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segunda-feira, 24 de março de 2014

Fake-up


Era seu primeiro dia de estágio.

Tinha altas expectativas. Durante a entrevista, o coordenador de criação disse que ele teria um grande aprendizado. Supervisão com profissionais renomados e premiados no mercado. A prateleira da sala de reunião tinha alguns leões de Cannes, entre outros troféus, como Prêmio Abril, El Ojo e Caborés.

— Preciso me preparar. Quero me enturmar logo, fazer contatos e aumentar meu networking. Já atualizei e tirei uma foto legal para colocar no Linkedin e fiz uma limpa dos meus posts do Facebook. Agora, preciso ver se minha pesquisa e treinamento deram certo! — estabeleceu como meta para si mesmo.

O treinamento em questão consistia em ler o livro "Como fazer amigos e influenciar pessoas" e tentar parecer o cara mais descolado possível. Foi a característica que usou para definir seus futuros colegas publicitários.

Baixou a discografia completa do Muse, Strokes, Mumford and Sons e 30 Seconds to mars. Descobriu que The Killers e Foo Fighters eram clássicos. Lera que, quem gostava de rock, teria mais chances de prosperar no mundo das agências. Ao mesmo tempo, não podia ser qualquer banda. Tinham que ser aquelas que foram fabricadas para ser alternativas. Aquelas que seus colegas diriam que gostavam menos hoje em dia porque se tornaram mainstream, mesmo assim, mantinham todos os MP3 em seus iTunes.

Era importante conhecer bandas que "não faziam sucesso" e um grande prazer dizer que conhecia antes de todo mundo.

Reformou seu guarda-roupas. Comprou sete camisetas da Camiseteria. Uma para cada dia da semana.

— Filho, por que sete? Você vai trabalhar só de segunda a sexta.

— Mãe, é porque em agências é comum trabalhar de fim de semana. É bom para a imagem e carreira. Tenho que estar preparado, mostrar disposição e proatividade para isso!

Até que chegou o grande dia. Estava com dúvidas sobre o horário de chegada. O entrevistador disse que o horário de chegada variava entre 9h e 9h30. Para não ter qualquer problema, prevaleceu a regra antiga de etiqueta corporativa: apareceu na agência logo no primeiro horário.

A menina do RH o levou até a Criação. Seu coordenador ainda não tinha chegado.

Todo o discurso estava ensaiado. Assim que sentasse em sua nova mesa, diria empolgado que estava ansioso para o Lollapalooza e perguntaria para o colega ao lado, para puxar assunto, "qual show você vai ver?".

Foi um dos primeiros a ligar o computador na Criação. Era um iMac. Estava impressionado e feliz de trabalhar com aquele enorme monitor prateado e fininho. Só não tirou uma foto para não parecer turista demais. Pensava: "fica calmo! Fica calmo!".

A enorme mesa com mais nove iMacs continuava vazia. Parecia uma merendeira de refeitório. Havia brinquedos do Mc' Donalds de várias gerações.

Olhou para o Billy, a Mandy, o Puro-Osso, a Turma do Bairro e os Minions. Imaginou quando ganharia seu primeiro prêmio. Lembrou dos relatos de festas de alguns de seus amigos que já trabalhavam na área. As putarias, o open bar e as baladas da moda fechadas só para a confraternização.

— Será que é igual ao Mad Men? — pensou.

Já vislumbrou seus Tweets e posts de Facebook dos momentos em que estaria trabalhando demais.

Na sexta à noite: "Amanhã estou aqui de novo! :( Mas bora lá porque é o que eu amo fazer! #vidadepublicitarionaoefacil".

Ou então: "Madrugada na agência... O bom é que a internet está rápida pra c@r@&%! #quemmandouescolherpublicidade".

Os posts tinham que dúbios: reclamar que estava trabalhando demais, mas ao mesmo tempo, mostrar a paixão exacerbada pela profissão.

Mensagens assim nas redes sociais eram necessárias porque mostram o quanto se está dedicado ao emprego. Isso é muito valorizado em São Paulo.

A piada/pergunta: "É meio período?", quando alguém vai embora antes de você, tem que estar engatilhada perto das 18h.

Ficou viajando assim até umas 10h15, quando chegou um cara com o cabelo preto até a cintura, barba cerrada, coturno, calça jeans e camiseta preta lisa.

— Opa! Beleza! Você é o novo aspira de redação? Meu nome é Diogo! — disse o cabeludo.

— E aí? Sou sim! Comecei hoje! Meu nome é Theodoro! O pessoal me chama de Theo!

— Theodoro? Ah, não! Aqui, a gente chama os estagiários de Gilmar. Você é o Gilmar III.

— Hahaha! Beleza!

Levou na boa. As outras pessoas começaram a completar a mesa. Alguns se apresentaram, outros não. Todos estavam meio sonolentos e a manhã seguiu meio silenciosa até a hora do almoço.

Nenhum job tinha aparecido para Gilmar III, que acessou o Blueprint, Ads of the world e the FWA para procurar referências, conforme seu professor indicou.

Postou no Facebook: "Primeiro dia em uma agência grande. #conquista #delorean #felizpracaraio". Recebeu seus likes e comentários de parabéns.

Já não tinha mais o que procurar na internet. Era necessário quebrar o gelo e puxar assunto.

Respirou fundo e perguntou para Diogo:

— E aí? Vai no Lollapalooza? Estou ansioso para ver o Arcade Fire!

— Rolla Pra Loser? Hahaha! Numa boa, cara! Eu detesto esse festival e todas as bandas que tocam lá.

E foi a primeira vez que o mundo de Theo caiu.

A segunda, foi quando precisou fazer o texto de e-mail marketing temático de Dia de Finados. Ia rolar um feirão de apartamentos perto da data.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

De Lorean Creative Solutions Ltda.

Lá estava Gustavo. Sentado de frente a uma fogueira assando um besouro que tinha encontrado. Era o jantar mais farto desde a grande tragédia, há três semanas.

Estava faminto. Pensar que fazia dois meses que tinha sido chamado para ser estagiário da agência De Lorean Creative Solutions Ltda. Depois de um longo processo seletivo, fora escolhido para a área de atendimento.

Antes que todos pudessem perceber o avanço tecnológico, a viagem no tempo já era possível. Dos estudos finais até a utilização banal foi uma evolução muito rápida. As agências de publicidade foram as primeiras a adotar as máquinas do tempo como ferramenta de trabalho.

Problemas de prazo, entregas, pressão. Era uma solução perfeita. A expressão "esse trabalho é para ontem" passou a fazer sentido.

A De Lorean foi pioneira. Os gerentes de projeto amaram a ideia. Os clientes, mais ainda.

As duplas criativas trabalhavam da seguinte maneira: o job complicado chegava com um prazo apertado. O diretor de arte e o redator definiam o tempo para a execução do trabalho. Podiam demorar o quanto precisassem para uma entrega de qualidade.

Ao terminar o trabalho, mesmo que muito atrasado, os funcionários do atendimento faziam a viagem no tempo para apresentar, aprovar e veicular as peças na data que tinha sido estipulada.

O único cuidado especial que devia ser tomado era para não desorganizar a agenda dos gerentes do projeto. Mais uma função que deveria ser incorporada nas planilhas de cronograma.

Alguns simplesmente incluíram a coluna "EVT" (Entrega com Viagem no Tempo) ou "EMT" (Entrega com Máquina no Tempo). Tudo era uma questão de planejamento.

Quando passou no processo seletivo, o RH e os gestores de área definiram que o melhor lugar para Gustavo era no departamento de atendimento, auxiliando na administração das contas de varejo.

Gustavo estava feliz. Era uma grande oportunidade. Trabalharia em uma das maiores agências do país. Uma empresa que tinha crescido muito nos últimos anos. A De Lorean duplicou o faturamento com a conquista dos primeiros clientes que buscavam a solução da máquina do tempo.

A viagem temporal, principalmente no período de implantação, era um típico serviço para estagiários. Era necessário vestir uma roupa especial protetora. O material era amianto porque, durante as viagens, havia o risco de combustão espontânea.

Funcionava assim. Havia uma estrutura de metal cilíndrica, de 2 m de altura por 1,60 m de diâmetro.

A cabine tinha um painel eletrônico, com um teclado numérico onde eram digitados a data-destino e o horário. Devido à perda de dois estagiários por erros de digitação, foi estipulado como medida de segurança que a data limite para viagem seria 10/6/2010, dia em que a ferramenta fora implantada na agência. Assim, quem viajasse teria um meio de retornar ao seu tempo de origem.

Em resumo, assim que entrava na cabine, o viajante do tempo era submetido a micro-vibrações muito rápidas. Vibrava tanto que acontecia uma desestabilização molecular, assim, o grupo de moléculas era deslocado no sentido contrário de rotação da Terra, até a data desejada. A combustão nas primeiras viagens vinha do atrito com o ar no início da micro-vibração.

Enfim. O problema estava resolvido. Gustavo já estava se acostumando com as viagens. No começo, sentia um pouco de náuseas. Nada demais. Quando chegava no "tempo de entrega", era necessário apenas dar a seu chefe o pendrive com as peças e depois, voltar à máquina do tempo.

Tudo muito simples.

As coisas começaram a mudar quando a De Lorean venceu a concorrência de sua primeira conta imobiliária: Pássaros de Goiânia Construção e Vendas. O cliente, atraído pela maravilha da viagem no tempo, optou sem pestanejar pela agência.

Com um gordo fee, o maior da casa, a conta tinha muitos poderes e privilégios sobre os funcionários da De Lorean. Por causa disso, todos foram muito imprudentes na utilização das EVT's.

Um e-mail marketing. Algo muito simples que teve consequências desastrosas para o planeta.

A peça, que informaria o mailing de um evento em conjunto com a Caixa Econômica, conteria uma lista de empreendimentos que estariam em promoção e ótimas condições de financiamento. Contando com a EVT, o prazo já estava apertado. O trabalho entrou na agência na quinta-feira. O evento seria no sábado.

Na própria quinta, depois das 19h, a dupla criativa finalizou o trabalho.

Primeira alteração na sexta: a medida de um dos residenciais, o Jardim de Lírios com Orvalho, estava errada. Não eram 82 metros quadrados, e sim 70. Gustavo voltou para quinta-feira às 19h para refazer a entrega.

Segunda alteração na segunda-feira seguinte: o cliente não gostou de uma das cores no layout. Não estava vendedor. Era necessário passar mais alegria e esperança em um evento que oferecia uma oportunidade singular de compra de imóveis. Lá foi Gustavo de novo para a quinta-feira às 19h com o pendrive de alteração.

Terceira mudança, na segunda ainda na parte da tarde: o fundo do logo parecia estar prata, quando, na verdade, deveria ser cinza. Isso ia contra as especificações do guide. "Vai lá, Gus!".

Quarta alteração: trocar a palavra "imóvel" para "apartamento" em todo o e-mail. O enjoo que Gustavo sentia nas primeiras viagens até voltou a atacar seu estômago.

Quase uma semana depois da primeira entrega do job, veio o último pedido de alteração. E foi realmente o último. Pena que não deu tempo de aprender com esse erro: alterações e viagens no tempo formavam uma destrutiva combinação.

Enquanto Gustavo viajava, no formato de um agrupamento de moléculas soltas a grande velocidade, acabou se encontrando com dois outros Gustavos viajantes de outras alterações.

Houve um choque molecular e atômico, similar ao experimento no Grande Colisor de Hádrons, que desestabilizou os nêutrons e gerou a maior explosão atômica já documentada. O cogumelo de fumaça poderia ser visto da Lua.

A explosão varreu a vida na superfície da Terra. Sobraram apenas baratas, alguns insetos e um Gustavo, que surgiu na cabine da máquina do tempo após a estabilização de tudo.

Ele encontrou um mundo pós-apocalíptico típico. Deserto, sem luz e, até onde se sabia, sem zumbis.

No fim, só lhe restava torcer que a Emma Watson também estivesse viva para ajudar a repovoar o mundo.