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quarta-feira, 26 de julho de 2023

2537 - Shitstorming


– Wilson, podemos conversar?

– Claro!

– Vou te mandar o link.

Abre o Google Meet.

– E aí? Tudo bem? Como estão as coisas?

– Tudo certinho!

– Então Wilson, queria só tirar umas dúvidas sobre as suas horas.

– Minhas horas?

– É. Eu vi aqui que você tem horas alocadas no banheiro da agência, mas hoje é dia do seu Home Office.

– Deixa eu ver. Ah sim! Eu estava cagando.

– Ah! Então vou pedir pra você alterar. Tem uma tarefa no gerenciador de horas que é “2534 – Evacuação Banheiro de Casa 2º Andar”. Sua casa é um sobrado?

– Sim! Mas eu caguei no lavabo.

– Ah! Então vamos alocar as horas no “2533 - Evacuação Banheiro do Térreo”.

– Foi uma dor de barriga de movimentação peristáltica normal ou você tomou café?

– Acabei de passar um café!

– De cápsula ou coador?

– Coador. Cápsula gera muito lixo no meio ambiente.

– Ah. Então você lança as horas do café em “2645 - no coador é mais gostoso”.

– Ok! Deixa eu anotar…

– Por um acaso você não teve ideias no banheiro, não?

– Hmm… Eu pensei um pouco no job sim.

– Aaaah! Então apaga tudo que falei. Aloca suas horas no “2537 - Shitstorming”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Velho batuta

 

Tocava baixo na banda ZZ Top Cover SP. A genética ajudava. Sua barba crescia bem rápido e em alguns meses, chegou ao comprimento necessário.

Tinha largado seu último emprego para se dedicar à música, mas as coisas não andavam bem.

"É só uma fase!" — pensava. Além dos covers nas noites do Bixiga e Moema, investia pesado as economias que juntou em seu projeto de composições próprias. Só que os rendimentos das aplicações não estavam sendo suficientes para cobrir todas as despesas.

"Preciso de um bico!". Não queria nem pensar em fazer algo parecido com as atividades do último trabalho dito "normal". Ou seja: nada relacionado a Departamento Pessoal ou Recursos Humanos. Nada de planilhas, CLT, relatórios, orçamento de pessoal, processos seletivos ou dinâmicas de grupo estapafúrdias.

Tinha calafrios quando se lembrava de seu último chefe. O cara era um neurótico hipócrita. Ficava com a antena ligada procurando momentos de ócio de seus subordinados, mas como sentava no canto da sala, passava horas do dia resolvendo assuntos pessoais. Pesquisava preços de tintas para a reforma de sua casa, colhia tranquilamente seus morangos em Farmville e assistia a tutoriais de oito minutos sobre cortes de cabelo no YouTube.

A ansiedade desse gestor era grande. Aplicava tanta força no mouse, que quando o mexia, o atrito com a mesa emitia um som parecido com o de uma buzina de algodão-doce.

Mas eram tempos passados. Desistira de "ser alguém na vida", de pegar o trem lotado todos os dias, de fazer baldeações por corredores estreitos com milhares de pessoas, de ocasionalmente limpar micro-pingos de catarro na manga da camisa quando alguém espirrava sem colocar a mão na boca.

Tudo isso passou por sua cabeça num segundo, enquanto refletia sobre as escolhas que tinha feito na vida e no momento em que aceitou o emprego temporário de Papai Noel do Shopping Center Norte. Um cargo muito concorrido após anos e anos de um jingle inesquecível.

Não estava arrependido. A comprida e sedosa barba natural facilitou a escolha e começou a trabalhar logo no começo de dezembro.

As exigências eram simples: sorrir, ouvir os pedidos das crianças e não ter ereções.

Só que nosso amigo foi proativo: passava lindas mensagens e lições para os pequeninos e seus pais.

— Oi, Papai Noel!

— Ho... Ho... Ho... Olá, pequerrucho! Quantos anos você tem?

— 7 anos!

— E o que você quer de presente de Natal?

— Eu quero um iPad!

— Tenho uma coisa melhor aqui: um vale-lama. Se você chamar um amiguinho para brincar no parquinho mais perto da sua casa após um dia de chuva, você mostra esse cupom para o seus pais. Assim, você pode brincar lá mesmo se tiver lama e pode se sujar à vontade.

— ... Brigadu... — respondeu o menino, sem entender direito.

Com muita criatividade, distribuía diferentes cupons. Além do vale-lama, tinha também o vale-dormida na casa do amiguinho, vale-sobremesa extra, vale-brincadeira com os pais, vale-futebol na chuva e um vale-visita ao parque.

O mês foi passando, e como todos os trabalhos que exigem criatividade, mas que não valorizam os criativos, o saco de nosso protagonista foi se enchendo. Sem trocadilhos.

A cada criança birrenta, o humor do Papai Noel transitava entre a ironia e a completa acidez nas palavras.

— Eu quero o game "Unilever Dish Monsters 3D" para Kinect!

— Dish Monsters? Como é esse jogo? — perguntou o Papai Noel em um súbito lampejo de genuíno interesse.

— É um jogo que se passa na cozinha de uma casa! Bactérias alienígenas planejam o domínio da Terra e se alimentam da combinação de restos de arroz seco grudados em porcelanas. Para combater eles, você precisa lavar a louça com o detergente especial criado pela Unilever! Aí, você faz movimentos circulares com a mão direita, enquanto segura o prato com a mão esquerda! Assim, com o braço esticado na frente e mexendo o pulso, você liga e desliga a torneira!

— Olha só!

E o garoto continuou:

—  Se deixar o prato de molho na água quente, torneira da direita, você facilita a remoção do arroz seco na louça!

O Papai Noel não aguentou, interrompeu a criança e berrou com toda a força do diafragma:

— PORRA! ENTÃO, POR QUE CARALHAS VOCÊ NÃO LAVA A LOUÇA DE VERDADE E AJUDA SEUS PAIS?!

Silêncio no Center Norte. Um fato absolutamente inédito em quase 30 anos de existência, se considerarmos que era dezembro, poucas semanas do natal. Todos ficaram boquiabertos com o grito do bom velhinho.

O capitalismo. Em menos de 5 minutos, o burburinho voltou e todos continuaram com suas compras.

Nosso amigo natalino foi despedido do shopping, mas logo conseguiu outro emprego: uma agência de publicidade o contratara para fazer posts na FanPage "Papai Noel Sincero".

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Vacinação em Entrevistas de Emprego


A experiência faz você observar mais os fatos e tirar algumas conclusões.

Ao conhecer e passar por diversas empresas, grandes e pequenas, você pode pensar que apenas o seu mercado de trabalho é ruim.

Não é bem assim.


Depois de conversar com um amigo que teve metade do cachê roubado pelo próprio agente, outro que tem uma batalha diária contra os calotes dos clientes, é fácil concluir que há filhos da puta em todas as áreas.

Portanto, a presença de um filho da puta deixa de ser um critério de escolha ao avaliar seu próximo destino. Algum certamente estará lá.

Aliás, está cada vez mais difícil tomar uma decisão. Da mesma maneira que todos os smartphones imitam o iPhone, todas as empresas parecem iguais.

Por exemplo, um fato comum entre todas é que, sempre quando vão propor um salário menor que o desejado, os entrevistadores falam:

- Olha, o salário é menor, mas aqui, você vai ter um carimbo na carteira de trabalho da Mother Fucking Big Corporation. Imagine isso no seu currículo.

Ou no caso de uma empresa pequena:

- Olha, o salário é menor do que você está pedindo. Mas veja que grande oportunidade! Você vai poder crescer junto com a gente!

Na primeira vez que ouve um discurso assim, você acredita com empolgação.

Tempos depois, só acredita com um pé atrás.

Aos 30 e com conhecimento empírico, tudo que vem à mente é a seguinte cena:

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Daqui de fora

Estou, há quase cinco anos, fora do mercado da Psicologia.

Meu número de CRP está inativo, mas o interesse pela área sempre correu junto comigo. Por leituras, pesquisas ou mesmo longas conversas com meus amigos e colegas de formação.

Hoje, vejo que eu era inexperiente demais no ano em que me formei. Experiência de vida também conta muito para um bom trabalho do psicólogo, e não apenas competência teórica e técnica. É a diferença entre conhecer a vida por livros e viver de verdade.

Esse fator “vida” faz com que você desenvolva mais empatia, que é essencial na Psicologia moderna.

Outro fator interessante é que passei a entender que os seres humanos não nascem com manual de instrução. Pensar dessa maneira me fez rotular menos. DSM’s e CID’s são excelentes auxiliares diagnósticos, mas os profissionais têm a mania de definir seus clientes pela enfermidade que carregam.

Esse excesso de diagnósticos, ramificações e subtipos criaram um efeito que alguém chamou brilhantemente de “Normalopatia”. Em resumo, um conceito de que existe um padrão de pessoas normais, livres de supostas doenças psicológicas.

Nesse sentido, a sublimação do Freud é um mecanismo de defesa extremamente útil para as pessoas seguirem com suas vidas. Fulano tem TOC de limpeza e foi trabalhar na vigilância sanitária. O sádico Ciclano, em vez de espancar pessoas nas ruas, seguiu uma brilhante e “prazerosa” carreira no UFC.

No fim, é esse o nosso papel como profissionais: ajudar o cliente, seja empresa, pessoa ou qualquer outro grupo, a seguir com sua vida e correr atrás de seus objetivos.

Infelizmente, essa ajuda é quase “passiva”, e na minha neurose, fico muito frustrado. Se o cliente não quiser ser ajudado, nosso trabalho parece ser em vão. Seria apenas mais uma função: eu finjo que presto um serviço e você finge que aproveita.

Tem que querer sair de casa sem a ajuda de antidepressivos.

Tem que querer manter o controle frente a pensamentos irracionais.

Tem que querer entender que somos responsáveis por tudo que acontece na nossa vida e que nossas escolhas têm consequências, agradáveis ou não.

Tem que querer se livrar do que supostamente incomoda.

Frente a essa quase “passividade” do psicólogo, vejo que minha volta ao mercado da Psicologia é muito difícil. Talvez seja um ponto importante para resolver em psicoterapia.