segunda-feira, 1 de julho de 2013

São Joaquim

Há tempos que estava intrigado. Se imaginava em uma situação como no filme "O Show de Truman".

Na linha azul do Metrô, reparou que ninguém entrava ou saía do trem quando ele parava na Estação São Joaquim. Tentava identificar se eram sempre as mesmas pessoas que circulavam pela plataforma. Observava atentamente se apareceriam criaturas estranhas nos cantos.

De qualquer forma, não sabia o que procurar. Uma vaca malhada estacionada? Um cachorro-quente alado? Orcs à espreita nas quinas das paredes apenas observando o movimento? Um portal para São Tomé das Letras? A sala de controle do reality show da sua vida? A imaginação ia longe.

Estaria ficando paranoico? Não queria fazer psicoterapia. Achava que psicólogos eram apenas um bando de perdidos ajudando outros desorientados. Tinha esse preconceito. Acabava tendo vários outros por pensar demais.

Não era à toa. Ficava enjoado quando lia em movimento. Também não conseguia jogar games no celular ou acessar o Facebook. Por conta disso, fazia a viagem entre o Jabaquara e o Tucuruvi completamente entediado. Um tempo perdido de sua vida.

Andava meio frustrado. Estava decepcionado com seu novo emprego. Tinha acabado de ser contratado nessa nova empresa. Era muito perto do Metrô. O serviço era o que ele sabia fazer e o salário não era mau. O problema era o chefe: um pé no saco.

— Eu ejaculei na cruz mesmo! — pensou, puto da vida. Era segunda, estava tenso, apressado e o chefe não relevaria os possíveis 20 minutos de atraso no horário de hoje.

Apesar das encheções de saco do seu gestor, era o emprego ideal. Tinha talento e experiência para as atividades. Mesmo assim, queria empreender e ter um negócio próprio, mas faltava-lhe coragem. Fez uma enorme pesquisa de rentabilidade de franquias. Tinha se interessado por uma que vendia relógios de pulso personalizados.

Mas como começar algo novo? O trabalho atual pagava bem suas contas, mas não permitia guardar muito dinheiro. Como largar essa pseudo-estabilidade para entrar em um território totalmente desconhecido? Será que ele ia gostar da vida de empresário?

Eram muitas questões de grandes consequências e mudanças. Até então, normal. Uma decisão dessas não é tomada por impulso. O que realmente estava incomodando era que o sujeito se sentia um grande covarde.

Sentir-se assim fez com que tivesse uma revelação ainda mais incômoda. Ele passou a perceber o quanto era parecido com as pessoas que ele não admirava. 

Criticava uma prima solteirona que tinha vários talentos, mas que não os aproveitava. Ela ficava em depressão em casa, cultivando a hipocondria, neuroses e aproveitando os rendimentos da herança que recebera do pai. Ele a via como uma perdedora. Mas ficar em um emprego que, toda segunda-feira de manhã, o fazia suspirar de desgosto é uma vitória? Não é apenas outro tipo de acomodação?

Detestava o comportamento de um amigo, que nunca assumia as próprias responsabilidades. Esse cara sempre encontrava um culpado para tudo que dava errado na vida. Seguia fielmente a frase de Homer Simpson: "Se alguma coisa é difícil demais, então não vale a pena fazer".

Sem que esse amigo soubesse, deu-lhe o apelido de "Madre Teresa". Tudo porque o sujeito é cego para os próprios defeitos: nunca admitia ter preguiça, inveja, ou até mesmo desejar ou falar mal de alguém. Alcançara a perfeição pela cegueira.

Sentado no banco marrom do metrô, nosso protagonista pensava no quanto seu próprio mundo era perfeito pela cegueira. O que ele estava deixando de enxergar que deixava sua vida assim?

— Próxima estação: São Joaquim. Desembarque pelo lado direito do trem. — disse a voz nos altofalantes.

Pensou: "Foda-se! Já estou atrasado. Vou descer aqui mesmo para ver o que acontece!". E o fez.

Na plataforma, tudo certo. Seguiu até as escadas rolantes. Subiu, passou pelos bloqueios e foi em direção à saída.

De repente, sentiu uma enorme força o puxando progressivamente. Primeiro a ponta dos pés, joelhos, quadril, abdome, tórax e cabeça. Incontrolável. Era o vácuo vindo de um buraco negro.

Seus olhos não acreditaram no que viam: um fundo preto, estrelas, átomos circulando e cometas dourados em alta velocidade. Quando sentiu que o ar estava rarefeito, olhou para a direita e viu um cardume de sete peixes-lontra em uma formação de voo igual a de patos selvagens. Na esquerda, uma chuva de cabeças do Régis Tadeu gritando: "Eu odeio Manowar!" em contraponto de terças.

De repente, tudo apagou. O buraco negro o sugou completamente. Mas claro, pode ser que ele só tenha sido nocauteado ao escorregar em uma poça d'água e batido a nuca na calçada.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Insônias aleatórias

Já passava das 23h. Estava lá, deitado na cama. Carlos chamava essas crises de "insônias aleatórias". Não tinham dia, nem critério e tampouco frequência para aparecer. Nunca chegou a procurar um médico para ver o que era isso. Tinha se acostumado.

Sua esposa já estava no 30º sono. Dormia tranquila ao seu lado. Ele estava feliz com ela. Depois de se entediar com o ritmo das luzes do celular se projetando no teto, passou a prestar atenção nela. Lembrou do dia em que se casaram, do primeiro encontro, início do namoro e das vezes em que saíram para se conhecerem melhor.

E por aí foi. Uma coisa levou a outra. Ao pensar em como tudo deu certo entre ele e sua esposa, passou a recordar todos os encontros desastrosos que passara na vida. Alguns nem foram tão ruins assim, mas teve um em especial que marcou demais.

Lá para o meio de 2006, ele tinha acabado de comprar seu carro. O nome da garota era Sabrina. Uma amiga da ex-namorada de um brother. Tinham se conhecido em uma baladinha qualquer.

Seria a estreia do Corsa como "abatedouro". Carlos se dava bem com Sabrina. Trocavam e-mails quase que diariamente sobre diversos assuntos. Às vezes, apenas com um "Oi, tudo bem?" na parte da manhã, a conversa se estendia pelo resto do expediente. O e-mail corporativo deles era praticamente um instant messenger.

Daí até marcarem de sair juntos, levou algumas semanas. Uma cantora de jazz faria um show no SESC Vila Mariana na ocasião. Carlos então, chamou Sabrina para assistir. Ela aceitou.

Sem GPS no celular e novo na carta de motorista, Carlos fez um estudo prévio para sair de seu trabalho na Lapa e buscar Sabrina no apartamento dela, em Moema. Durante o dia, entrou no Google Maps e falou com colegas que moravam na região. Tudo para não errar o caminho nem se atrasar.

Estava ansioso, mas tomava água para se acalmar. Tinha separado uma camisa para usar no encontro. Deixou um desodorante e um perfume na primeira gaveta de sua mesa. Comprou uma rosa colombiana para dar de presente a Sabrina.

Em paralelo a isso, fez tudo que tinha que fazer no trabalho em um ritmo alucinante. Terminou perto das 18h30, pontualmente no horário que tinha calculado para sair.

Desligou o computador, guardou suas coisas na mochila, pegou as impressões do Google Maps e saiu.

Dali para Moema, optou pelo caminho Marginal Pinheiros-Bandeirantes. Trânsito lento, mas tudo dentro dos cálculos de tempo que tinha estimado.

A única coisa que Carlos não previra era que a quantidade de água que bebeu durante o dia lhe causaria problemas logo naquela hora. Uma fortíssima vontade de mijar veio de repente, sem qualquer indício ou aviso prévio.

E o trânsito parado.

Ele começou a respirar fundo. A saída da Bandeirantes estava perto. Era só não se concentrar na própria bexiga. O carro avançou mais alguns metros. Carlos começou a dançar no banco. Dava pequenos e rápidos pulinhos usando apenas a força da bunda.

Pensou desesperado: "Puta merda! Chegar no encontro mijado é de cair o cu da bunda!". Começou a planejar uma visita rápida a alguma loja de roupas pelo caminho. Só para comprar um novo par de calças jeans.


Mais alguns metros. Finalmente! Entrou à direita e conseguiu andar um pouco mais rápido. Parou no primeiro boteco que encontrou, quase tropeçou no cinto de segurança que enroscou em seu tornozelo enquanto descia do carro e fechou a porta. Nem viu se estava parado em local proibido ou se tinha fechado o carro.

— Posso usar seu banheiro? Por favor! — pediu em tom de súplica para o homem no balcão.

— Opa! — respondeu o barman.

Ufa. Foi uma longa mijada. Alívio imediato. Lavou as mãos, agradeceu ao barman e voltou para o Corsa.

Mais tranquilo, conferiu as impressões do Google Maps e continuou seu caminho em direção à casa de Sabrina.

Chegou. Parou o carro na frente do condomínio e ligou de seu celular para ela. Alguns minutos depois, ela desceu. Carlos a esperou do lado de fora do carro, com a bela rosa colombiana na mão.

Ele a cumprimentou com um beijo no rosto. Sabrina agradeceu:

— Ai! Obrigada! Adorei meu presente! — disse sorrindo e cheirando a rosa.

Entraram no carro, conversaram sobre como o dia tinha sido e foram em direção ao SESC. Ou pelo menos, era o que Carlos achava.

Ele cometeu um erro básico. Na pressa, imprimiu as orientações para o local do show com origem em seu trabalho na Lapa, e não no endereço de Sabrina. Como não sabia andar por aquela região, acabou se perdendo. E ficou nervoso.

Sabrina ainda olhava para a rosa e continuava a conversa, mas Carlos não a ouvia. Ele quase suava frio tentando reconhecer alguma rua. Ele seguia em frente como se soubesse para onde estava indo.

Até que não teve jeito. Carlos precisou perguntar:

— Hã, Sabrina? Você sabe voltar para a 23 daqui? — a 23 de maio seria um bom referencial para Carlos se orientar.

— Humm... Deixa eu ver... Entra na próxima esquerda... Não, a segunda à esquerda...

— A primeira ou a segunda? — perguntou Carlos, ainda disfarçando o nervosismo.

— A segunda!

Passaram pela primeira rua, na segunda, perceberam que era contramão.

— Xii... Então é a terceira ou a quarta... — disse Sabrina, em tom de dúvida.

— Entro agora na terceira?

— É... Não sei. Acho que a 23 está para a esquerda.

— ENTRO NESSA OU NÃO?!

Com o aparente descontrole de Carlos, o silêncio imperou no carro por alguns segundos constrangedores, que pareciam uma eternidade. Até que Sabrina falou:

— Entra na próxima e vamos descobrir. Eu sou só uma menina do interior. Também não sei andar por aqui direito.

Hoje, Carlos tem mais claro na mente que, naquele preciso momento, suas chances de sucesso com Sabrina caíram para -50. Ele nem se lembra como conseguiram chegar ao SESC, assistir ao show e ainda jantar.

Sua memória pode ter exagerado na intensidade do descontrole. Mas tudo bem. O sono finalmente chegou. Carlos deu uma risada silenciosa, bocejou e virou para o lado de sua esposa. Dormiu até o despertador tocar, umas horas depois.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

De Lorean Creative Solutions Ltda.

Lá estava Gustavo. Sentado de frente a uma fogueira assando um besouro que tinha encontrado. Era o jantar mais farto desde a grande tragédia, há três semanas.

Estava faminto. Pensar que fazia dois meses que tinha sido chamado para ser estagiário da agência De Lorean Creative Solutions Ltda. Depois de um longo processo seletivo, fora escolhido para a área de atendimento.

Antes que todos pudessem perceber o avanço tecnológico, a viagem no tempo já era possível. Dos estudos finais até a utilização banal foi uma evolução muito rápida. As agências de publicidade foram as primeiras a adotar as máquinas do tempo como ferramenta de trabalho.

Problemas de prazo, entregas, pressão. Era uma solução perfeita. A expressão "esse trabalho é para ontem" passou a fazer sentido.

A De Lorean foi pioneira. Os gerentes de projeto amaram a ideia. Os clientes, mais ainda.

As duplas criativas trabalhavam da seguinte maneira: o job complicado chegava com um prazo apertado. O diretor de arte e o redator definiam o tempo para a execução do trabalho. Podiam demorar o quanto precisassem para uma entrega de qualidade.

Ao terminar o trabalho, mesmo que muito atrasado, os funcionários do atendimento faziam a viagem no tempo para apresentar, aprovar e veicular as peças na data que tinha sido estipulada.

O único cuidado especial que devia ser tomado era para não desorganizar a agenda dos gerentes do projeto. Mais uma função que deveria ser incorporada nas planilhas de cronograma.

Alguns simplesmente incluíram a coluna "EVT" (Entrega com Viagem no Tempo) ou "EMT" (Entrega com Máquina no Tempo). Tudo era uma questão de planejamento.

Quando passou no processo seletivo, o RH e os gestores de área definiram que o melhor lugar para Gustavo era no departamento de atendimento, auxiliando na administração das contas de varejo.

Gustavo estava feliz. Era uma grande oportunidade. Trabalharia em uma das maiores agências do país. Uma empresa que tinha crescido muito nos últimos anos. A De Lorean duplicou o faturamento com a conquista dos primeiros clientes que buscavam a solução da máquina do tempo.

A viagem temporal, principalmente no período de implantação, era um típico serviço para estagiários. Era necessário vestir uma roupa especial protetora. O material era amianto porque, durante as viagens, havia o risco de combustão espontânea.

Funcionava assim. Havia uma estrutura de metal cilíndrica, de 2 m de altura por 1,60 m de diâmetro.

A cabine tinha um painel eletrônico, com um teclado numérico onde eram digitados a data-destino e o horário. Devido à perda de dois estagiários por erros de digitação, foi estipulado como medida de segurança que a data limite para viagem seria 10/6/2010, dia em que a ferramenta fora implantada na agência. Assim, quem viajasse teria um meio de retornar ao seu tempo de origem.

Em resumo, assim que entrava na cabine, o viajante do tempo era submetido a micro-vibrações muito rápidas. Vibrava tanto que acontecia uma desestabilização molecular, assim, o grupo de moléculas era deslocado no sentido contrário de rotação da Terra, até a data desejada. A combustão nas primeiras viagens vinha do atrito com o ar no início da micro-vibração.

Enfim. O problema estava resolvido. Gustavo já estava se acostumando com as viagens. No começo, sentia um pouco de náuseas. Nada demais. Quando chegava no "tempo de entrega", era necessário apenas dar a seu chefe o pendrive com as peças e depois, voltar à máquina do tempo.

Tudo muito simples.

As coisas começaram a mudar quando a De Lorean venceu a concorrência de sua primeira conta imobiliária: Pássaros de Goiânia Construção e Vendas. O cliente, atraído pela maravilha da viagem no tempo, optou sem pestanejar pela agência.

Com um gordo fee, o maior da casa, a conta tinha muitos poderes e privilégios sobre os funcionários da De Lorean. Por causa disso, todos foram muito imprudentes na utilização das EVT's.

Um e-mail marketing. Algo muito simples que teve consequências desastrosas para o planeta.

A peça, que informaria o mailing de um evento em conjunto com a Caixa Econômica, conteria uma lista de empreendimentos que estariam em promoção e ótimas condições de financiamento. Contando com a EVT, o prazo já estava apertado. O trabalho entrou na agência na quinta-feira. O evento seria no sábado.

Na própria quinta, depois das 19h, a dupla criativa finalizou o trabalho.

Primeira alteração na sexta: a medida de um dos residenciais, o Jardim de Lírios com Orvalho, estava errada. Não eram 82 metros quadrados, e sim 70. Gustavo voltou para quinta-feira às 19h para refazer a entrega.

Segunda alteração na segunda-feira seguinte: o cliente não gostou de uma das cores no layout. Não estava vendedor. Era necessário passar mais alegria e esperança em um evento que oferecia uma oportunidade singular de compra de imóveis. Lá foi Gustavo de novo para a quinta-feira às 19h com o pendrive de alteração.

Terceira mudança, na segunda ainda na parte da tarde: o fundo do logo parecia estar prata, quando, na verdade, deveria ser cinza. Isso ia contra as especificações do guide. "Vai lá, Gus!".

Quarta alteração: trocar a palavra "imóvel" para "apartamento" em todo o e-mail. O enjoo que Gustavo sentia nas primeiras viagens até voltou a atacar seu estômago.

Quase uma semana depois da primeira entrega do job, veio o último pedido de alteração. E foi realmente o último. Pena que não deu tempo de aprender com esse erro: alterações e viagens no tempo formavam uma destrutiva combinação.

Enquanto Gustavo viajava, no formato de um agrupamento de moléculas soltas a grande velocidade, acabou se encontrando com dois outros Gustavos viajantes de outras alterações.

Houve um choque molecular e atômico, similar ao experimento no Grande Colisor de Hádrons, que desestabilizou os nêutrons e gerou a maior explosão atômica já documentada. O cogumelo de fumaça poderia ser visto da Lua.

A explosão varreu a vida na superfície da Terra. Sobraram apenas baratas, alguns insetos e um Gustavo, que surgiu na cabine da máquina do tempo após a estabilização de tudo.

Ele encontrou um mundo pós-apocalíptico típico. Deserto, sem luz e, até onde se sabia, sem zumbis.

No fim, só lhe restava torcer que a Emma Watson também estivesse viva para ajudar a repovoar o mundo.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Justiceiro Cotidiano

Edu sempre sonhou ser um super-herói.

Desde os 15 anos até hoje, com 30, ele aleatoriamente testa se seus super poderes vão se manifestar.

Pode ser na hora do almoço, no ponto de ônibus, em uma caminhada qualquer ou até mesmo nos corredores do escritório. Ele olha para os lados, escolhe um alvo e estica seu braço direito em direção a ele. Às vezes com o punho fechado, outras com a mão aberta.

E fica lá alguns segundos esperando o disparo de algum raio incandescente, um kamehameha, hadouken ou mesmo uma descarga da eletricidade estática.

Em outras oportunidades, Edu tenta mover objetos de metal com seus supostos poderes magnéticos. Qualquer habilidade mutante serviria.

Quando está parado em um engarrafamento na Berrini com seu Fiesta, logo se imagina em um voo vertical, que rompe o teto do carro. E abandona todo aquele trânsito para rasgar o céu em alta velocidade até sua casa. Só volta para a realidade quando lembra que, se tivesse tais poderes, não precisaria comprar um carro e pagar em 72 prestações.

Essa imaginação fértil, paixão por quadrinhos e animes, não era muito proveitosa em sua adolescência. Hoje em dia, qualquer um que o analisasse diria que ele sofria bullying e que estaria muito perto de entrar em alguma escola armado de metralhadoras, com a cueca por fora da calça, atirando em todos e gritando: "por Crom, Ishtar e Mithra!".

Como a maioria dos nerds nascidos nos anos 80, Edu cresceu bem. Apesar de seus surtos de imaginação a la "Mundo de Bobby", ele amadureceu, tem um emprego, namorada e amigos.

Bom. De perto, ninguém é normal.

Edu encontrou um jeito de se tornar super herói. Mesmo com suas limitações.

Tornou-se o poderoso Justiceiro Cotidiano. Nada de sair por aí mascarado. Tampouco, pular de prédio em prédio — após os 25, estava bem menos ágil com sua barriga de cerveja. Não tinha equipamentos, cinto de utilidades, nem mesmo uma central de operações secreta.

Simplesmente fazia seus movimentos para resolver qualquer injustiça que encontrasse no caminho.

Uma vez, lá pelas 8h da manhã, em um de seus engarrafamentos diários da Berrini, um carro da autoescola local começou a atrapalhar todo o fluxo da faixa da direita. A menina, que estava em aula, deixou o carro morrer. Com as bochechas vermelhas, ligava o carro, mas quando ia sair em primeira marcha, deixava o Golzinho morrer de novo.

O instrutor respirava fundo, impaciente. O carro de trás começou a buzinar. Tudo isso só aumentou o aparente nervosismo da garota. Que falhou mais três vezes ao dar partida no veículo.

Edu não pensou duas vezes. Parou o Fiesta ao lado do carro da autoescola, engatou a primeira marcha e "assassinou" seu carro. Deixou morrer de propósito. Recebeu suas buzinadas, mas as ignorou. Olhou para a garota, sorriu e deu partida novamente. Ela retribuiu o sorriso, se acalmou e conseguiu sair pouco depois.

Esse dia fora movimentado. Alguns metros à frente, um passageiro do ônibus jogou um copo vazio de água mineral pela janela. O copo tinha peso para ser arremessado porque também continha lenços de papel amassados e cheios de ranho, uns oito ou nove, todos juntinhos no recipiente.

Os reflexos de Edu para a nova vida de herói estavam aguçados. Nem sei como ele conseguiu ser tão rápido. O fabuloso Justiceiro Cotidiano subiu a guia rebaixada, parou o Fiesta na calçada do posto de gasolina, ligou o pisca-alerta, desceu do carro, pegou o copo da calçada e o atirou de volta no ônibus com incrível precisão.

Gritou:

— PORCO! — e voltou correndo para o Fiesta.

Mesmo com o trânsito lento, foi uma grande façanha. Edu acertou a bochecha direita de seu alvo e retomou o caminho para o escritório, sem atrasos.

Durante o expediente, tudo correu normalmente. Mesmo para Edu. Ele terminou todas suas atividades no horário. Era sexta e tinha um happy hour marcado. Deixaria o Fiesta no estacionamento da empresa e iria de trem até a Vila Olímpia. Ia só tomar umas cervejas e esperar a bebedeira passar antes de pegar novamente seu carro.

As estações de trem, na hora do rush, têm várias potenciais injustiças. O Justiceiro Cotidiano não poderia deixar nenhuma passar batida.

Depois de passar pelos bloqueios, Edu viu o elevador para deficientes com uma enorme fila. No meio dela, um idoso aguardava sua vez em meio a várias outras pessoas aparentemente preguiçosas.

Edu, entrou na fila, pegou no braço do velhinho e o conduziu até a porta do elevador. Após parar com o homem lá, virou para as outras pessoas e falou:

— Gente, preguiça não é necessidade especial. Vamos todos fazer exercício, descer as escadas. Abaixo o sedentarismo! Vamos lá! Ilari lari ê!

Acho que carisma era um dos super poderes de Edu. As pessoas da fila imediatamente saíram da frente do elevador e se dirigiram pelo caminho comum até a plataforma. Uma parte sorrindo, outra parte, constrangida. Mas foram.

Empolgado, o Justiceiro Cotidiano continuou com suas imediatas missões. Na escada rolante, tocou no ombro de dois usuários que estavam parados do lado esquerdo.

— Senhor, fique na direita e deixe os apressados descerem por aqui.

— Moça, com licença! Fica na direita? Obrigado!

E continuou feliz e satisfeito com sua carreira de super-herói. Começou a viajar: se imaginou comprando uma passagem para o RS só para dar uma surra na mulher que incentivava o filho a bater no filhote de poodle. Ele levaria um Mastim Napolitano apenas para fazer terror psicológico, enquanto daria tapas de costas de mão na cara daquela escrota. Seria um upgrade na carreira de super-herói.

O devaneio não durou muito tempo. Logo, viu um homem segurando a porta do vagão para que seus amigos, apressados e atrasados na escada, pudessem entrar no mesmo trem. O rapaz estava com a bunda empinada para fora. Provavelmente, chegou correndo e conseguiu segurar a porta com a mão direita.

Edu, que também corria para entrar no mesmo trem, achou injusto com os passageiros que estavam lá dentro. Então, chegou no cara que estava na porta, agarrou-o pela camiseta e o puxou de volta para a estação pelo cinto, em um tranco só.

Aplausos de dentro do trem.

Edu sorriu, deixou o trem partir e acenou para os usuários. Mas a felicidade de mais uma missão cumprida durou pouco.

O cara que segurava a porta ficou emputecido com a cena e deu um cruzado de direita no queixo do Justiceiro Cotidiano.

Foi a última missão do nosso herói. Hoje, ele se contenta em brincar com portas automáticas de shopping. Edu finge que está usando a telecinese para abri-las e fechá-las.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Pressão

Pressa e pressão. Uma combinação que pode gerar consequências, digamos, chamativas.

O domingo tinha sido divertido. A namorada de um dos amigos de Ricardo fez uma festa de aniversário. Todos os oito amigos se reuniram em um boteco que servia comida mineira.

Cerveja, torresmo e porções de feijão tropeiro. Os amigos se esbaldaram e elogiaram o local.

Como o evento seria no domingo, a turma optou por marcar em um horário pouco mais cedo que o tradicional happy hour de sexta. Encontraram-se no bar logo após a rodada do futebol, perto das 18h.

A conversa sempre rende com esse grupo e a coisa foi terminar tarde do mesmo jeito. Lá pela 1h, Ricardo saiu do bar e foi para casa. Chegou bêbado em seu apartamento às 2h e caiu direto na cama. Chegou a quicar no colchão e cair no vão entre a cama e a parede. Derrubou o abajur, mas sem quebrar. Tudo sob controle. Ninguém tinha acordado.

Ricardo tinha que levantar cedo na segunda-feira. Dormir bêbado costuma ser bem relaxante, mas no dia seguinte, parece que você foi atropelado por um Boeing. É ainda mais torturante se você precisa levantar mais cedo que o usual, ao som do alarme escandaloso do celular.

Ressaca. Sem tempo para banho. Ricardo foi enrolando com o botão soneca. Continuou assim de cinco em cinco minutos até que não teve jeito. A última olhada que deu no display do smartphone serviu para dar uma carga de adrenalina que o ajudou a despertar de vez:

— Puta merda! — Gritou e respirou fundo. Estava atrasado.

Vestiu as primeiras roupas que viu disponíveis e saiu. Sem tomar café. Sem ir ao banheiro. Sem dar tchau para ninguém.

E se dirigiu ao ponto de ônibus. Fazia frio. No meio do caminho, sentiu uma pequenina pontada na barriga.

— Cacete... Não acredito que vou precisar cagar agora... — pensou, mas continuou seu caminho.

ROOOOOONC!

Sua barriga roncou. Uma grande e sonora cólica intestinal. Ricardo ficou até preocupado se as outras pessoas do ponto de ônibus ouviram. Havia muito barulho de carros e vendedores ambulantes, mas só para garantir, ele disfarçou. Passou a mão na altura do estômago e comentou com uma pessoa ao seu lado: "Nossa! Que fome...".

Completamente desinteressada no assunto, a pessoa só virou o rosto para Ricardo, deu um sorriso amarelo e voltou a olhar para a rua.

Ainda dava para aguentar a dor. Até que estava levinha. Era só se distrair com outras coisas. "Olha só! Aquele povo do supermercado ainda não se ligou que agora, a rua é mão única. Entrou no sentido proibido. Ah! Agora volta pro sentido certo, tonto! Hehehe! Mais um! Outro. Nossa... Essa ficou até vermelha de sem-graça."

Isso o distraiu por mais algum tempo: "não, cachorrinho! não atravessa agora... Isso. Volta para a calçada. Ufa... Agora fica aí... Vixe. Olha o tamanho daquela poça. Mas de onde ela veio? Não choveu. É só uma poça no meio da calçada seca. A rua está seca."

Enfim, o ônibus chegou. Cheio. Ricardo já devia ter previsto. Quando demora assim, não é um bom sinal. Normalmente, quando o busão vem cheio, ele deixa passar e pega outro. Mas estava atrasado demais e resolveu encarar a viagem.

Subiu, seguido de boa parte das pessoas do ponto. Chegou a poucos centímetros da catraca. Não dava para ir mais. Tudo bem, estava tão lotado que não conseguiria tirar o bilhete-único do bolso.

O corredor do ônibus já estava parecendo o útero da namorada do Shaquille O' Neal carregando os octogêmeos dele. E as pessoas continuavam a entrar. Alguns passageiros estavam grudados na porta central do veículo. Testas e bochechas oleosas eram esfregadas no vidro. As impressões faciais se misturavam formando um grande rosto disforme com vários olhos e bocas.

Será que tentavam bater algum recorde? O ônibus continuava parado no ponto e alguns atrasados ainda faziam seus esforços para entrar, mas a essa altura, seria impossível.

O ônibus partiu com as portas abertas. Não havia problemas com freadas, buracos ou aceleradas bruscas porque simplesmente não existia espaço para os passageiros caírem. Todos apoiados uns nos outros da maneira mais segura que poderia existir.

A agonia de Ricardo continuava. Os minutos pareciam horas enquanto sentia aquela dor de barriga que latejava. Ele começou a suar. Nem é possível dizer que suava frio porque o ônibus estava abafado demais. Todas as janelas fechadas.

Ele engolia seco. Sua bunda estava tão contraída que os músculos poderiam entrar em fadiga a qualquer momento. Ricardo olhava para o teto do ônibus e lia a mensagem da Vivo diversas vezes em voz baixa:

— Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa. Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa. Pedestre Vivo. Olha para todos os lados. Faz o gesto de pedestre. Atravessa na faixa... Eu... Preciso... Peidar...

Além da bunda, o rosto de Ricardo também se contraiu. Fechou os olhos com tanta força que começou a ver pequenas estrelas. Tentou se curvar, mas seu queixo bateu no ombro de uma senhora que estava em sua frente.

— D... Desculpe... — falou.

Com seus 1,87 m de altura, Ricardo apoiava sua mão direita no teto do ônibus. Não tinha muita escolha pois não dava para abaixar o braço devido à lotação. O máximo que conseguiu foi dobrar o cotovelo e colocar as costas da mão na testa.

Começou a sentir calafrios. Não dava mais para aguentar. Nos pensamentos, já cogitava a ideia:

— Se eu peidar agora, ninguém vai sentir. Não vai dar para desconfiar de ninguém. Tem muita gente.  O problema é que a pessoa atrás de mim vai sentir um sopro de calor concentrado... O que eu faço? O que eu faço? Não dá mais para aguentar!

Virou o pescoço para ver quem estava perto de suas costas. Percebeu que a pessoa estava de mochila. O calor do peido se dissiparia antes de entrar em qualquer contato com ela.

— É isso. Não dá mais para aguentar. Vou peidar. — pensou e decidiu.

Respirou fundo e liberou a pressão.

Pena que a sensação de alívio foi quase inexistente de tão rápida.

De tão lotado, a pequena pressão gerada pelo peido de Ricardo foi suficiente para explodir o ônibus.

A carroceria se rompeu. Os passageiros foram arremessados em diferentes direções da Faria Lima. Uma senhora ficou pendurada em um galho de árvore. O cobrador e o motoristas ficaram presos na carcaça do ônibus por causa do cinto de segurança.

Na imprensa, o assunto repercutiu durante uma semana. O que teria causado tamanha explosão?

Especialistas criaram uma teoria que passou em todos os jornais da TV, com simulações e ilustrações 3D. Em geral, as narrações dos repórteres diziam:

— Em temperaturas mais baixas, boa parcela da população utiliza roupas de lã. Por uma infeliz coincidência, a grande maioria dos passageiros estava com blusas desse material. A lotação excedida do ônibus teria feito com que as pessoas ficassem mais próximas e, por consequência, com que se tocassem e as blusas criassem atrito. O atrito gerou eletricidade estática. A eletricidade estática reagiu com a polaridade da carroceria, do tanque do ônibus e provavelmente com a tubulação de gás da rua. Tudo isso gerou uma faísca que provocou a explosão.

Essa foi a teoria aceita.

Ricardo sabia da verdade, mas ficou quieto. Ele sobreviveu à explosão por estar no epicentro. E a vida continua.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Lei da atração?

Pouco depois do almoço, lá para umas 14h, Haroldo caminhava calmamente pela rua até a empresa onde trabalhava. Ele e seu colega conversavam. Era quarta-feira, dia de feijoada. Ambos estavam se sentindo meio cheios. Já previam que não iam trabalhar direito na parte da tarde.

Durante o caminho de volta, havia uma lotérica. Para dar uma enrolada maior até o fim da hora do almoço, resolveram fazer um jogo da Mega-Sena. Maior prêmio da história: 300 milhões de reais.

Marcaram seus números, escreveram o nome e CPF no comprovante e voltaram para o escritório.

"O que você faria se ganhasse na loteria" é o melhor assunto para combater silêncios constrangedores em situações sociais. Por exemplo em bares, restaurantes e/ou festas em que as pessoas ainda não estão bêbadas o suficiente para o assunto fluir melhor. É um tema coringa, assim como "sexo com celebridades", "desventuras com telemarketing" e "histórias de bêbado". Todo mundo já pensou ou viveu algo nesse contexto que vale a pena ser contado.

Haroldo e seu colega sentaram em suas mesas, com planos e sonhos na cabeça. — Imagina ganhar sozinho? — pensavam.

Alguns visualizam o próprio pedido de demissão. Cinematográfico. Se não vai com a cara do chefe, fica mais espalhafatoso ainda. Ir na sala dele, gritar a plenos pulmões "CHUUUUUPA!", tirar a calça esfregar a bunda na mesa de vidro "NHEC! NHEC! NHEC!", deixar um montinho de cocô embaixo do mouse da pessoa. As possibilidades são infinitas.

Não era o caso de Haroldo. Em seus planos, apenas a vontade de gastar tudo e morrer feliz após fazer as atividades que gostaria. Não queria ser rico, aplicar o dinheiro, tampouco ter uma aposentadoria. Enquanto alguns planejam separar um percentual do prêmio para "torrar", Haroldo simplesmente "torraria" tudo. Um pouco em chocolates, outro tanto em viagens, experimentaria todos os tipos de comida e cervejas.

Mas a vida continua. Ambos dobraram o bilhete e o deixaram dentro de suas carteiras.

É impossível determinar a razão, mas na vida de Haroldo, nada que ele esperava acontecia. Às vezes, ocorria até o contrário. Ele até dizia que tinha poderes climáticos. Quando separava um casaco, fazia calor. Quando lavava o carro, chovia.

Em qualquer outra situação, esse fenômeno também aparecia. Sempre que ficava preocupado com o trânsito e atrasos, o tráfego fluía como um bloco de manteiga num toboágua. E quando ficava tranquilo em relação a algum relatório que fazia no trabalho, dava merda.

Haroldo começou a acreditar nesses poderes de contrariar probabilidades quando foi conferir os números da Mega-Sena. E não é que o filho da puta tinha ganhado? Sozinho.

A verdade é que ninguém sabe como reagiria à notícia. Tampouco na hora em que o dinheiro estivesse na conta. Após algum tempo de choque, finalmente Haroldo resolveu agir.

— TORRAR! — berrou ao ver o resultado do sorteio.

E foi embora. Nem se deu ao trabalho de pedir demissão no trabalho. Simplesmente sumiu.

Retirou o prêmio, mas não sabia onde guardar o dinheiro. Por isso, abriu uma poupança e fez o grande depósito. A gerente do banco quase teve orgasmos múltiplos na mesa.

Depois, foi até a Kopenhagen e comprou um ovo de páscoa de 10 kg. O da vitrine mesmo. Sempre teve curiosidade para comer aquilo. Em casa, devorou aproximadamente 400 g, embalou e guardou no armário. Chega de chocolate.

E agora? O que fazer? Passou a ficar ansioso.

Fez uma rápida pesquisa no Google, descobriu um pet shop onde poderia comprar um beija-flor, separou uns cinco mil reais em dinheiro e foi até o metrô.

Após passar pelos bloqueios, dirigiu-se até porta de um dos vagões e deu notas de 100 reais para que os passageiros não entrassem nesse que tinha escolhido. Os usuários, sem entender muito, foram para outras partes do trem.

Haroldo entrou e fez mais uma manutenção para que ninguém adentrasse o vagão. Assim que as portas se fecharam e o trem começou a andar, Haroldo soltou o pássaro. Finalmente poderia tirar a dúvida se um beija-flor, que consegue se manter imóvel no ar durante o voo, sofreria com a inércia do trem. Era algo que se perguntava todos os dias.

Contrariando suas expectativas, o pássaro voou um pouco e logo pousou em um banco. É. Dinheiro não serviria para persuadir a ave. Logo ao parar na próxima estação, desistiu da experiência e levou o beija-flor consigo para casa.

— Você vai se chamar Agenor! — disse para o novo amigo.

Haroldo dedicou o resto do dia para satisfazer mais de suas curiosidades. Depois de montar o cantinho do Agenor em casa, foi até a Avenida 23 de Maio para realizar um sonho de infância: descer as quatro faixas do Monumento das Ondas de Tomie Ohtake de bicicleta.

Foi mais sem graça do que imaginava. Nem precisou subornar algum guarda. Tinha até reservado dinheiro para isso.

Dias depois, contratou uma agência de eventos. Resolveu organizar um festival: Rock in Harold. Alugou o Vila Country e chamou o Gustavo Lima, Restart, Sandy e Luan Santana.. Acertou os cachês e cobrou ingressos do público.

A casa lotou. Durante o show do Gustavo Lima, Haroldo ficou no camarote com uma potente caneta laser. Entre uma música e outra, apontava com o laser no rosto e olhos do cantor, que se atrapalhou, mas achou que fazia parte dos holofotes.

Na apresentação do Restart, Haroldo usou um mini-canhão de ar para disparar fragmentos de papel higiênico molhado nos adolescentes. Em poucas músicas do set, o baixo do Pe Lanza ficou cheio de bolinhas grudadas.

Quando a Sandy começou a cantar, Haroldo foi até a mesa de som e experimentou uma série de efeitos aleatórios na voz dela. Ecos, voz de robô, sintetizadores de pato. Depois, cortou o volume do microfone e substituiu o áudio com sua imitação do Sílvio Santos, interpretando as mesmas músicas que a banda apresentava.

— Eu faço o que eu quero nessa porra! — gritou.

Com tanto desrespeito, Luan Santana pensou em dispensar o cachê. Mas suas fãs gritavam tanto, que voltou atrás. No momento em que subiu no palco e abriu a boca para cumprimentar o público, Haroldo desligou a chave geral do Vila Country e derreteu os controles com um maçarico, aos risos.

Confusão. Sinceramente, não sei como Haroldo escapou dessa história toda. A polêmica saiu na Folha, Estadão, UOL, Terra e etc. O burburinho durou um tempo e, como várias outras notícias, foi esquecido.

Haroldo percebeu que estava cometendo loucuras cada vez maiores com o prêmio. E o dinheiro ainda estava rendendo na poupança, o que aumentou sua fortuna.

Foi então que teve uma ideia brilhante. Virou para Agenor e falou:

— Vou gastar tudo de uma vez!

— Piu? — respondeu Agenor.

Haroldo resgatou todo o dinheiro de sua poupança e sacou seu novo e astronômico limite de cheque especial do banco.

Comprou uma rede de televisão, cinco Ferraris, dois Porsches, um Monster Truck e o Canindé.

Cumprindo um cronograma elaborado, imprimiu, foi ao centro de São Paulo e distribuiu 20 mil ingressos das arquibancadas.

Gastou todo o dinheiro em um excêntrico programa de seu novo canal.

No primeiro dia, a Harold TV transmitiu 12 horas ininterruptas de um Monster Truck destruindo carros de luxo no gramado do estádio. O próprio Haroldo conduzia o gigantesco veículo com Agenor em seu ombro.

Quando destruiu a última 612 Scaglietti, Haroldo suspirou aliviado.

— Finalmente, estou livre do dinheiro, Agenor!

— Piu?

E foi um grande engano. A rede e o programa bateram recordes mundiais de audiência e acabaram comprados pela ABC.

Hoje, com a antiga fortuna triplicada, Haroldo e Agenor vivem em uma ilha particular no sul do Pacífico.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Catota

Se olhar com atenção, dá para perceber uma série de tiques e manias das pessoas à sua volta. Alguns são bem discretos, outros exagerados.

Lindolfo tinha muito medo que seu nariz estivesse sujo. Odiava pensar que alguma sujeirinha seca ou fragmentos de ranho solificados ficassem pendurados e à vista em suas narinas.

Claro que sua cabeça sempre exagerava nas proporções do fato. Em seu devaneio, algo verde e disforme estaria preso nos pelos do nariz como um macaco bêbado de frutas fermentadas enroscado em cipós. Algo gigantesco balançando para lá e para cá prestes a cair em sua camiseta.

Em função dessa neurose, Lindolfo constantemente conferia se seu nariz estava sujo. De tempos em tempos, levantava a mão direita e passava o dedo indicador nas bordas das narinas. Tentava ser discreto. Não queria que as pessoas pensassem que estava enfiando o dedo lá dentro. Isso seria falta de educação. E realmente era só uma conferência superficial.

Se alguém reparasse, ele fingia que estava pensativo. Mantinha a mão tampando a região da boca e olhava para o horizonte vazio. Às vezes, até franzia a testa. Levantava uma das sobrancelhas. Só para dar a entender que estava imerso em profundos questionamentos. De repente, para voltar à realidade, Lindolfo simulava uma rápida e elegante coçadinha na ponta do nariz.

Nosso preocupado amigo estava cultivando um bigode. Resolveu inovar no visual. O problema é que quando os pelos começaram a ficar mais longos e desajeitados, faziam um pouco de cócegas e causavam coceira. Resultado? Amplificou sua sensação de nariz sujo, fazendo com que Lindolfo conferisse a limpeza ainda mais vezes durante o dia.

Andava sempre com um pacote de lenços no bolso. Não queria passar de novo pela situação mais constrangedora que viveu na faculdade. Era inverno e conversava com alguns amigos no intervalo de duas aulas. Como estava um pouco resfriado, precisou espirrar. Foi incontrolável. Chegou a por a mão no rosto, mas não adiantou. O muco verde-esbranquiçado escorria no meio de seus dedos.

Ficou tão desesperado que saiu correndo da sala de aula, largando a conversa com seus amigos. Que vergonha! A minazinha que ocasionalmente xavecava também estava no grupo.

Obviamente, seus colegas não ligaram. Continuaram o assunto normalmente. O que realmente chamou a atenção foi a velocidade de Lindolfo, que se levantou e correu para o banheiro de maneira súbita.

— Lindolfo, espirro é normal! Você está resfriado. Eu pensei que você ia correr, pegar um ônibus e fugir para casa de tão rápido que você saiu! — disse a minazinha.

Os anos passaram. Perdeu o contato com a garota. O pacote de Kleenex foi incorporado ao bolso, e de lá, nunca mais saiu. Mesmo no verão, ou quando a rinite atacava, ele era bem aproveitado e renovado de tempos em tempos.

Tudo seguia na normalidade. Essa nóia já fazia parte do dia a dia. Deixou de incomodar e não atrapalhava suas atividades. Era só ter qualquer sensação no nariz, de um vento a um toque dos bigodes, que rapidamente Lindolfo conferia a limpeza.

Ficar reparando tão incansavelmente no próprio nariz fez com que Lindolfo também fosse muito atento, observador e detalhista nas narinas dos outros.

Percebia a metros de distância se alguém estava com o nariz escorrendo ou com alguma melequinha pendurada. Isso não se aplicava apenas ao universo nasal. Encontrava nas pessoas remelas nos olhos durante a manhã, fragmentos de rúcula, alface ou feijão nos dentes depois do almoço e ocasionalmente micro farelos de pão nas barbas e camisetas.

Flocos de caspa eram como holofotes, show de laser e fogos de artifício fosforescentes saindo diretamente do couro cabeludo de seus colegas de trabalho.

Essa percepção super aguçada a secreções discrepantes no rosto dos outros também não incomodava. Até o dia em que fez uma reunião com o Vice Presidente Regional da empresa em que trabalhava.

Logo que a reunião começou, do outro lado da enorme mesa da sala, Lindolfo conseguiu enxergar uma bolinha branca de baba que ficava próxima ao canto da boca do VP. No lábio inferior. Era arredondada e tinha poucas micro bolhinhas de espuma.

Lindolfo desfocou. Não prestava mais atenção a qualquer assunto tratado naquele momento. A bolinha de baba estacionada parecia um iglu. Passou a imaginar esquimós microscópicos vivendo ali. Pequenas pessoas caçando restos de comida que sobravam abaixo da língua ou nos dentes do executivo.

A cada vez que o VP fechava a boca enquanto falava sobre algum tópico, formava-se um fio de cuspe que, na visão de Lindolfo, subia, descolava do lábio superior e descia em câmera lenta até voltar à forma original.

Começou a ficar tenso com aquela imagem. O vice presidente passava a língua na boca, tirava a gota de cuspe, mas sempre em seguida, ela voltava. Às vezes maior. Às vezes menor. Mas sempre voltava.

Lindolfo queria levantar, sacar uma folha quádrupla de lenço e limpar aquilo. Suou frio para resistir a essa vontade. Foi difícil. Desviava o olhar, desenhava um lago com montanhas em seu caderno de anotações, mas toda vez que parava, a primeira coisa que lhe chamava o olhar era a meia esfera de saliva na boca do cara.

Os minutos se passaram e Lindolfo continuou focado no movimento do igluzinho de cuspe. Ele finalmente aceitou que não prestaria mais atenção na reunião, até que ouviu VP falar:

— Concorda, Sr. Lindolfo?

— Er... É... Ok! Concordo!

Todos aplaudiram. Lindolfo acabara de ser transferido para a filial da empresa em Roraima.