segunda-feira, 24 de março de 2014

Fake-up


Era seu primeiro dia de estágio.

Tinha altas expectativas. Durante a entrevista, o coordenador de criação disse que ele teria um grande aprendizado. Supervisão com profissionais renomados e premiados no mercado. A prateleira da sala de reunião tinha alguns leões de Cannes, entre outros troféus, como Prêmio Abril, El Ojo e Caborés.

— Preciso me preparar. Quero me enturmar logo, fazer contatos e aumentar meu networking. Já atualizei e tirei uma foto legal para colocar no Linkedin e fiz uma limpa dos meus posts do Facebook. Agora, preciso ver se minha pesquisa e treinamento deram certo! — estabeleceu como meta para si mesmo.

O treinamento em questão consistia em ler o livro "Como fazer amigos e influenciar pessoas" e tentar parecer o cara mais descolado possível. Foi a característica que usou para definir seus futuros colegas publicitários.

Baixou a discografia completa do Muse, Strokes, Mumford and Sons e 30 Seconds to mars. Descobriu que The Killers e Foo Fighters eram clássicos. Lera que, quem gostava de rock, teria mais chances de prosperar no mundo das agências. Ao mesmo tempo, não podia ser qualquer banda. Tinham que ser aquelas que foram fabricadas para ser alternativas. Aquelas que seus colegas diriam que gostavam menos hoje em dia porque se tornaram mainstream, mesmo assim, mantinham todos os MP3 em seus iTunes.

Era importante conhecer bandas que "não faziam sucesso" e um grande prazer dizer que conhecia antes de todo mundo.

Reformou seu guarda-roupas. Comprou sete camisetas da Camiseteria. Uma para cada dia da semana.

— Filho, por que sete? Você vai trabalhar só de segunda a sexta.

— Mãe, é porque em agências é comum trabalhar de fim de semana. É bom para a imagem e carreira. Tenho que estar preparado, mostrar disposição e proatividade para isso!

Até que chegou o grande dia. Estava com dúvidas sobre o horário de chegada. O entrevistador disse que o horário de chegada variava entre 9h e 9h30. Para não ter qualquer problema, prevaleceu a regra antiga de etiqueta corporativa: apareceu na agência logo no primeiro horário.

A menina do RH o levou até a Criação. Seu coordenador ainda não tinha chegado.

Todo o discurso estava ensaiado. Assim que sentasse em sua nova mesa, diria empolgado que estava ansioso para o Lollapalooza e perguntaria para o colega ao lado, para puxar assunto, "qual show você vai ver?".

Foi um dos primeiros a ligar o computador na Criação. Era um iMac. Estava impressionado e feliz de trabalhar com aquele enorme monitor prateado e fininho. Só não tirou uma foto para não parecer turista demais. Pensava: "fica calmo! Fica calmo!".

A enorme mesa com mais nove iMacs continuava vazia. Parecia uma merendeira de refeitório. Havia brinquedos do Mc' Donalds de várias gerações.

Olhou para o Billy, a Mandy, o Puro-Osso, a Turma do Bairro e os Minions. Imaginou quando ganharia seu primeiro prêmio. Lembrou dos relatos de festas de alguns de seus amigos que já trabalhavam na área. As putarias, o open bar e as baladas da moda fechadas só para a confraternização.

— Será que é igual ao Mad Men? — pensou.

Já vislumbrou seus Tweets e posts de Facebook dos momentos em que estaria trabalhando demais.

Na sexta à noite: "Amanhã estou aqui de novo! :( Mas bora lá porque é o que eu amo fazer! #vidadepublicitarionaoefacil".

Ou então: "Madrugada na agência... O bom é que a internet está rápida pra c@r@&%! #quemmandouescolherpublicidade".

Os posts tinham que dúbios: reclamar que estava trabalhando demais, mas ao mesmo tempo, mostrar a paixão exacerbada pela profissão.

Mensagens assim nas redes sociais eram necessárias porque mostram o quanto se está dedicado ao emprego. Isso é muito valorizado em São Paulo.

A piada/pergunta: "É meio período?", quando alguém vai embora antes de você, tem que estar engatilhada perto das 18h.

Ficou viajando assim até umas 10h15, quando chegou um cara com o cabelo preto até a cintura, barba cerrada, coturno, calça jeans e camiseta preta lisa.

— Opa! Beleza! Você é o novo aspira de redação? Meu nome é Diogo! — disse o cabeludo.

— E aí? Sou sim! Comecei hoje! Meu nome é Theodoro! O pessoal me chama de Theo!

— Theodoro? Ah, não! Aqui, a gente chama os estagiários de Gilmar. Você é o Gilmar III.

— Hahaha! Beleza!

Levou na boa. As outras pessoas começaram a completar a mesa. Alguns se apresentaram, outros não. Todos estavam meio sonolentos e a manhã seguiu meio silenciosa até a hora do almoço.

Nenhum job tinha aparecido para Gilmar III, que acessou o Blueprint, Ads of the world e the FWA para procurar referências, conforme seu professor indicou.

Postou no Facebook: "Primeiro dia em uma agência grande. #conquista #delorean #felizpracaraio". Recebeu seus likes e comentários de parabéns.

Já não tinha mais o que procurar na internet. Era necessário quebrar o gelo e puxar assunto.

Respirou fundo e perguntou para Diogo:

— E aí? Vai no Lollapalooza? Estou ansioso para ver o Arcade Fire!

— Rolla Pra Loser? Hahaha! Numa boa, cara! Eu detesto esse festival e todas as bandas que tocam lá.

E foi a primeira vez que o mundo de Theo caiu.

A segunda, foi quando precisou fazer o texto de e-mail marketing temático de Dia de Finados. Ia rolar um feirão de apartamentos perto da data.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Lesma


Era uma tarde preguiçosa no domingo de Carnaval. Esperava por alguns amigos no quiosque bem em frente à praia das Astúrias.

Eu tinha sido o único a acordar sem ressaca naquele dia e resolvi tomar umas brejas até eles chegarem. Aproveitei para ler meu livro em algum lugar que tivesse luz. Mentira. Eu poderia acender as luzes sem incomodar ninguém no apartamento, mas a cerveja tinha acabado.

A praia estava movimentada. Tanto que não conseguia prestar atenção na minha leitura. Resolvi olhar o mar, aproveitar a brisa e continuar com a cerveja.

De vez em quando, dava umas folheadas no livro. Abria em páginas aleatórias anteriores só para confirmar se eu tinha guardado o conteúdo. Coisa besta.

A cerveja estava deliciosamente gelada. Não me lembro se era Original ou Serra Malte. Quando estava para tomar mais um gole, um Uno novo verde lumicolor estacionou na rua de frente para a praia.

De lá, desceu um casal de mãos dadas. Tinham aproximadamente uns 25 anos. A menina carregava na mão esquerda um travesseiro. O cara acompanhava seus passos enquanto olhava se podia travar o carro e acionar o alarme.

Logo atrás deles, vieram uma amiga e um amigo. Obviamente não estavam juntos, mas claramente ele estava tentando alguma coisa. O primeiro casal ia bem mais na frente para dar mais tempo a sós para os amigos.

A menina arrastava uma mala com rodinhas pela calçada. O menino se ofereceu para ajudar.

— Dá aqui que eu levo! — com o esboço de um sorriso.

— Não! Eu levo! — ela respondeu, também sorrindo.

— Dá aqui! — e tomou a mala da mão dela. Ela riu.

A abordagem foi rude, mas bem-humorada. Ele queria deixar sua gentileza e cavalheirismo nas entrelinhas. É aquela insegurança. As gentilezas escapavam aos poucos. Parecia uma criança com boia de dinossauro tentando entrar na água gelada. Mergulhava o dedão, sentava na borda da piscina com as canelas enfiadas na água, molhava a mão direita... Tudo isso poderia resultar num mergulho ou não.

Lembrei na hora de uma viagem que fiz com dois casais de amigos. Uma lembrança que dá vontade de pegar uma máquina do tempo e me estapear cinco vezes na cara lá na época.

Já saíamos bastante juntos. Eu era o único solteiro daquela turma. Não era tão constrangedor. Eles diziam: "não são dois casais e um solteiro. São cinco amigos!". Era verdade. Eu acreditava. Acho que eu era divertido o suficiente para me quererem por perto.

Um dia, a irmã de uma das meninas terminou seu namoro. Ela passou a acompanhar a galera nos encontros.

Sempre fui lerdo. E sempre duvidei da minha percepção. Hoje, sobram facepalms quando essas coisas surgem de repente na cabeça.

Tínhamos ido a uma churrascaria quando a conheci. Falei minhas besteiras normalmente. Sem nervosismo. Vagamente lembro de umas trocas de olhares. Nada demais.

Semanas depois, fomos todos para um bar. Rolaram cervejas e algumas doses de tequila naquele sábado à noite. Entre risos descontrolados e longas abobrinhas, não sei exatamente de onde veio a ideia, mas combinamos uma viagem no próximo feriado prolongado. Todos juntos. Todos toparam.

Cada "casal" ficaria em um chalé.

Ainda no bar, ideias de bêbados, fizeram com que eu assinasse em um guardanapo o termo de compromisso de que não haveria investidas na menina enquanto estivéssemos no quarto. Como se eles não me conhecessem.

A viagem até a cidade foi um pouco mais estranha. Surgiam alguns momentos no banco de trás em que faltava assunto. Nada de muito anormal.

Olhando para trás, se fosse escrever uma carta para meu eu do passado, diria que o erro número um fora cometido logo no check-in. Chegando no chalé que dividiríamos, havia uma cama de casal e outra de solteiro.

Em minha proativa e estúpida gentileza típica dos "nice guys finish last", escolhi a cama de solteiro. BAM! O primeiro passo para a tão temida friendzone.

Foram três diárias. Tínhamos levado bebidas variadas. A tequila era a favorita. Unanimidade. Logo no primeiro shot, quis mostrar virilidade e virei um copo descartável que equivalia a uma dose maior que a normal. Acho que deu para ver o movimento do meu estômago e toda a contração da minha caixa torácica tentando devolver o líquido em um misto de engasgo, soluço e refluxo. Todos se espantaram, mas deu tudo certo. A tiração de sarro até que foi curta.

Mais álcool madrugada a dentro. Risadas, besteiras, risadas, zoeira, risadas, sarros. Eu fazia o alvo gargalhar. Acho que foi um ponto positivo. Só não me lembro se eram palhaçadas que queimavam meu filme.

Lá pelas 3 horas, o primeiro casal se cansou e foi dormir. Despediram-se. Foi a nossa deixa. Aproveitamos e fomos também para o nosso quarto.

Deitei na minha cama de solteiro e ela, na dela de casal. Conversamos por mais algumas horas. Até reclamaram das gargalhadas dela durante o silêncio da pousada. Mas no fim, dormimos. Como nos outros dias até o fim da estada. Cada um em sua cama.

Acho que o momento mais próximo que tivemos foi quando deitamos juntos na cama de casal, bêbados, para tirar umas selfies com uma máquina fotográfica analógica. Nem sei aonde foram parar essas fotos. Também não me lembro porque naquele momento acabou não rolando nada.

Faz muito tempo que não vejo ou falo com qualquer um daqueles cinco. Um casal se desfez, outro já teve filhos. A prospect já deve até estar casada.

Nossa! Parece até uma daquelas histórias sem-graça. Mas a vida é assim. Repleta de coisas sem-graça. Sem cor. Sem grandes reviravoltas. Todos os dias isso acontece.

Muitas vezes, são justamente esses capítulos tediosos que reaparecem na memória. Quando você pensa no que você teria feito de diferente. Quando imagina o que tornaria aquele momento um post de Facebook memorável e colocaria as fotos em um álbum chamado "A vida é tão boa!!!".

Depois da sessão nostalgia, continuei bebendo minha cerveja no quiosque. Uma meia hora depois, meus amigos e minha namorada desceram do apartamento para me acompanhar.

Foi quando me dei conta. Será que eu teria me tornado um putão-comedor depois daquela viagem? Difícil. Mais confiante? Talvez. Qual o rumo que a minha vida teria tomado? O ponto é que estava satisfeito com tudo.

No fim, o mais interessante dessa história é contar que fiquei no mesmo quarto e mesma cama da pessoa que eu gostava. E não fiz nada. Slowpoke!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Tale Spin

No meio de uma das quadras de basquete, lá no Parque do Ibirapuera, um grupo de jogadores esquece do jogo que tinha planejado e acompanha boquiaberto uma cena inusitada.

Próximo ao centro da segunda quadra, um homem de aproximadamente 25 anos está de braços abertos rodando freneticamente. Provavelmente é destro, porque a perna direita faz a maior parte do esforço. A esquerda parece funcionar mais como apoio ou eixo do movimento. De vez em quando, as duas pernas se mexem, parecendo uma mini-corrida em um minúsculo círculo imaginário no chão.

Abaixo de umas das tabelas, outro cara também jovem bate a cabeça no poste de metal repetidas vezes.

CLANG!

CLANG!

CLANG!

— Idiota! — sussurrava a cada cabeçada.

Após alguns minutos de pura contemplação, olhos arregalados e incompreensão, um dos jogadores resolveu perguntar para o "cabeceador" o que estava acontecendo.

Ele responde:

— Claro! Eu explico. Estão com tempo?

Tudo tinha começado no fim da semana passada. Na sexta à tarde.


As coisas estavam tranquilas depois do almoço.

O departamento discutia sobre as declarações da Rachel Sherazade e o adolescente que fora amarrado no poste. Alguns se exaltavam. Diziam: "daqui do ar-condicionado é fácil julgar as escolhas do menino!". Outros rebatiam: "Tem gente que é ruim mesmo. Não há condições sociais boas ou ruins que mudem a índole de uma pessoa!".

Era mais uma tarde ociosa para turbinar as proporções de algum fato inicialmente insignificante para as vidas deles. Um ibope que faltava para Rachel. Uma tentativa inútil para que seus editoriais não pareçam um piti ranhento-birrento.

Até que surgiu outro assunto: a professora da PUC que postou a foto de um homem vestindo regata e bermuda no aeroporto. Novo debate. Corta para o break! Já voltamos! Conhece a nova Tecpix?

Quando já faziam a associação da professora com os justiceiros que prenderam o menor no poste, Bernardo teve sua epifania.

Bernardo é o primeiro personagem de destaque nesta história. O excêntrico jovem que rodava na quadra de basquete do Ibira.

Ele pensou: "o cara da regata nem percebeu que estava sendo fotografado. A única pessoa que estaria sofrendo com o assunto é a própria professora.".

Todos em volta dele continuaram discutindo, mas era como se estivessem em um longo silêncio. Bernardo continuou refletindo: "o cara de regata estava cagando para toda a situação. Se a foto não tivesse viralizado tanto, ele nem saberia que a letrada professora com abstinência de glamour tinha feito chacota.".

E prosseguiu: "ele só queria ficar confortável. Conseguiu. Agora, se quiser, ainda fatura uma grana em algum processo sobre a mulher. Mas nem é esse o ponto. Ele estava no aeroporto como se fosse uma criança. Só preocupado com o próprio bem-estar. Não estava interferindo na vida alheia. É isso! Veja como ele está desencanado. Preciso ser mais como na minha infância!".

Até que disse em voz alta:

— Começo esta semana!

A discussão acaba. Todos olham para Bernardo, meio sem compreender, e voltam a trabalhar normalmente. Já era hora. Os outros colegas do departamento não estavam gostando do volume e exaltação da conversa.

Na cabeça de Bernardo, tudo estava claro. Era uma nova filosofia de vida.

Quais são as melhores características do nosso comportamento infantil? Sinceridade, autenticidade, alegria. Energia? Disposição? Talvez.

Contou a novidade para seu melhor amigo Paulo, conhecido até aqui simplesmente como o "cabeceador". Este, sabendo como funcionava a cabeça obstinada de Bernardo, fez um facepalm mental e já se preparou para as várias encrencas que estariam por vir.

Nos primeiros dias, Bernardo ficou sincero demais. Sem papas na língua.

Seu chefe chamou:

— Bernardo! Preciso do relatório de orçamento de material pronto às 17 horas.

— Bom, eu tive que refazer a planilha de horários de entrega nas filiais do país inteiro. Só consigo cumprir esse prazo se eu cagar meu próprio avatar de merda e arranjar um computador para ele fazer o serviço. O que acha? Pode me fornecer essas condições de serviço? — respondeu de bate-pronto.

— Strike um, Bernardo! — gritou o chefe, puto.

— Cara, o que você está fazendo? — perguntou um colega de Bernardo.

— Sendo espontâneo! — falou Bernardo — Strike um? Por um acaso isso é uma ameaça?

Levantou-se e foi até a sala do chefe. Lá de dentro, dava para ouvir algumas frases. Todos fizeram silêncio para acompanhar o diálogo.

— Você enlouqueceu? Esqueceu onde está? O que você pensa que está fazendo? Bernardo! Essa caneca foi meu filho que fez pra mim no Dia dos Pais! Pare!

— Estou fazendo meu avatar! Dá licença!

— Segurança!

Em torno de 7 seguranças carregaram um agitado Bernardo até a saída da empresa. Ele se debatia tanto que parecia o rabo de uma lagartixa que acabara de ser cortado. Ainda estava com as calças e cueca abaixadas até a altura do joelho.

Deitado na calçada, Bernardo levantou as calças e se sentou na guia. Após respirar algumas vezes, ligou para Paulo e contou o ocorrido.

— Você é pirado mesmo, cara. Vamos tomar umas brejas e conversar sobre isso.

— Beleza.

Paulo chegou de carro, pediu para Bernardo entrar e seguiram para o primeiro bar que encontraram em Moema. Um boteco de frente para a praça da igreja.

Bernardo não quis entrar.

— Espera! Não posso beber! Crianças não bebem!

Paulo respirou fundo e esfregou os olhos com as palmas das mãos.

— Tá. O que você quer fazer? Como as crianças fazem para afogar as mágoas?

— Tomar uma overdose de Yakult ou Chambinho não vai adiantar... Já sei! Vamos para o Parque do Ibirapuera.

Chegando lá, deixaram o carro em uma travessa da IV Centenário e a foram direto para as quadras de basquete.

Paulo pressentia que nada de bom poderia vir daquilo tudo, mas foi compreensivo ao máximo com seu amigo de infância que acabara de ser demitido. "Vamos ver aonde isso vai dar..." — pensou.

Foi quando Bernardo começou a girar no centro da quadra e gritava para explicar:

— É o único jeito de ficar tonto sem beber, fumar ou cheirar nada! Eu fazia isso quando tinha quatro anos e achava o máximo! Tenta também!

Paulo não acreditava no que via.

— Ber... Bernardo... Para com isso... Pa... Para! O que caralhas você está fazendo?

Com vergonha alheia, ainda pediu mais vezes para Bernardo parar. Em vão. Alguns minutos depois, o senso de responsabilidade com o amigo enlouquecido brigava com a vontade de ir embora. O conflito e o desespero fizeram Paulo bater com sua testa no poste da tabela de basquete.

A ambulância chegou meia hora mais tarde.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Velho batuta

 

Tocava baixo na banda ZZ Top Cover SP. A genética ajudava. Sua barba crescia bem rápido e em alguns meses, chegou ao comprimento necessário.

Tinha largado seu último emprego para se dedicar à música, mas as coisas não andavam bem.

"É só uma fase!" — pensava. Além dos covers nas noites do Bixiga e Moema, investia pesado as economias que juntou em seu projeto de composições próprias. Só que os rendimentos das aplicações não estavam sendo suficientes para cobrir todas as despesas.

"Preciso de um bico!". Não queria nem pensar em fazer algo parecido com as atividades do último trabalho dito "normal". Ou seja: nada relacionado a Departamento Pessoal ou Recursos Humanos. Nada de planilhas, CLT, relatórios, orçamento de pessoal, processos seletivos ou dinâmicas de grupo estapafúrdias.

Tinha calafrios quando se lembrava de seu último chefe. O cara era um neurótico hipócrita. Ficava com a antena ligada procurando momentos de ócio de seus subordinados, mas como sentava no canto da sala, passava horas do dia resolvendo assuntos pessoais. Pesquisava preços de tintas para a reforma de sua casa, colhia tranquilamente seus morangos em Farmville e assistia a tutoriais de oito minutos sobre cortes de cabelo no YouTube.

A ansiedade desse gestor era grande. Aplicava tanta força no mouse, que quando o mexia, o atrito com a mesa emitia um som parecido com o de uma buzina de algodão-doce.

Mas eram tempos passados. Desistira de "ser alguém na vida", de pegar o trem lotado todos os dias, de fazer baldeações por corredores estreitos com milhares de pessoas, de ocasionalmente limpar micro-pingos de catarro na manga da camisa quando alguém espirrava sem colocar a mão na boca.

Tudo isso passou por sua cabeça num segundo, enquanto refletia sobre as escolhas que tinha feito na vida e no momento em que aceitou o emprego temporário de Papai Noel do Shopping Center Norte. Um cargo muito concorrido após anos e anos de um jingle inesquecível.

Não estava arrependido. A comprida e sedosa barba natural facilitou a escolha e começou a trabalhar logo no começo de dezembro.

As exigências eram simples: sorrir, ouvir os pedidos das crianças e não ter ereções.

Só que nosso amigo foi proativo: passava lindas mensagens e lições para os pequeninos e seus pais.

— Oi, Papai Noel!

— Ho... Ho... Ho... Olá, pequerrucho! Quantos anos você tem?

— 7 anos!

— E o que você quer de presente de Natal?

— Eu quero um iPad!

— Tenho uma coisa melhor aqui: um vale-lama. Se você chamar um amiguinho para brincar no parquinho mais perto da sua casa após um dia de chuva, você mostra esse cupom para o seus pais. Assim, você pode brincar lá mesmo se tiver lama e pode se sujar à vontade.

— ... Brigadu... — respondeu o menino, sem entender direito.

Com muita criatividade, distribuía diferentes cupons. Além do vale-lama, tinha também o vale-dormida na casa do amiguinho, vale-sobremesa extra, vale-brincadeira com os pais, vale-futebol na chuva e um vale-visita ao parque.

O mês foi passando, e como todos os trabalhos que exigem criatividade, mas que não valorizam os criativos, o saco de nosso protagonista foi se enchendo. Sem trocadilhos.

A cada criança birrenta, o humor do Papai Noel transitava entre a ironia e a completa acidez nas palavras.

— Eu quero o game "Unilever Dish Monsters 3D" para Kinect!

— Dish Monsters? Como é esse jogo? — perguntou o Papai Noel em um súbito lampejo de genuíno interesse.

— É um jogo que se passa na cozinha de uma casa! Bactérias alienígenas planejam o domínio da Terra e se alimentam da combinação de restos de arroz seco grudados em porcelanas. Para combater eles, você precisa lavar a louça com o detergente especial criado pela Unilever! Aí, você faz movimentos circulares com a mão direita, enquanto segura o prato com a mão esquerda! Assim, com o braço esticado na frente e mexendo o pulso, você liga e desliga a torneira!

— Olha só!

E o garoto continuou:

—  Se deixar o prato de molho na água quente, torneira da direita, você facilita a remoção do arroz seco na louça!

O Papai Noel não aguentou, interrompeu a criança e berrou com toda a força do diafragma:

— PORRA! ENTÃO, POR QUE CARALHAS VOCÊ NÃO LAVA A LOUÇA DE VERDADE E AJUDA SEUS PAIS?!

Silêncio no Center Norte. Um fato absolutamente inédito em quase 30 anos de existência, se considerarmos que era dezembro, poucas semanas do natal. Todos ficaram boquiabertos com o grito do bom velhinho.

O capitalismo. Em menos de 5 minutos, o burburinho voltou e todos continuaram com suas compras.

Nosso amigo natalino foi despedido do shopping, mas logo conseguiu outro emprego: uma agência de publicidade o contratara para fazer posts na FanPage "Papai Noel Sincero".

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Avenida das Nações Unidas

eu tenho
consciência
da minha
displiscência
para fazer versos.

leio
e sinto nada
igual
psicopata
só aliteração.

eu só
imagino
professor
de cursinho
lendo empolgado

a grande
ironia
é que acho
poesia
chato pra caralho.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Caguei

Rodando o copo e sentindo o aroma da bebida.
— Nossa, que cerveja é essa?
— É a gelada.

— Para mim, Muse é a melhor banda do mundo!
— Sabe a diferença entre a sua opinião e uma pizza?
— Não.
— É que a pizza eu vou pedir hoje à noite.

— Caraca! Faltam só 2 meses para acabar 2013!
— Permita-me discordar do que você falou. Anos são apenas enganações. O que muda entre o Natal e o Ano Novo? Nada! Seu dia vai ser o mesmo. Você vai dormir, acordar, trabalhar e fazer suas coisas.
— Foda-se.

— Comecei a ler Universo numa casca de noz!
— É uma bosta! Quando você conseguir ler uma tese de verdade, você vai ter meu respeito.
— Na boa? Caguei pro seu respeito.

sábado, 12 de outubro de 2013

Bode

Andava com bode de gente.

A situação piorou quando pegou mais um livro do Bukowski para ler. Gostava muito do estilo dele. Não era a crueza de como ele descrevia as cenas, a vida, as corridas de cavalo ou as trepadas. Era a maneira como Buk aloprava a intelectualidade.

Estava de saco cheio das pessoas que tentavam mostrar o tempo todo que sabiam alguma coisa. Sentido da vida: comer, reproduzir, sobreviver e se mostrar.

Aos poucos, evitava entrar em discussões. Há tempos que elas não têm o objetivo da iluminação, como os antigos filósofos queriam. Hoje, toda discussão é só uma batalha de egos. Tipo Pokemon. O importante é a vitória, mesmo que você se descubra como errado em algum momento.

Acho que era por isso que não conseguia ler na cama. Por mais que fosse um livro que gostasse muito. Deitado, não conseguia fugir da rajada de pensamentos metralhando sua cabeça.

Lembrou das vezes em que preferiu ficar calado para não se meter em uma conversa inútil. Seus amigos falavam sobre jazz na hora do almoço. Com um tom de voz muito alto e desnecessário. "Para que isso?", pensava. "Claro que é para mostrar aos outros que são descolados, cool e entendem de jazz.".

Era possível sentir no ar a ansiedade de cada um dos participantes do culturalmente rico diálogo. Arregalavam os olhos e nem prestavam atenção no que o outro estava falando. Só ouviam o suficiente para dar sua importante contribuição ao assunto. Aguardavam ansiosamente o momento e na primeira brecha, se aliviariam com a descarga de conhecimento represado.

Quando o clima ficava assim, resolvia não se meter. O que o deixava agoniado era quando via que falavam algo errado. Queria entrar na história e dizer a resposta correta. Mas se controlava. Era melhor deixar do jeito que estava.

Aos poucos eliminava do seu sentido de vida a necessidade de se mostrar. Ainda cometia alguns deslizes. Lembrou de quando queria espalhar indignação e mensagens para acordar os brasileiros. Queria escrever críticas sociais na internet. Queria ser formador de opinião. Queria protestar sem tirar a bunda da cadeira. Sonhava em se alistar no Sea Shepherd para participar do Whale Wars.

Tentou ser politizado e quis ser religioso.

O interessante é que ao assumir uma posição em qualquer um desses assuntos, e ainda escrever, ficava desconfortável. Sentia que havia algo errado. Acho que é porque lidava com as coisas de maneira absoluta.

Nada deu certo e não se envergonhava de ter falhado, e sim de ter tentado. Mostrar-se entendido de qualquer assunto era o que ele mais abominava. Queria assumir para sua vida que o importante era saber e não que os outros soubessem que você sabe.

Ficava pensando nisso tudo até adormecer, e com toda essa avalanche na cama, só conseguia ler no ônibus.