quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Nárnia?

Rodrigo era motion designer em uma agência de publicidade online. Um cara descolado. Tinha em seu guarda-roupas 15 camisas xadrez de diversas cores. Era seu plano de emergência para ficar sem usar a máquina de lavar por uma quinzena e ainda assim, não repetir roupas no trabalho.


As calças jeans ele repetia. Mais de 3 vezes por semana. Não havia problemas. "Elas não sujam mesmo!" — dizia.

Passou a infância inteira em Araguari. Acabou herdando o delicioso sotaque da região.

Seu caminho na carreira de motion começou de maneira informal. Criava gifs engraçados. Utilizava o Photoshop para tentar fazer charges animadas e contar algumas histórias.

O pulo do gato veio quando, autodidata, aprendeu a usar o Flash, aos 16 anos.

Conto essa história porque, aos 17, por um acaso estranho do destino, conseguiu estágio em uma agência de publicidade aqui em São Paulo. A mesma em que trabalha até hoje, com 25.

Esses 8 anos no ramo, mesmo após algumas promoções simples, mas com praticamente o mesmo cargo e atividades, tornaram-se bem chatos.

Ok! O ambiente, clima e as pessoas são bem diferentes de empresas comuns, que Rodrigo chamava de "coxinhas".

No mundo das agências, tudo é muito divertido e espontâneo. Piadas, comentários do último vídeo da Porta dos Fundos ou sobre algum site inovador que pega seus dados no Facebook e faz montagens com as fotos dos seus amigos em animais dançantes, ao som de alguma sátira de "dumb ways to die".

Tem sempre alguma coisa nova rolando nos papos. O problema era a disputa diária para ver quem sabia mais das inovações que surgiam.

— Você viu o aplicativo novo da Diesel? NÃO VIU? Não acredito! Vou te mandar o link para baixar! É muito louco, cara! Muito louco!

Rodrigo percebeu que uma das coisas mais prazerosas de sua vida era responder "Ah! Eu já tinha visto!" a esse tipo de pergunta. Foi aí que começou a pensar mais sobre o futuro que queria para sua carreira.

Um dia, recebeu em seu e-mail mais uma série de ofertas do Peixe Urbano. Antes, deletava essas mensagens sem ao menos ler, mas dessa vez, resolveu dar uma olhada.

— Um curso intensivo de sapateado por 250 reais! Uma semana, todos os dias e em período integral, das 8h30 às 18h30.

Comprou na hora. Rodrigo era fã de Gene Kelly. Toda vez que garoava em São Paulo, "Singin' in the rain" tocava em sua cabeça automaticamente.

Decidira fazer o curso. Mas o que ele iria falar para seus chefes? Durante o fim de semana, depois de algum tempo refletindo, optaria pelo mais irônico.

E na segunda de manhã, telefonou para o tráfego da agência:

— Alô? Oi! Tudo bem? Olha só, eu torci o tornozelo ontem... Vou ter que ficar em casa de molho essa semana.

Para ter um bom álibi, publicou no Facebook a foto de algum pé com gesso. Só teve o trabalho de procurar nas imagens no Google e colocar a legenda: "De molho em casa :(".

Deu tudo certo no curso. Aprendeu os fundamentos, comprou os sapatos, conheceu a história da arte e treinou exaustivamente em casa. Descobriu que tinha talento. Fantasiou a semana inteira sobre como seria sua vida se conseguisse dedicar mais tempo à atividade.

Tantos sonhos fizeram o tempo passar rápido. Logo chegou a sexta-feira e na segunda seguinte, voltaria para a agência e sua vida normal.

Foi o que aconteceu. Os sonhos foram praticamente esquecidos enquanto usava sua brilhante criatividade artística para replicar os banners que surgiam em sua pauta de trabalho. Alguns atrasados da semana anterior.

Com tantos trabalhos para por em dia, essa semana também passou rápido.

Toda a equipe de criação resolveu fazer um happy hour para aproveitar a noite, que estava quente e agradável.

Fecharam uma garrafa de cachaça. Mesmo beliscando diversas porções de provolone e parmesão, depois de algumas doses, Rodrigo não conseguiu se segurar.

O álcool tinha diluído sua vergonha e ele começou a sapatear ao som de Anunciação do Alceu Valença. Fazia mãos de musicais de jazz, rodava com os joelhos no chão e ia até o banheiro andando de lado, tirando e colocando na cabeça uma cartola imaginária.

Desde esse dia, Rodrigo passou a ser conhecido pelo apelido de Nárnia: a cachaça, o queijo e o sapateado.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A difícil atualização da tecla "Foda-se".


Hoje de manhã, fomos correr com Barry White e Marvin Gaye, meus queridos vira-latas.

Sempre tive conhecimento de diversas fontes de adestramento e que é necessário um toque firme na coleira para controlar e educar o cão durante o passeio.

Como Marvin ainda não foi castrado, mesmo depois do exercício, ele ainda estava meio agitado. Corria, acelerava e queria ultrapassar o Barry que estava na frente. Por isso, eu o corrigia com o auxílio do toque na coleira. Até aí, tudo normal. Um desejo pela liderança de um cachorro na flor da puberdade esbanjando testosterona.

Eis que na rua, parou um sedan prata do meu lado com um senhor e uma mulher pouco mais nova e eles me chamaram.

Eu achei que eles queriam alguma informação. Aí, parei e me agachei para falar com eles.

Foi então que o homem me falou algo parecido com isto:

— Posso te pedir uma coisa? Não maltrate o cachorrinho. Ele é só um filhote! Se você não gosta, doa, mas não maltrata. Eu vi você puxando a coleira e enforcando o coitadinho.

Eu respondi:

— Imagina! Eu adoro eles... Isso é para correção.

— Mas você maltrata o cachorro. Ele é filhote!

Para não prolongar a conversa, abri um sorriso e respondi:

— Ok! Obrigado!

O carro foi embora e nós voltamos para casa.

Dessa cena, vieram as seguintes reflexões:

1 - Acho que tive a atitude correta de não prolongar uma provável discussão e resolver educadamente a história.

2 - Descobri que não sou tão zen assim. Momentos mais tarde, fiquei ofendido, chateado e puto da vida, ao pensar nessa intromissão do casal. A primeira coisa que pensei deles foi: eles devem ser do tipo que deixam o cachorro, ou os próprios filhos, reinarem sobre a casa e a vida deles. Mas parei de pensar dessa maneira, porque assim como eles, estaria julgando a situação e o mundo deles sem ter qualquer conhecimento.

3 - Depois até me senti culpado, pensando se eu estava realmente machucando o cachorro. Mas logo ignorei esse pensamento porque um cachorro escandaloso como o Marvin (meus vizinhos que o digam) não ficaria quieto se sentisse qualquer dor durante o passeio.

4 - Temos que tomar cuidado com o que lemos ou vemos na internet. Numa dessas, o cara poderia viralizar no Facebook uma foto minha, puxando o Marvin para perto de mim, com algum título que falasse de maus tratos de animais.

5 - Minha tecla "Foda-se" não está devidamente atualizada, porque fiquei me remoendo, a ponto de escrever este post, só por causa da opinião de um estranho idiota.


No fim, depois de divagar muito sobre o assunto, não tenho com o que me preocupar.

Marvin e Barry são saudáveis, brincalhões, carinhosos e adoram os humanos deles. Não há dúvidas disso.

Tentando ser zen novamente, posso até aplaudir o casal por essa preocupação e por terem coragem de falar com alguém sobre uma situação que os preocupou. Eles só escolheram a pessoa errada.

Segunda movimentada. A situação teria sido muito mais legal se o Marvin tivesse o impulso de mijar no carro deles, antes que fôssemos embora. Posso até imaginar uma cena assim.

De qualquer maneira, para eu não ficar engasgado com isso, uma mensagem final:

Prezado senhor do sedan prata e sua filha/esposa/companheira: vão tomar no cu.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Lâmpadas e coxinhas

A rotina diária pode não parecer uma grande luta, mas é difícil sobreviver a ela. Quando você vê, sua vida já está na mesmice, os anos vão passando mais rápido e de repente, vem o clássico arrependimento das decisões que você não tomou e das escolhas que foram feitas.

Rodolfo não tinha se dado conta disso. Reclamava para si mesmo todos os dias por ter que acordar cedo, ajudar sua esposa, colocar os dois filhos pequenos na perua do colégio e preparar o lanche deles. Tudo isso a partir das 5h da manhã.

Reclamar é um vício. Igual ao cigarro. Demanda tempo, energia, traz alívio em curto prazo a alguma angústia, mas é um hábito inútil se a pessoa está atrás de mudanças.

Bem como boa parte das pessoas, Rodolfo esperava alguma coisa mágica ou drástica acontecer para mudar sua vida. Tudo para fugir de sua própria responsabilidade pelo rumo das coisas. Por conta desse comodismo, chegou até a imaginar a morte de sua esposa e filhos. Só para poder reiniciar seu próprio mundo.

Visualizava o choque, o choro, o funeral, o consolo dos parentes e amigos, o período de luto e a recuperação triunfante. "Bom... Se ela me pedisse o divórcio, seria menos dramático, mas seria bem mais caro!" — pensava sabendo que não poderia compartilhar esse tipo de ideia com ninguém.

Nada é esperado quando se trata do destino. Sua família continuou viva e bem. Seu emprego no escritório de importação continuou o mesmo marasmo.

Um dia, em um raro almoço feliz de casual friday, foi arrastado com um grupo de amigos para um sex shop perto do escritório. Tinham tomado cerveja no restaurante e o álcool diluiu um pouco do pudor para facilitar o passeio.

Chegando lá, brincaram e tiraram sarro dos acessórios. A funcionária da loja até abriu sorrisos para a leve bagunça na loja. Rodolfo ficou imaginando suas colegas com as fantasias que elas pegavam dos cabides e experimentavam. Uniformes de colegiais japonesas, biquíni dourado da Princesa Leia e as clássicas roupas de couro sadomasoquistas.

Todos começaram a rir quando Rodolfo pegou o chicote da fantasia de dominatrix e disse: "É o Chirrin-Chirrion do diabo!".

Apontou o chicotinho para uma de suas colegas e falou:

— Biquíni da Princesa Leia, CHIRRIN!

Espanto. Todo o grupo ficou sem palavras. Inclusive a atendente da loja. A colega de Rodolfo imediatamente ficou com as roupas-fetiche da princesa.

Foi surpreendente porque ninguém nunca tinha usado um chicote sadomasoquista dessa maneira, e por um acaso bizarro do destino, era realmente o artefato demoníaco mostrado pela primeira vez numa história do Chapolim Colorado. 

Rodolfo ficou confuso. Questionou se estava bêbado. A leve simpatia alcoolica passou na hora. Depois se sentiu poderoso.

— Todo mundo nessa loja, CHIRRION! — gritou.

E todos sumiram. Não se sabe para onde foram. O espaço da loja ficou vazio. Só sobrou o chão e as paredes.

— Não gostava de ninguém aqui... Tudo Pra Você Importação Ltda. CHIRRION! — e fez o escritório em que trabalhava desaparecer com todos os funcionários que estavam no prédio.

Riu maleficamente. Pensamentos vingativos começaram a surgir. Foi quando teve uma brilhante ideia. Rodolfo fora assaltado duas vezes em sua vida: uma na rua e outra em que entraram em seu bar favorito durante um longo arrastão em Moema. Isso há uns três anos. Ele não sabia se a polícia tinha capturado os bandidos e teve medo de fazer o reconhecimento quando prenderam alguns suspeitos.

— Todos os bandidos que me assaltaram, algemados em cadeiras, CHIRRIN!

E surgiram. Cinco bandidos, amarrados em cadeiras e completamente confusos. Depois de se recuperar do espanto, Rodolfo falou:

— É... Vocês provavelmente não se lembram de mim. Mas eu sei exatamente quem é cada um de vocês. Hmmm... Os dois da esquerda me roubaram um celular quando eu voltava para casa. E vocês invadiram o bar que eu estava...

Os bandidos mantiveram o silêncio. Pareciam bem desorientados. Nenhum respondeu, apenas olhavam em volta para tentar descobrir onde estavam.

Não foi o susto do arrastão, tampouco o prejuízo material. A pior sensação do assalto para Rodolfo foi a impotência. Desde esse dia, ele ficou mais ansioso. Paranoico.

—  Coletes salva-vidas, CHIRRIN! — e todos os bandidos ficaram com um colete salva-vidas.

— Braços, pernas e cordas vocais, CHIRRION! — e todos os bandidos viraram cotocos mudos.

Rodolfo deixou os cinco na loja vazia e foi correndo buscar seu carro: uma Palio Weekend. Alguns minutos depois, conseguiu carregar o que sobrou dos bandidos até o porta-malas de seu carro. Entrou, deu partida, saiu e, com o chicote na mão, gritou:

— Testemunhas, CHIRRION! — Alguns transeuntes desapareceram.

Mais ou menos uma hora e meia depois, Rodolfo chegou com os desesperados bandidos no porto de Santos. Apontou o artefato para a água e disse:

— Barco, CHIRRIN! Testemunhas, CHIRRION!

Carregou cada um dos cotocos para dentro do barco e foi para alto mar.

— O olhar de vocês está impagável, galera. — disse Rodolfo, enquanto dirigia o barco. — Vale cada real de prejuízo que vocês me deram.

Desligou o motor do barco na distância em que não conseguia mais ver o porto. Um por um, Rodolfo jogou os bandidos sem braços, pernas e voz na água. Todos flutuaram devido ao colete salva-vidas.

— Boa sensação de impotência para vocês, pessoal! Até mais! — Ligou o barco e foi embora.

Foi um capricho. Mas Rodolfo era rancoroso demais e teve que fazer isso.

Chegando em terra novamente, passou a fazer seus novos planos com o Chirrin-Chirrion: criar seu atelier, tirar umas férias, viajar com a mulher e os filhos, ouvir mais música, ler mais livros... Opa! Peraí! Precisa de um artefato místico e demoníaco para poder fazer isso?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

São Joaquim

Há tempos que estava intrigado. Se imaginava em uma situação como no filme "O Show de Truman".

Na linha azul do Metrô, reparou que ninguém entrava ou saía do trem quando ele parava na Estação São Joaquim. Tentava identificar se eram sempre as mesmas pessoas que circulavam pela plataforma. Observava atentamente se apareceriam criaturas estranhas nos cantos.

De qualquer forma, não sabia o que procurar. Uma vaca malhada estacionada? Um cachorro-quente alado? Orcs à espreita nas quinas das paredes apenas observando o movimento? Um portal para São Tomé das Letras? A sala de controle do reality show da sua vida? A imaginação ia longe.

Estaria ficando paranoico? Não queria fazer psicoterapia. Achava que psicólogos eram apenas um bando de perdidos ajudando outros desorientados. Tinha esse preconceito. Acabava tendo vários outros por pensar demais.

Não era à toa. Ficava enjoado quando lia em movimento. Também não conseguia jogar games no celular ou acessar o Facebook. Por conta disso, fazia a viagem entre o Jabaquara e o Tucuruvi completamente entediado. Um tempo perdido de sua vida.

Andava meio frustrado. Estava decepcionado com seu novo emprego. Tinha acabado de ser contratado nessa nova empresa. Era muito perto do Metrô. O serviço era o que ele sabia fazer e o salário não era mau. O problema era o chefe: um pé no saco.

— Eu ejaculei na cruz mesmo! — pensou, puto da vida. Era segunda, estava tenso, apressado e o chefe não relevaria os possíveis 20 minutos de atraso no horário de hoje.

Apesar das encheções de saco do seu gestor, era o emprego ideal. Tinha talento e experiência para as atividades. Mesmo assim, queria empreender e ter um negócio próprio, mas faltava-lhe coragem. Fez uma enorme pesquisa de rentabilidade de franquias. Tinha se interessado por uma que vendia relógios de pulso personalizados.

Mas como começar algo novo? O trabalho atual pagava bem suas contas, mas não permitia guardar muito dinheiro. Como largar essa pseudo-estabilidade para entrar em um território totalmente desconhecido? Será que ele ia gostar da vida de empresário?

Eram muitas questões de grandes consequências e mudanças. Até então, normal. Uma decisão dessas não é tomada por impulso. O que realmente estava incomodando era que o sujeito se sentia um grande covarde.

Sentir-se assim fez com que tivesse uma revelação ainda mais incômoda. Ele passou a perceber o quanto era parecido com as pessoas que ele não admirava. 

Criticava uma prima solteirona que tinha vários talentos, mas que não os aproveitava. Ela ficava em depressão em casa, cultivando a hipocondria, neuroses e aproveitando os rendimentos da herança que recebera do pai. Ele a via como uma perdedora. Mas ficar em um emprego que, toda segunda-feira de manhã, o fazia suspirar de desgosto é uma vitória? Não é apenas outro tipo de acomodação?

Detestava o comportamento de um amigo, que nunca assumia as próprias responsabilidades. Esse cara sempre encontrava um culpado para tudo que dava errado na vida. Seguia fielmente a frase de Homer Simpson: "Se alguma coisa é difícil demais, então não vale a pena fazer".

Sem que esse amigo soubesse, deu-lhe o apelido de "Madre Teresa". Tudo porque o sujeito é cego para os próprios defeitos: nunca admitia ter preguiça, inveja, ou até mesmo desejar ou falar mal de alguém. Alcançara a perfeição pela cegueira.

Sentado no banco marrom do metrô, nosso protagonista pensava no quanto seu próprio mundo era perfeito pela cegueira. O que ele estava deixando de enxergar que deixava sua vida assim?

— Próxima estação: São Joaquim. Desembarque pelo lado direito do trem. — disse a voz nos altofalantes.

Pensou: "Foda-se! Já estou atrasado. Vou descer aqui mesmo para ver o que acontece!". E o fez.

Na plataforma, tudo certo. Seguiu até as escadas rolantes. Subiu, passou pelos bloqueios e foi em direção à saída.

De repente, sentiu uma enorme força o puxando progressivamente. Primeiro a ponta dos pés, joelhos, quadril, abdome, tórax e cabeça. Incontrolável. Era o vácuo vindo de um buraco negro.

Seus olhos não acreditaram no que viam: um fundo preto, estrelas, átomos circulando e cometas dourados em alta velocidade. Quando sentiu que o ar estava rarefeito, olhou para a direita e viu um cardume de sete peixes-lontra em uma formação de voo igual a de patos selvagens. Na esquerda, uma chuva de cabeças do Régis Tadeu gritando: "Eu odeio Manowar!" em contraponto de terças.

De repente, tudo apagou. O buraco negro o sugou completamente. Mas claro, pode ser que ele só tenha sido nocauteado ao escorregar em uma poça d'água e batido a nuca na calçada.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Insônias aleatórias

Já passava das 23h. Estava lá, deitado na cama. Carlos chamava essas crises de "insônias aleatórias". Não tinham dia, nem critério e tampouco frequência para aparecer. Nunca chegou a procurar um médico para ver o que era isso. Tinha se acostumado.

Sua esposa já estava no 30º sono. Dormia tranquila ao seu lado. Ele estava feliz com ela. Depois de se entediar com o ritmo das luzes do celular se projetando no teto, passou a prestar atenção nela. Lembrou do dia em que se casaram, do primeiro encontro, início do namoro e das vezes em que saíram para se conhecerem melhor.

E por aí foi. Uma coisa levou a outra. Ao pensar em como tudo deu certo entre ele e sua esposa, passou a recordar todos os encontros desastrosos que passara na vida. Alguns nem foram tão ruins assim, mas teve um em especial que marcou demais.

Lá para o meio de 2006, ele tinha acabado de comprar seu carro. O nome da garota era Sabrina. Uma amiga da ex-namorada de um brother. Tinham se conhecido em uma baladinha qualquer.

Seria a estreia do Corsa como "abatedouro". Carlos se dava bem com Sabrina. Trocavam e-mails quase que diariamente sobre diversos assuntos. Às vezes, apenas com um "Oi, tudo bem?" na parte da manhã, a conversa se estendia pelo resto do expediente. O e-mail corporativo deles era praticamente um instant messenger.

Daí até marcarem de sair juntos, levou algumas semanas. Uma cantora de jazz faria um show no SESC Vila Mariana na ocasião. Carlos então, chamou Sabrina para assistir. Ela aceitou.

Sem GPS no celular e novo na carta de motorista, Carlos fez um estudo prévio para sair de seu trabalho na Lapa e buscar Sabrina no apartamento dela, em Moema. Durante o dia, entrou no Google Maps e falou com colegas que moravam na região. Tudo para não errar o caminho nem se atrasar.

Estava ansioso, mas tomava água para se acalmar. Tinha separado uma camisa para usar no encontro. Deixou um desodorante e um perfume na primeira gaveta de sua mesa. Comprou uma rosa colombiana para dar de presente a Sabrina.

Em paralelo a isso, fez tudo que tinha que fazer no trabalho em um ritmo alucinante. Terminou perto das 18h30, pontualmente no horário que tinha calculado para sair.

Desligou o computador, guardou suas coisas na mochila, pegou as impressões do Google Maps e saiu.

Dali para Moema, optou pelo caminho Marginal Pinheiros-Bandeirantes. Trânsito lento, mas tudo dentro dos cálculos de tempo que tinha estimado.

A única coisa que Carlos não previra era que a quantidade de água que bebeu durante o dia lhe causaria problemas logo naquela hora. Uma fortíssima vontade de mijar veio de repente, sem qualquer indício ou aviso prévio.

E o trânsito parado.

Ele começou a respirar fundo. A saída da Bandeirantes estava perto. Era só não se concentrar na própria bexiga. O carro avançou mais alguns metros. Carlos começou a dançar no banco. Dava pequenos e rápidos pulinhos usando apenas a força da bunda.

Pensou desesperado: "Puta merda! Chegar no encontro mijado é de cair o cu da bunda!". Começou a planejar uma visita rápida a alguma loja de roupas pelo caminho. Só para comprar um novo par de calças jeans.


Mais alguns metros. Finalmente! Entrou à direita e conseguiu andar um pouco mais rápido. Parou no primeiro boteco que encontrou, quase tropeçou no cinto de segurança que enroscou em seu tornozelo enquanto descia do carro e fechou a porta. Nem viu se estava parado em local proibido ou se tinha fechado o carro.

— Posso usar seu banheiro? Por favor! — pediu em tom de súplica para o homem no balcão.

— Opa! — respondeu o barman.

Ufa. Foi uma longa mijada. Alívio imediato. Lavou as mãos, agradeceu ao barman e voltou para o Corsa.

Mais tranquilo, conferiu as impressões do Google Maps e continuou seu caminho em direção à casa de Sabrina.

Chegou. Parou o carro na frente do condomínio e ligou de seu celular para ela. Alguns minutos depois, ela desceu. Carlos a esperou do lado de fora do carro, com a bela rosa colombiana na mão.

Ele a cumprimentou com um beijo no rosto. Sabrina agradeceu:

— Ai! Obrigada! Adorei meu presente! — disse sorrindo e cheirando a rosa.

Entraram no carro, conversaram sobre como o dia tinha sido e foram em direção ao SESC. Ou pelo menos, era o que Carlos achava.

Ele cometeu um erro básico. Na pressa, imprimiu as orientações para o local do show com origem em seu trabalho na Lapa, e não no endereço de Sabrina. Como não sabia andar por aquela região, acabou se perdendo. E ficou nervoso.

Sabrina ainda olhava para a rosa e continuava a conversa, mas Carlos não a ouvia. Ele quase suava frio tentando reconhecer alguma rua. Ele seguia em frente como se soubesse para onde estava indo.

Até que não teve jeito. Carlos precisou perguntar:

— Hã, Sabrina? Você sabe voltar para a 23 daqui? — a 23 de maio seria um bom referencial para Carlos se orientar.

— Humm... Deixa eu ver... Entra na próxima esquerda... Não, a segunda à esquerda...

— A primeira ou a segunda? — perguntou Carlos, ainda disfarçando o nervosismo.

— A segunda!

Passaram pela primeira rua, na segunda, perceberam que era contramão.

— Xii... Então é a terceira ou a quarta... — disse Sabrina, em tom de dúvida.

— Entro agora na terceira?

— É... Não sei. Acho que a 23 está para a esquerda.

— ENTRO NESSA OU NÃO?!

Com o aparente descontrole de Carlos, o silêncio imperou no carro por alguns segundos constrangedores, que pareciam uma eternidade. Até que Sabrina falou:

— Entra na próxima e vamos descobrir. Eu sou só uma menina do interior. Também não sei andar por aqui direito.

Hoje, Carlos tem mais claro na mente que, naquele preciso momento, suas chances de sucesso com Sabrina caíram para -50. Ele nem se lembra como conseguiram chegar ao SESC, assistir ao show e ainda jantar.

Sua memória pode ter exagerado na intensidade do descontrole. Mas tudo bem. O sono finalmente chegou. Carlos deu uma risada silenciosa, bocejou e virou para o lado de sua esposa. Dormiu até o despertador tocar, umas horas depois.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

De Lorean Creative Solutions Ltda.

Lá estava Gustavo. Sentado de frente a uma fogueira assando um besouro que tinha encontrado. Era o jantar mais farto desde a grande tragédia, há três semanas.

Estava faminto. Pensar que fazia dois meses que tinha sido chamado para ser estagiário da agência De Lorean Creative Solutions Ltda. Depois de um longo processo seletivo, fora escolhido para a área de atendimento.

Antes que todos pudessem perceber o avanço tecnológico, a viagem no tempo já era possível. Dos estudos finais até a utilização banal foi uma evolução muito rápida. As agências de publicidade foram as primeiras a adotar as máquinas do tempo como ferramenta de trabalho.

Problemas de prazo, entregas, pressão. Era uma solução perfeita. A expressão "esse trabalho é para ontem" passou a fazer sentido.

A De Lorean foi pioneira. Os gerentes de projeto amaram a ideia. Os clientes, mais ainda.

As duplas criativas trabalhavam da seguinte maneira: o job complicado chegava com um prazo apertado. O diretor de arte e o redator definiam o tempo para a execução do trabalho. Podiam demorar o quanto precisassem para uma entrega de qualidade.

Ao terminar o trabalho, mesmo que muito atrasado, os funcionários do atendimento faziam a viagem no tempo para apresentar, aprovar e veicular as peças na data que tinha sido estipulada.

O único cuidado especial que devia ser tomado era para não desorganizar a agenda dos gerentes do projeto. Mais uma função que deveria ser incorporada nas planilhas de cronograma.

Alguns simplesmente incluíram a coluna "EVT" (Entrega com Viagem no Tempo) ou "EMT" (Entrega com Máquina no Tempo). Tudo era uma questão de planejamento.

Quando passou no processo seletivo, o RH e os gestores de área definiram que o melhor lugar para Gustavo era no departamento de atendimento, auxiliando na administração das contas de varejo.

Gustavo estava feliz. Era uma grande oportunidade. Trabalharia em uma das maiores agências do país. Uma empresa que tinha crescido muito nos últimos anos. A De Lorean duplicou o faturamento com a conquista dos primeiros clientes que buscavam a solução da máquina do tempo.

A viagem temporal, principalmente no período de implantação, era um típico serviço para estagiários. Era necessário vestir uma roupa especial protetora. O material era amianto porque, durante as viagens, havia o risco de combustão espontânea.

Funcionava assim. Havia uma estrutura de metal cilíndrica, de 2 m de altura por 1,60 m de diâmetro.

A cabine tinha um painel eletrônico, com um teclado numérico onde eram digitados a data-destino e o horário. Devido à perda de dois estagiários por erros de digitação, foi estipulado como medida de segurança que a data limite para viagem seria 10/6/2010, dia em que a ferramenta fora implantada na agência. Assim, quem viajasse teria um meio de retornar ao seu tempo de origem.

Em resumo, assim que entrava na cabine, o viajante do tempo era submetido a micro-vibrações muito rápidas. Vibrava tanto que acontecia uma desestabilização molecular, assim, o grupo de moléculas era deslocado no sentido contrário de rotação da Terra, até a data desejada. A combustão nas primeiras viagens vinha do atrito com o ar no início da micro-vibração.

Enfim. O problema estava resolvido. Gustavo já estava se acostumando com as viagens. No começo, sentia um pouco de náuseas. Nada demais. Quando chegava no "tempo de entrega", era necessário apenas dar a seu chefe o pendrive com as peças e depois, voltar à máquina do tempo.

Tudo muito simples.

As coisas começaram a mudar quando a De Lorean venceu a concorrência de sua primeira conta imobiliária: Pássaros de Goiânia Construção e Vendas. O cliente, atraído pela maravilha da viagem no tempo, optou sem pestanejar pela agência.

Com um gordo fee, o maior da casa, a conta tinha muitos poderes e privilégios sobre os funcionários da De Lorean. Por causa disso, todos foram muito imprudentes na utilização das EVT's.

Um e-mail marketing. Algo muito simples que teve consequências desastrosas para o planeta.

A peça, que informaria o mailing de um evento em conjunto com a Caixa Econômica, conteria uma lista de empreendimentos que estariam em promoção e ótimas condições de financiamento. Contando com a EVT, o prazo já estava apertado. O trabalho entrou na agência na quinta-feira. O evento seria no sábado.

Na própria quinta, depois das 19h, a dupla criativa finalizou o trabalho.

Primeira alteração na sexta: a medida de um dos residenciais, o Jardim de Lírios com Orvalho, estava errada. Não eram 82 metros quadrados, e sim 70. Gustavo voltou para quinta-feira às 19h para refazer a entrega.

Segunda alteração na segunda-feira seguinte: o cliente não gostou de uma das cores no layout. Não estava vendedor. Era necessário passar mais alegria e esperança em um evento que oferecia uma oportunidade singular de compra de imóveis. Lá foi Gustavo de novo para a quinta-feira às 19h com o pendrive de alteração.

Terceira mudança, na segunda ainda na parte da tarde: o fundo do logo parecia estar prata, quando, na verdade, deveria ser cinza. Isso ia contra as especificações do guide. "Vai lá, Gus!".

Quarta alteração: trocar a palavra "imóvel" para "apartamento" em todo o e-mail. O enjoo que Gustavo sentia nas primeiras viagens até voltou a atacar seu estômago.

Quase uma semana depois da primeira entrega do job, veio o último pedido de alteração. E foi realmente o último. Pena que não deu tempo de aprender com esse erro: alterações e viagens no tempo formavam uma destrutiva combinação.

Enquanto Gustavo viajava, no formato de um agrupamento de moléculas soltas a grande velocidade, acabou se encontrando com dois outros Gustavos viajantes de outras alterações.

Houve um choque molecular e atômico, similar ao experimento no Grande Colisor de Hádrons, que desestabilizou os nêutrons e gerou a maior explosão atômica já documentada. O cogumelo de fumaça poderia ser visto da Lua.

A explosão varreu a vida na superfície da Terra. Sobraram apenas baratas, alguns insetos e um Gustavo, que surgiu na cabine da máquina do tempo após a estabilização de tudo.

Ele encontrou um mundo pós-apocalíptico típico. Deserto, sem luz e, até onde se sabia, sem zumbis.

No fim, só lhe restava torcer que a Emma Watson também estivesse viva para ajudar a repovoar o mundo.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Justiceiro Cotidiano

Edu sempre sonhou ser um super-herói.

Desde os 15 anos até hoje, com 30, ele aleatoriamente testa se seus super poderes vão se manifestar.

Pode ser na hora do almoço, no ponto de ônibus, em uma caminhada qualquer ou até mesmo nos corredores do escritório. Ele olha para os lados, escolhe um alvo e estica seu braço direito em direção a ele. Às vezes com o punho fechado, outras com a mão aberta.

E fica lá alguns segundos esperando o disparo de algum raio incandescente, um kamehameha, hadouken ou mesmo uma descarga da eletricidade estática.

Em outras oportunidades, Edu tenta mover objetos de metal com seus supostos poderes magnéticos. Qualquer habilidade mutante serviria.

Quando está parado em um engarrafamento na Berrini com seu Fiesta, logo se imagina em um voo vertical, que rompe o teto do carro. E abandona todo aquele trânsito para rasgar o céu em alta velocidade até sua casa. Só volta para a realidade quando lembra que, se tivesse tais poderes, não precisaria comprar um carro e pagar em 72 prestações.

Essa imaginação fértil, paixão por quadrinhos e animes, não era muito proveitosa em sua adolescência. Hoje em dia, qualquer um que o analisasse diria que ele sofria bullying e que estaria muito perto de entrar em alguma escola armado de metralhadoras, com a cueca por fora da calça, atirando em todos e gritando: "por Crom, Ishtar e Mithra!".

Como a maioria dos nerds nascidos nos anos 80, Edu cresceu bem. Apesar de seus surtos de imaginação a la "Mundo de Bobby", ele amadureceu, tem um emprego, namorada e amigos.

Bom. De perto, ninguém é normal.

Edu encontrou um jeito de se tornar super herói. Mesmo com suas limitações.

Tornou-se o poderoso Justiceiro Cotidiano. Nada de sair por aí mascarado. Tampouco, pular de prédio em prédio — após os 25, estava bem menos ágil com sua barriga de cerveja. Não tinha equipamentos, cinto de utilidades, nem mesmo uma central de operações secreta.

Simplesmente fazia seus movimentos para resolver qualquer injustiça que encontrasse no caminho.

Uma vez, lá pelas 8h da manhã, em um de seus engarrafamentos diários da Berrini, um carro da autoescola local começou a atrapalhar todo o fluxo da faixa da direita. A menina, que estava em aula, deixou o carro morrer. Com as bochechas vermelhas, ligava o carro, mas quando ia sair em primeira marcha, deixava o Golzinho morrer de novo.

O instrutor respirava fundo, impaciente. O carro de trás começou a buzinar. Tudo isso só aumentou o aparente nervosismo da garota. Que falhou mais três vezes ao dar partida no veículo.

Edu não pensou duas vezes. Parou o Fiesta ao lado do carro da autoescola, engatou a primeira marcha e "assassinou" seu carro. Deixou morrer de propósito. Recebeu suas buzinadas, mas as ignorou. Olhou para a garota, sorriu e deu partida novamente. Ela retribuiu o sorriso, se acalmou e conseguiu sair pouco depois.

Esse dia fora movimentado. Alguns metros à frente, um passageiro do ônibus jogou um copo vazio de água mineral pela janela. O copo tinha peso para ser arremessado porque também continha lenços de papel amassados e cheios de ranho, uns oito ou nove, todos juntinhos no recipiente.

Os reflexos de Edu para a nova vida de herói estavam aguçados. Nem sei como ele conseguiu ser tão rápido. O fabuloso Justiceiro Cotidiano subiu a guia rebaixada, parou o Fiesta na calçada do posto de gasolina, ligou o pisca-alerta, desceu do carro, pegou o copo da calçada e o atirou de volta no ônibus com incrível precisão.

Gritou:

— PORCO! — e voltou correndo para o Fiesta.

Mesmo com o trânsito lento, foi uma grande façanha. Edu acertou a bochecha direita de seu alvo e retomou o caminho para o escritório, sem atrasos.

Durante o expediente, tudo correu normalmente. Mesmo para Edu. Ele terminou todas suas atividades no horário. Era sexta e tinha um happy hour marcado. Deixaria o Fiesta no estacionamento da empresa e iria de trem até a Vila Olímpia. Ia só tomar umas cervejas e esperar a bebedeira passar antes de pegar novamente seu carro.

As estações de trem, na hora do rush, têm várias potenciais injustiças. O Justiceiro Cotidiano não poderia deixar nenhuma passar batida.

Depois de passar pelos bloqueios, Edu viu o elevador para deficientes com uma enorme fila. No meio dela, um idoso aguardava sua vez em meio a várias outras pessoas aparentemente preguiçosas.

Edu, entrou na fila, pegou no braço do velhinho e o conduziu até a porta do elevador. Após parar com o homem lá, virou para as outras pessoas e falou:

— Gente, preguiça não é necessidade especial. Vamos todos fazer exercício, descer as escadas. Abaixo o sedentarismo! Vamos lá! Ilari lari ê!

Acho que carisma era um dos super poderes de Edu. As pessoas da fila imediatamente saíram da frente do elevador e se dirigiram pelo caminho comum até a plataforma. Uma parte sorrindo, outra parte, constrangida. Mas foram.

Empolgado, o Justiceiro Cotidiano continuou com suas imediatas missões. Na escada rolante, tocou no ombro de dois usuários que estavam parados do lado esquerdo.

— Senhor, fique na direita e deixe os apressados descerem por aqui.

— Moça, com licença! Fica na direita? Obrigado!

E continuou feliz e satisfeito com sua carreira de super-herói. Começou a viajar: se imaginou comprando uma passagem para o RS só para dar uma surra na mulher que incentivava o filho a bater no filhote de poodle. Ele levaria um Mastim Napolitano apenas para fazer terror psicológico, enquanto daria tapas de costas de mão na cara daquela escrota. Seria um upgrade na carreira de super-herói.

O devaneio não durou muito tempo. Logo, viu um homem segurando a porta do vagão para que seus amigos, apressados e atrasados na escada, pudessem entrar no mesmo trem. O rapaz estava com a bunda empinada para fora. Provavelmente, chegou correndo e conseguiu segurar a porta com a mão direita.

Edu, que também corria para entrar no mesmo trem, achou injusto com os passageiros que estavam lá dentro. Então, chegou no cara que estava na porta, agarrou-o pela camiseta e o puxou de volta para a estação pelo cinto, em um tranco só.

Aplausos de dentro do trem.

Edu sorriu, deixou o trem partir e acenou para os usuários. Mas a felicidade de mais uma missão cumprida durou pouco.

O cara que segurava a porta ficou emputecido com a cena e deu um cruzado de direita no queixo do Justiceiro Cotidiano.

Foi a última missão do nosso herói. Hoje, ele se contenta em brincar com portas automáticas de shopping. Edu finge que está usando a telecinese para abri-las e fechá-las.