu com as portas abertas. Não havia problemas com freadas, buracos ou aceleradas bruscas porque simplesmente não existia espaço para os passageiros caírem. Todos apoiados uns nos outros da maneira mais segura que poderia existir.
A agonia de Ricardo continuava. Os minutos pareciam horas enquanto sentia aquela dor de barriga que latejava. Ele começou a suar. Nem é possível dizer que suava frio porque o ônibus estava abafado demais. Todas as janelas fechadas.
Ele engolia seco. Sua bunda estava tão contraída que os músculos poderiam entrar em fadiga a qualquer momento. Ricardo olhava para o teto do ônibus e lia a mensagem da Vivo diversas vezes em voz baixa:
— Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa. Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa. Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa... Eu... Preciso... Peidar...
Além da bunda, o rosto de Ricardo também se contraiu. Fechou os olhos com tanta força que começou a ver pequenas estrelas. Tentou se curvar, mas seu queixo bateu no ombro de uma senhora que estava em sua frente.
— D... Desculpe... — falou.
Com seus 1,87 m de altura, Ricardo apoiava sua mão direita no teto do ônibus. Não tinha muita escolha pois não dava para abaixar o braço devido à lotação. O máximo que conseguiu foi dobrar o cotovelo e colocar as costas da mão na testa.
Começou a sentir calafrios. Não dava mais para aguentar. Nos pensamentos, já cogitava a ideia:
— Se eu peidar agora, ninguém vai sentir. Não vai dar para desconfiar de ninguém. Tem muita gente. O problema é que a pessoa atrás de mim vai sentir um sopro de calor concentrado... O que eu faço? O que eu faço? Não dá mais para aguentar!
Virou o pescoço para ver quem estava perto de suas costas. Percebeu que a pessoa estava de mochila. O calor do peido se dissiparia antes de entrar em qualquer contato com ela.
— É isso. Não dá mais para aguentar. Vou peidar. — pensou e decidiu.
Respirou fundo e liberou a pressão.
Pena que a sensação de alívio foi quase inexistente de tão rápida.
De tão lotado, a pequena pressão gerada pelo peido de Ricardo foi suficiente para explodir o ônibus.
A carroceria se rompeu. Os passageiros foram arremessados em diferentes direções da Faria Lima. Uma senhora ficou pendurada em um galho de árvore. O cobrador e o motoristas ficaram presos na carcaça do ônibus por causa do cinto de segurança.
Na imprensa, o assunto repercutiu durante uma semana. O que teria causado tamanha explosão?
Especialistas criaram uma teoria que passou em todos os jornais da TV, com simulações e ilustrações 3D. Em geral, as narrações dos repórteres diziam:
— Em temperaturas mais baixas, boa parcela da população utiliza roupas de lã. Por uma infeliz coincidência, a grande maioria dos passageiros estava com blusas desse material. A lotação excedida do ônibus teria feito com que as pessoas ficassem mais próximas e, por consequência, com que se tocassem e as blusas criassem atrito. O atrito gerou eletricidade estática. A eletricidade estática reagiu com a polaridade da carroceria, do tanque do ônibus e provavelmente com a tubulação de gás da rua. Tudo isso gerou uma faísca que provocou a explosão.
Essa foi a teoria aceita.
Ricardo sabia da verdade, mas ficou quieto. Ele sobreviveu à explosão por estar no epicentro. E a vida continua.
O domingo tinha sido divertido. A namorada de um dos amigos de Ricardo fez uma festa de aniversário. Todos os oito amigos se reuniram em um boteco que servia comida mineira.
Cerveja, torresmo e porções de feijão tropeiro. Os amigos se esbaldaram e elogiaram o local.
Como o evento seria no domingo, a turma optou por marcar em um horário pouco mais cedo que o tradicional happy hour de sexta. Encontraram-se no bar logo após a rodada do futebol, perto das 18h.
A conversa sempre rende com esse grupo e a coisa foi terminar tarde do mesmo jeito. Lá pela 1h, Ricardo saiu do bar e foi para casa. Chegou bêbado em seu apartamento às 2h e caiu direto na cama. Chegou a quicar no colchão e cair no vão entre a cama e a parede. Derrubou o abajur, mas sem quebrar. Tudo sob controle. Ninguém tinha acordado.
Ricardo tinha que levantar cedo na segunda-feira. Dormir bêbado costuma ser bem relaxante, mas no dia seguinte, parece que você foi atropelado por um Boeing. É ainda mais torturante se você precisa levantar mais cedo que o usual, ao som do alarme escandaloso do celular.
Ressaca. Sem tempo para banho. Ricardo foi enrolando com o botão soneca. Continuou assim de cinco em cinco minutos até que não teve jeito. A última olhada que deu no display do smartphone serviu para dar uma carga de adrenalina que o ajudou a despertar de vez:
— Puta merda! — Gritou e respirou fundo. Estava atrasado.
Vestiu as primeiras roupas que viu disponíveis e saiu. Sem tomar café. Sem ir ao banheiro. Sem dar tchau para ninguém.
E se dirigiu ao ponto de ônibus. Fazia frio. No meio do caminho, sentiu uma pequenina pontada na barriga.
— Cacete... Não acredito que vou precisar cagar agora... — pensou, mas continuou seu caminho.
ROOOOOONC!
Sua barriga roncou. Uma grande e sonora cólica intestinal. Ricardo ficou até preocupado se as outras pessoas do ponto de ônibus ouviram. Havia muito barulho de carros e vendedores ambulantes, mas só para garantir, ele disfarçou. Passou a mão na altura do estômago e comentou com uma pessoa ao seu lado: "Nossa! Que fome...".
Completamente desinteressada no assunto, a pessoa só virou o rosto para Ricardo, deu um sorriso amarelo e voltou a olhar para a rua.
Ainda dava para aguentar a dor. Até que estava levinha. Era só se distrair com outras coisas. "Olha só! Aquele povo do supermercado ainda não se ligou que agora, a rua é mão única. Entrou no sentido proibido. Ah! Agora volta pro sentido certo, tonto! Hehehe! Mais um! Outro. Nossa... Essa ficou até vermelha de sem-graça."
Isso o distraiu por mais algum tempo: "não, cachorrinho! não atravessa agora... Isso. Volta para a calçada. Ufa... Agora fica aí... Vixe. Olha o tamanho daquela poça. Mas de onde ela veio? Não choveu. É só uma poça no meio da calçada seca. A rua está seca."
Enfim, o ônibus chegou. Cheio. Ricardo já devia ter previsto. Quando demora assim, não é um bom sinal. Normalmente, quando o busão vem cheio, ele deixa passar e pega outro. Mas estava atrasado demais e resolveu encarar a viagem.
Subiu, seguido de boa parte das pessoas do ponto. Chegou a poucos centímetros da catraca. Não dava para ir mais. Tudo bem, estava tão lotado que não conseguiria tirar o bilhete-único do bolso.
O corredor do ônibus já estava parecendo o útero da namorada do Shaquille O' Neal carregando os octogêmeos dele. E as pessoas continuavam a entrar. Alguns passageiros estavam grudados na porta central do veículo. Testas e bochechas oleosas eram esfregadas no vidro. As impressões faciais se misturavam formando um grande rosto disforme com vários olhos e bocas.
Será que tentavam bater algum recorde? O ônibus continuava parado no ponto e alguns atrasados ainda faziam seus esforços para entrar, mas a essa altura, seria impossível.
O ônibus partiu com as portas abertas. Não havia problemas com freadas, buracos ou aceleradas bruscas porque simplesmente não existia espaço para os passageiros caírem. Todos apoiados uns nos outros da maneira mais segura que poderia existir.
A agonia de Ricardo continuava. Os minutos pareciam horas enquanto sentia aquela dor de barriga que latejava. Ele começou a suar. Nem é possível dizer que suava frio porque o ônibus estava abafado demais. Todas as janelas fechadas.
Ele engolia seco. Sua bunda estava tão contraída que os músculos poderiam entrar em fadiga a qualquer momento. Ricardo olhava para o teto do ônibus e lia a mensagem da Vivo diversas vezes em voz baixa:
— Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa. Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa. Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa... Eu... Preciso... Peidar...
Além da bunda, o rosto de Ricardo também se contraiu. Fechou os olhos com tanta força que começou a ver pequenas estrelas. Tentou se curvar, mas seu queixo bateu no ombro de uma senhora que estava em sua frente.
— D... Desculpe... — falou.
Com seus 1,87 m de altura, Ricardo apoiava sua mão direita no teto do ônibus. Não tinha muita escolha pois não dava para abaixar o braço devido à lotação. O máximo que conseguiu foi dobrar o cotovelo e colocar as costas da mão na testa.
Começou a sentir calafrios. Não dava mais para aguentar. Nos pensamentos, já cogitava a ideia:
— Se eu peidar agora, ninguém vai sentir. Não vai dar para desconfiar de ninguém. Tem muita gente. O problema é que a pessoa atrás de mim vai sentir um sopro de calor concentrado... O que eu faço? O que eu faço? Não dá mais para aguentar!
Virou o pescoço para ver quem estava perto de suas costas. Percebeu que a pessoa estava de mochila. O calor do peido se dissiparia antes de entrar em qualquer contato com ela.
— É isso. Não dá mais para aguentar. Vou peidar. — pensou e decidiu.
Respirou fundo e liberou a pressão.
Pena que a sensação de alívio foi quase inexistente de tão rápida.
De tão lotado, a pequena pressão gerada pelo peido de Ricardo foi suficiente para explodir o ônibus.
A carroceria se rompeu. Os passageiros foram arremessados em diferentes direções da Faria Lima. Uma senhora ficou pendurada em um galho de árvore. O cobrador e o motoristas ficaram presos na carcaça do ônibus por causa do cinto de segurança.
Na imprensa, o assunto repercutiu durante uma semana. O que teria causado tamanha explosão?
Especialistas criaram uma teoria que passou em todos os jornais da TV, com simulações e ilustrações 3D. Em geral, as narrações dos repórteres diziam:
— Em temperaturas mais baixas, boa parcela da população utiliza roupas de lã. Por uma infeliz coincidência, a grande maioria dos passageiros estava com blusas desse material. A lotação excedida do ônibus teria feito com que as pessoas ficassem mais próximas e, por consequência, com que se tocassem e as blusas criassem atrito. O atrito gerou eletricidade estática. A eletricidade estática reagiu com a polaridade da carroceria, do tanque do ônibus e provavelmente com a tubulação de gás da rua. Tudo isso gerou uma faísca que provocou a explosão.
Essa foi a teoria aceita.
Ricardo sabia da verdade, mas ficou quieto. Ele sobreviveu à explosão por estar no epicentro. E a vida continua.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Lei da atração?
Pouco depois do almoço, lá para umas 14h, Haroldo caminhava calmamente pela rua até a empresa onde trabalhava. Ele e seu colega conversavam. Era quarta-feira, dia de feijoada. Ambos estavam se sentindo meio cheios. Já previam que não iam trabalhar direito na parte da tarde.
Durante o caminho de volta, havia uma lotérica. Para dar uma enrolada maior até o fim da hora do almoço, resolveram fazer um jogo da Mega-Sena. Maior prêmio da história: 300 milhões de reais.
Marcaram seus números, escreveram o nome e CPF no comprovante e voltaram para o escritório.
"O que você faria se ganhasse na loteria" é o melhor assunto para combater silêncios constrangedores em situações sociais. Por exemplo em bares, restaurantes e/ou festas em que as pessoas ainda não estão bêbadas o suficiente para o assunto fluir melhor. É um tema coringa, assim como "sexo com celebridades", "desventuras com telemarketing" e "histórias de bêbado". Todo mundo já pensou ou viveu algo nesse contexto que vale a pena ser contado.
Haroldo e seu colega sentaram em suas mesas, com planos e sonhos na cabeça. — Imagina ganhar sozinho? — pensavam.
Alguns visualizam o próprio pedido de demissão. Cinematográfico. Se não vai com a cara do chefe, fica mais espalhafatoso ainda. Ir na sala dele, gritar a plenos pulmões "CHUUUUUPA!", tirar a calça esfregar a bunda na mesa de vidro "NHEC! NHEC! NHEC!", deixar um montinho de cocô embaixo do mouse da pessoa. As possibilidades são infinitas.
Não era o caso de Haroldo. Em seus planos, apenas a vontade de gastar tudo e morrer feliz após fazer as atividades que gostaria. Não queria ser rico, aplicar o dinheiro, tampouco ter uma aposentadoria. Enquanto alguns planejam separar um percentual do prêmio para "torrar", Haroldo simplesmente "torraria" tudo. Um pouco em chocolates, outro tanto em viagens, experimentaria todos os tipos de comida e cervejas.
Mas a vida continua. Ambos dobraram o bilhete e o deixaram dentro de suas carteiras.
É impossível determinar a razão, mas na vida de Haroldo, nada que ele esperava acontecia. Às vezes, ocorria até o contrário. Ele até dizia que tinha poderes climáticos. Quando separava um casaco, fazia calor. Quando lavava o carro, chovia.
Em qualquer outra situação, esse fenômeno também aparecia. Sempre que ficava preocupado com o trânsito e atrasos, o tráfego fluía como um bloco de manteiga num toboágua. E quando ficava tranquilo em relação a algum relatório que fazia no trabalho, dava merda.
Haroldo começou a acreditar nesses poderes de contrariar probabilidades quando foi conferir os números da Mega-Sena. E não é que o filho da puta tinha ganhado? Sozinho.
A verdade é que ninguém sabe como reagiria à notícia. Tampouco na hora em que o dinheiro estivesse na conta. Após algum tempo de choque, finalmente Haroldo resolveu agir.
— TORRAR! — berrou ao ver o resultado do sorteio.
E foi embora. Nem se deu ao trabalho de pedir demissão no trabalho. Simplesmente sumiu.
Retirou o prêmio, mas não sabia onde guardar o dinheiro. Por isso, abriu uma poupança e fez o grande depósito. A gerente do banco quase teve orgasmos múltiplos na mesa.
Depois, foi até a Kopenhagen e comprou um ovo de páscoa de 10 kg. O da vitrine mesmo. Sempre teve curiosidade para comer aquilo. Em casa, devorou aproximadamente 400 g, embalou e guardou no armário. Chega de chocolate.
E agora? O que fazer? Passou a ficar ansioso.
Fez uma rápida pesquisa no Google, descobriu um pet shop onde poderia comprar um beija-flor, separou uns cinco mil reais em dinheiro e foi até o metrô.
Após passar pelos bloqueios, dirigiu-se até porta de um dos vagões e deu notas de 100 reais para que os passageiros não entrassem nesse que tinha escolhido. Os usuários, sem entender muito, foram para outras partes do trem.
Haroldo entrou e fez mais uma manutenção para que ninguém adentrasse o vagão. Assim que as portas se fecharam e o trem começou a andar, Haroldo soltou o pássaro. Finalmente poderia tirar a dúvida se um beija-flor, que consegue se manter imóvel no ar durante o voo, sofreria com a inércia do trem. Era algo que se perguntava todos os dias.
Contrariando suas expectativas, o pássaro voou um pouco e logo pousou em um banco. É. Dinheiro não serviria para persuadir a ave. Logo ao parar na próxima estação, desistiu da experiência e levou o beija-flor consigo para casa.
— Você vai se chamar Agenor! — disse para o novo amigo.
Haroldo dedicou o resto do dia para satisfazer mais de suas curiosidades. Depois de montar o cantinho do Agenor em casa, foi até a Avenida 23 de Maio para realizar um sonho de infância: descer as quatro faixas do Monumento das Ondas de Tomie Ohtake de bicicleta.
Foi mais sem graça do que imaginava. Nem precisou subornar algum guarda. Tinha até reservado dinheiro para isso.
Dias depois, contratou uma agência de eventos. Resolveu organizar um festival: Rock in Harold. Alugou o Vila Country e chamou o Gustavo Lima, Restart, Sandy e Luan Santana.. Acertou os cachês e cobrou ingressos do público.
A casa lotou. Durante o show do Gustavo Lima, Haroldo ficou no camarote com uma potente caneta laser. Entre uma música e outra, apontava com o laser no rosto e olhos do cantor, que se atrapalhou, mas achou que fazia parte dos holofotes.
Na apresentação do Restart, Haroldo usou um mini-canhão de ar para disparar fragmentos de papel higiênico molhado nos adolescentes. Em poucas músicas do set, o baixo do Pe Lanza ficou cheio de bolinhas grudadas.
Quando a Sandy começou a cantar, Haroldo foi até a mesa de som e experimentou uma série de efeitos aleatórios na voz dela. Ecos, voz de robô, sintetizadores de pato. Depois, cortou o volume do microfone e substituiu o áudio com sua imitação do Sílvio Santos, interpretando as mesmas músicas que a banda apresentava.
— Eu faço o que eu quero nessa porra! — gritou.
Com tanto desrespeito, Luan Santana pensou em dispensar o cachê. Mas suas fãs gritavam tanto, que voltou atrás. No momento em que subiu no palco e abriu a boca para cumprimentar o público, Haroldo desligou a chave geral do Vila Country e derreteu os controles com um maçarico, aos risos.
Confusão. Sinceramente, não sei como Haroldo escapou dessa história toda. A polêmica saiu na Folha, Estadão, UOL, Terra e etc. O burburinho durou um tempo e, como várias outras notícias, foi esquecido.
Haroldo percebeu que estava cometendo loucuras cada vez maiores com o prêmio. E o dinheiro ainda estava rendendo na poupança, o que aumentou sua fortuna.
Foi então que teve uma ideia brilhante. Virou para Agenor e falou:
— Vou gastar tudo de uma vez!
— Piu? — respondeu Agenor.
Haroldo resgatou todo o dinheiro de sua poupança e sacou seu novo e astronômico limite de cheque especial do banco.
Comprou uma rede de televisão, cinco Ferraris, dois Porsches, um Monster Truck e o Canindé.
Cumprindo um cronograma elaborado, imprimiu, foi ao centro de São Paulo e distribuiu 20 mil ingressos das arquibancadas.
Gastou todo o dinheiro em um excêntrico programa de seu novo canal.
No primeiro dia, a Harold TV transmitiu 12 horas ininterruptas de um Monster Truck destruindo carros de luxo no gramado do estádio. O próprio Haroldo conduzia o gigantesco veículo com Agenor em seu ombro.
Quando destruiu a última 612 Scaglietti, Haroldo suspirou aliviado.
— Finalmente, estou livre do dinheiro, Agenor!
— Piu?
E foi um grande engano. A rede e o programa bateram recordes mundiais de audiência e acabaram comprados pela ABC.
Hoje, com a antiga fortuna triplicada, Haroldo e Agenor vivem em uma ilha particular no sul do Pacífico.
Durante o caminho de volta, havia uma lotérica. Para dar uma enrolada maior até o fim da hora do almoço, resolveram fazer um jogo da Mega-Sena. Maior prêmio da história: 300 milhões de reais.
Marcaram seus números, escreveram o nome e CPF no comprovante e voltaram para o escritório.
"O que você faria se ganhasse na loteria" é o melhor assunto para combater silêncios constrangedores em situações sociais. Por exemplo em bares, restaurantes e/ou festas em que as pessoas ainda não estão bêbadas o suficiente para o assunto fluir melhor. É um tema coringa, assim como "sexo com celebridades", "desventuras com telemarketing" e "histórias de bêbado". Todo mundo já pensou ou viveu algo nesse contexto que vale a pena ser contado.
Haroldo e seu colega sentaram em suas mesas, com planos e sonhos na cabeça. — Imagina ganhar sozinho? — pensavam.
Alguns visualizam o próprio pedido de demissão. Cinematográfico. Se não vai com a cara do chefe, fica mais espalhafatoso ainda. Ir na sala dele, gritar a plenos pulmões "CHUUUUUPA!", tirar a calça esfregar a bunda na mesa de vidro "NHEC! NHEC! NHEC!", deixar um montinho de cocô embaixo do mouse da pessoa. As possibilidades são infinitas.
Não era o caso de Haroldo. Em seus planos, apenas a vontade de gastar tudo e morrer feliz após fazer as atividades que gostaria. Não queria ser rico, aplicar o dinheiro, tampouco ter uma aposentadoria. Enquanto alguns planejam separar um percentual do prêmio para "torrar", Haroldo simplesmente "torraria" tudo. Um pouco em chocolates, outro tanto em viagens, experimentaria todos os tipos de comida e cervejas.
Mas a vida continua. Ambos dobraram o bilhete e o deixaram dentro de suas carteiras.
É impossível determinar a razão, mas na vida de Haroldo, nada que ele esperava acontecia. Às vezes, ocorria até o contrário. Ele até dizia que tinha poderes climáticos. Quando separava um casaco, fazia calor. Quando lavava o carro, chovia.
Em qualquer outra situação, esse fenômeno também aparecia. Sempre que ficava preocupado com o trânsito e atrasos, o tráfego fluía como um bloco de manteiga num toboágua. E quando ficava tranquilo em relação a algum relatório que fazia no trabalho, dava merda.
Haroldo começou a acreditar nesses poderes de contrariar probabilidades quando foi conferir os números da Mega-Sena. E não é que o filho da puta tinha ganhado? Sozinho.
A verdade é que ninguém sabe como reagiria à notícia. Tampouco na hora em que o dinheiro estivesse na conta. Após algum tempo de choque, finalmente Haroldo resolveu agir.
— TORRAR! — berrou ao ver o resultado do sorteio.
E foi embora. Nem se deu ao trabalho de pedir demissão no trabalho. Simplesmente sumiu.
Retirou o prêmio, mas não sabia onde guardar o dinheiro. Por isso, abriu uma poupança e fez o grande depósito. A gerente do banco quase teve orgasmos múltiplos na mesa.
Depois, foi até a Kopenhagen e comprou um ovo de páscoa de 10 kg. O da vitrine mesmo. Sempre teve curiosidade para comer aquilo. Em casa, devorou aproximadamente 400 g, embalou e guardou no armário. Chega de chocolate.
E agora? O que fazer? Passou a ficar ansioso.
Fez uma rápida pesquisa no Google, descobriu um pet shop onde poderia comprar um beija-flor, separou uns cinco mil reais em dinheiro e foi até o metrô.
Após passar pelos bloqueios, dirigiu-se até porta de um dos vagões e deu notas de 100 reais para que os passageiros não entrassem nesse que tinha escolhido. Os usuários, sem entender muito, foram para outras partes do trem.
Haroldo entrou e fez mais uma manutenção para que ninguém adentrasse o vagão. Assim que as portas se fecharam e o trem começou a andar, Haroldo soltou o pássaro. Finalmente poderia tirar a dúvida se um beija-flor, que consegue se manter imóvel no ar durante o voo, sofreria com a inércia do trem. Era algo que se perguntava todos os dias.
Contrariando suas expectativas, o pássaro voou um pouco e logo pousou em um banco. É. Dinheiro não serviria para persuadir a ave. Logo ao parar na próxima estação, desistiu da experiência e levou o beija-flor consigo para casa.
— Você vai se chamar Agenor! — disse para o novo amigo.
Haroldo dedicou o resto do dia para satisfazer mais de suas curiosidades. Depois de montar o cantinho do Agenor em casa, foi até a Avenida 23 de Maio para realizar um sonho de infância: descer as quatro faixas do Monumento das Ondas de Tomie Ohtake de bicicleta.
Foi mais sem graça do que imaginava. Nem precisou subornar algum guarda. Tinha até reservado dinheiro para isso.
Dias depois, contratou uma agência de eventos. Resolveu organizar um festival: Rock in Harold. Alugou o Vila Country e chamou o Gustavo Lima, Restart, Sandy e Luan Santana.. Acertou os cachês e cobrou ingressos do público.
A casa lotou. Durante o show do Gustavo Lima, Haroldo ficou no camarote com uma potente caneta laser. Entre uma música e outra, apontava com o laser no rosto e olhos do cantor, que se atrapalhou, mas achou que fazia parte dos holofotes.
Na apresentação do Restart, Haroldo usou um mini-canhão de ar para disparar fragmentos de papel higiênico molhado nos adolescentes. Em poucas músicas do set, o baixo do Pe Lanza ficou cheio de bolinhas grudadas.
Quando a Sandy começou a cantar, Haroldo foi até a mesa de som e experimentou uma série de efeitos aleatórios na voz dela. Ecos, voz de robô, sintetizadores de pato. Depois, cortou o volume do microfone e substituiu o áudio com sua imitação do Sílvio Santos, interpretando as mesmas músicas que a banda apresentava.
— Eu faço o que eu quero nessa porra! — gritou.
Com tanto desrespeito, Luan Santana pensou em dispensar o cachê. Mas suas fãs gritavam tanto, que voltou atrás. No momento em que subiu no palco e abriu a boca para cumprimentar o público, Haroldo desligou a chave geral do Vila Country e derreteu os controles com um maçarico, aos risos.
Confusão. Sinceramente, não sei como Haroldo escapou dessa história toda. A polêmica saiu na Folha, Estadão, UOL, Terra e etc. O burburinho durou um tempo e, como várias outras notícias, foi esquecido.
Haroldo percebeu que estava cometendo loucuras cada vez maiores com o prêmio. E o dinheiro ainda estava rendendo na poupança, o que aumentou sua fortuna.
Foi então que teve uma ideia brilhante. Virou para Agenor e falou:
— Vou gastar tudo de uma vez!
— Piu? — respondeu Agenor.
Haroldo resgatou todo o dinheiro de sua poupança e sacou seu novo e astronômico limite de cheque especial do banco.
Comprou uma rede de televisão, cinco Ferraris, dois Porsches, um Monster Truck e o Canindé.
Cumprindo um cronograma elaborado, imprimiu, foi ao centro de São Paulo e distribuiu 20 mil ingressos das arquibancadas.
Gastou todo o dinheiro em um excêntrico programa de seu novo canal.
No primeiro dia, a Harold TV transmitiu 12 horas ininterruptas de um Monster Truck destruindo carros de luxo no gramado do estádio. O próprio Haroldo conduzia o gigantesco veículo com Agenor em seu ombro.
Quando destruiu a última 612 Scaglietti, Haroldo suspirou aliviado.
— Finalmente, estou livre do dinheiro, Agenor!
— Piu?
E foi um grande engano. A rede e o programa bateram recordes mundiais de audiência e acabaram comprados pela ABC.
Hoje, com a antiga fortuna triplicada, Haroldo e Agenor vivem em uma ilha particular no sul do Pacífico.
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