Todas as segundas e quartas, tem o curso de pós-graduação em Psicologia Hospitalar.
Clarice se formou na faculdade em 2002. Por conta das oportunidades disponíveis no mercado, iniciou um estágio em Recursos Humanos no segundo ano, mas nunca abandonou seu sonho de ser psicóloga na área da saúde.
Por conta desse desejo, mesmo na época em que estagiava e era efetivada no RH da Pássaros de Goiânia Construção e Vendas, fez quatro pós-graduações: uma em Psicologia da Saúde, outra em Psicossomática, além das especializações em Psicanálise moderna e Psicopatologia de Lacan.
E ia para a nova pós todas as segundas e quartas. Sempre com seus óculos de armações grossas azuis, seus cabelos soltos, na altura dos ombros, com reflexos loiros e seu tablet com teclado físico. Tinha uma coleção de sapatos sociais com um saltinho de 5 cm que combinavam com outro conjunto de terninhos sociais.
Chegava às aulas geralmente com um pão de batata, mas dependendo da pressa (e das nóias com o peso) às vezes recorria a seu estoque de barrinhas de cereal, que sempre comprava em um atacadista perto da empresa.
Cinco anos de faculdade até 2002, mais quase 10 anos de pós-graduações, e ainda assim Clarice continuava pensando em descobrir um manual de instruções ou guia infalível ilustrado para o comportamento humano.
Assistia demais a séries como "House", "The Mentalist", "Bones" e "Lie to me". Achava que conseguia reparar nos mesmos detalhes que os protagonistas dos seriados, tanto em entrevistas de processo seletivo na Pássaros de Goiânia, quanto em seus escassos atendimentos psicoterapêuticos.
Apesar do forte barulho "toc-toc" que seus sapatos faziam no chão a cada passo que dava, Clarice parecia flutuar no ar. Fazia questão de olhar nos olhos das pessoas com quem conversava.
A máscara de psicóloga clínica nunca saía de seu rosto. No trabalho, quando atendia a algum funcionário da empresa, tinha o seguinte ritual:
— Bom dia, Clarice! Posso tirar uma dúvida com você?
— Claro! — respondia. E tirava os óculos, deixava sobre a mesa e colocava a mão direita no queixo, com o dedo indicador na sua bochecha apontando para a orelha. Era um detalhe importante que tinha lido em um livro de linguagem corporal: seu dedo indicava o ouvido para mostrar que estava aberta a ouvir.
Enquanto falavam com ela, Clarice fazia uma expressão facial de profunda reflexão sobre o que a pessoa estava dizendo. Franzia a testa, sorria e acenava discretamente com a cabeça para mostrar concordância. Quando necessário, também fechava levemente os olhos e contraía a boca. Tudo dependia do assunto tratado. Ela tinha um leque enorme de expressões para incentivar quem estava falando.
Quando Clarice se formou na faculdade, passou a sentir que podia conversar de igual para igual com seus professores. Agora, eles são colegas de trabalho. Uma postura que digamos, tumultuou todas suas aulas em todos os cursos de pós-graduação que fez.
Porém, a gota d'água foi na última quarta-feira.
O professor discutia um caso clínico de outra aluna com a sala de aula. Em algum momento, ele pediu para a aluna investigar melhor o caso com o paciente.
Citou uma recente pesquisa relacionada ao assunto. Os resultados do trabalho em questão denunciavam várias inconsistências nos comportamentos e reações do paciente da aluna. No caso, ele seria uma gigante exceção a uma forte tendência comportamental.
Claro. Exceções podem ocorrer. Pesquisas não são manuais de comportamento humano. O professor pediu apenas para a aluna investigar melhor. E ela aceitou o conselho.
O problema foi quando Clarice resolveu se meter no debate. Parte por necessidade de autoafirmação, parte por não respeitar muito aquele colega de trabalho que ministrava aulas. Contou um caso clínico parecido e questionou:
— Quer dizer que ela não pode acreditar no paciente dela? E a relação de confiança? Comigo aconteceu algo bem parecido! — a ironia aqui é Clarice ser fã de House, que afirma: "everybody lies!".
A discussão continuou por alguns minutos. Na cabeça de todos, a balança pesava: trabalho de pesquisa internacional X crazy bitch com três casos clínicos na carreira.
E prosseguiu. Duas alunas aproveitaram para ir ao banheiro. O professor bufava. A mais novinha do curso dormia na cadeira. Outra mulher acessava ao Facebook.
O único homem da sala, com 1,90 m de altura, ficou puto. Levantou da cadeira dele e foi em direção à Clarice.
Como um príncipe, levantou-a nos braços.
E como um ogro, jogou-a pela janela da sala de aula, no corredor da universidade.
Ele foi expulso do curso. Clarice vai voltar na segunda seguinte.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Testosterona
Luiz é um quase famoso lutador de MMA, conhecido apenas por alguns entusiastas do esporte.
Continua invicto no circuito que participa. O cara é faixa preta 5º dan em Karatê Shotokan, Jiu-jitsu e treinara alguns anos de Hap-ki-do.
Luiz sempre foi baixinho e seu pai sempre lhe deu o mesmo conselho para evitar que tivesse problemas com bullies:
— Se alguém aprontar alguma coisa com você, revide logo na primeira vez. Lembra o Sr. Barriga? Em algum momento, o Seu Madruga deveu apenas um mês de aluguel. Foi o próprio Sr. Barriga que deixou a dívida chegar a 14 meses.
E matriculou Luiz em uma academia de Karatê, que por sorte, adorou as aulas. Pouco a pouco, Luiz foi se tornando um mestre da arte. Executava os katas com perfeição e era imbatível no kumitê.
Seu futuro nas artes marciais era inevitável. Após conquistar a faixa preta no Shotokan, o próximo estágio foi aprender jiu-jitsu, arte que treinou com muita dedicação.
Claro que existe talento envolvido, mas Luiz era fissurado no esporte. Treinava todos os dias, mesmo quando não tinha aula. Praticava mais de 100 vezes cada tipo de chute. Filmava a si mesmo fazendo os katas para aperfeiçoar os movimentos.
Com a popularização do MMA, não deu outra: Luiz mostrou-se empolgado e investiu na carreira. É conhecido como o Impala Maldito.
Ironias a parte, Luiz é gay. Ninguém acreditou quando ele assumiu sua orientação. A primeira luta após a "saída do armário" foi polêmica.
Fábio "Pé-de-aríete" Johnson provocou bastante. A homofobia foi perfeitamente aceita como forma de intimidação. Gritou na coletiva e pesagem:
— Esse viadinho pensa que vai me vencer? Eu vou destroçar esse cara! A bundinha dele vai até pedir mais de tanto que vou foder a vida dele! Isso aqui é esporte pra homem, cara!
Luiz deu de ombros, beijou a palma da própria mão e assoprou o beijo para Fábio, que ficou emputecido. O adversário teve que ser segurado por sua equipe. Aquele drama todo. No fim, foi bom: toda essa cena chamou a atenção da imprensa.
A luta teve uma boa cobertura da mídia. Dedicado como era, o resultado não poderia ser outro. Luiz venceu com um nocaute ainda no fim do primeiro round. Sua baixa estatura facilitou a desferir os socos em curta distância, que pegaram no queixo e têmporas de Fábio. O adversário chegou a convulsionar um pouquinho quando caiu desacordado no chão.
Após a vitória, ainda no octógono, Luiz pegou o microfone e falou irônico:
— Bom, e que fique sempre marcado na carreira dele: foi destruído pelo viadinho! Chupa! — e saiu do ringue.
Na segunda seguinte, Luiz "Impala" era o grande assunto nas redes sociais, assim como o Nick Newell tinha sido meses antes.
Inúmeros posts sobre homofobia foram publicados. Perguntavam: quem é macho de verdade?
Luiz respondeu em seu Facebook: "Meu pai sempre me disse que era importante eu ser macho, lutar pelo que acredito até o fim e nunca deixar chegar aos '14 meses de aluguel'. Se é assim, eu acredito que sou o mais macho que existe. Estou invicto há 10 lutas, tive coragem de revelar minha homossexualidade no universo MMA e de apresentar meu namorado à toda minha família no reveillon. É o que sou e não tenho medo disso. Acho que todo mundo tem medo de aceitar o que é. Só que coragem não é ausência de medo. É agir apesar do medo.".
O bum durou mais algumas semanas. A carreira do Impala continua. Sua luta também. Ele ainda é um dos seres humanos mais machos que já existiram, e não é porque luta MMA.
Continua invicto no circuito que participa. O cara é faixa preta 5º dan em Karatê Shotokan, Jiu-jitsu e treinara alguns anos de Hap-ki-do.
Luiz sempre foi baixinho e seu pai sempre lhe deu o mesmo conselho para evitar que tivesse problemas com bullies:
— Se alguém aprontar alguma coisa com você, revide logo na primeira vez. Lembra o Sr. Barriga? Em algum momento, o Seu Madruga deveu apenas um mês de aluguel. Foi o próprio Sr. Barriga que deixou a dívida chegar a 14 meses.
E matriculou Luiz em uma academia de Karatê, que por sorte, adorou as aulas. Pouco a pouco, Luiz foi se tornando um mestre da arte. Executava os katas com perfeição e era imbatível no kumitê.
Seu futuro nas artes marciais era inevitável. Após conquistar a faixa preta no Shotokan, o próximo estágio foi aprender jiu-jitsu, arte que treinou com muita dedicação.
Claro que existe talento envolvido, mas Luiz era fissurado no esporte. Treinava todos os dias, mesmo quando não tinha aula. Praticava mais de 100 vezes cada tipo de chute. Filmava a si mesmo fazendo os katas para aperfeiçoar os movimentos.
Com a popularização do MMA, não deu outra: Luiz mostrou-se empolgado e investiu na carreira. É conhecido como o Impala Maldito.
Ironias a parte, Luiz é gay. Ninguém acreditou quando ele assumiu sua orientação. A primeira luta após a "saída do armário" foi polêmica.
Fábio "Pé-de-aríete" Johnson provocou bastante. A homofobia foi perfeitamente aceita como forma de intimidação. Gritou na coletiva e pesagem:
— Esse viadinho pensa que vai me vencer? Eu vou destroçar esse cara! A bundinha dele vai até pedir mais de tanto que vou foder a vida dele! Isso aqui é esporte pra homem, cara!
Luiz deu de ombros, beijou a palma da própria mão e assoprou o beijo para Fábio, que ficou emputecido. O adversário teve que ser segurado por sua equipe. Aquele drama todo. No fim, foi bom: toda essa cena chamou a atenção da imprensa.
A luta teve uma boa cobertura da mídia. Dedicado como era, o resultado não poderia ser outro. Luiz venceu com um nocaute ainda no fim do primeiro round. Sua baixa estatura facilitou a desferir os socos em curta distância, que pegaram no queixo e têmporas de Fábio. O adversário chegou a convulsionar um pouquinho quando caiu desacordado no chão.
Após a vitória, ainda no octógono, Luiz pegou o microfone e falou irônico:
— Bom, e que fique sempre marcado na carreira dele: foi destruído pelo viadinho! Chupa! — e saiu do ringue.
Na segunda seguinte, Luiz "Impala" era o grande assunto nas redes sociais, assim como o Nick Newell tinha sido meses antes.
Inúmeros posts sobre homofobia foram publicados. Perguntavam: quem é macho de verdade?
Luiz respondeu em seu Facebook: "Meu pai sempre me disse que era importante eu ser macho, lutar pelo que acredito até o fim e nunca deixar chegar aos '14 meses de aluguel'. Se é assim, eu acredito que sou o mais macho que existe. Estou invicto há 10 lutas, tive coragem de revelar minha homossexualidade no universo MMA e de apresentar meu namorado à toda minha família no reveillon. É o que sou e não tenho medo disso. Acho que todo mundo tem medo de aceitar o que é. Só que coragem não é ausência de medo. É agir apesar do medo.".
O bum durou mais algumas semanas. A carreira do Impala continua. Sua luta também. Ele ainda é um dos seres humanos mais machos que já existiram, e não é porque luta MMA.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Dog person
Embora eu goste muito de gatos, entendo que as pessoas me rotulem de "dog person".
Invejo os cães. Nunca escondi isso. Acho que realmente temos muito o que aprender com eles e estou sempre tentando tirar lições ao observá-los.
Faz meses que observo a relação de meus dois vira-latas, Barry White e Marvin Gaye.
O Marvin chegou dois anos depois de termos adotado o Barry e a relação entre eles é muito engraçada.
No começo, fiquei bem preocupado com as brigas. Confesso que não entendia os motivos. Não sei bem o que eles "conversam", nem que mensagens passam um ao outro.
O ponto é que, no resto do tempo, eles se dão bem, brincam e relaxam juntos.
Aí, veio a reflexão. A gente imagina que o relacionamento ideal é aquele tranquilo em que tudo dá certo, como nos grandes clichês das propagandas de margarina.
Os cães me ensinam todos os dias que a crueza da realidade no mundo não é tão ruim quanto os humanos pintam.
Fazendo a devida conversão, pessoas brigam. É inevitável.
A lição aqui é a maneira como os cachorros lidam com isso. Alguns vão dizer que eles têm aquela felicidade exagerada porque são ignorantes. Eu discordo.
Acho que cães são felizes por conta da relação deles com o tempo.
Não importa que o Barry mordeu o pescoço do Marvin em algum momento da tarde de ontem e doeu. Eles vão brincar hoje e vão se divertir.
O Barry não fica pensando se o Marvin vai roubar seu brinquedo amanhã. Ou se vai precisar dar uma mordida nele daqui a um mês.
Nenhum deles fica se remoendo por algo ruim que aconteceu ou por preocupação com algo de ruim que pode estar por vir. Simplesmente vivem o presente.
Gato ou cão, já parou para imaginar o que você pode aprender com seu bicho de estimação? O que você acha que ele teria para te dizer? Qual conselho ele te daria? O que ele faria no seu lugar?
Imaginar essas respostas ajudam bastante no meu dia a dia.
Mesmo que a solução possa ser: "OLHA! UM ESQUILO!". Até dá para tirar uma lição importante. Questão de interpretação.
Faça o teste!
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Nárnia?
Rodrigo era motion designer em uma agência de publicidade online. Um cara descolado. Tinha em seu guarda-roupas 15 camisas xadrez de diversas cores. Era seu plano de emergência para ficar sem usar a máquina de lavar por uma quinzena e ainda assim, não repetir roupas no trabalho.
As calças jeans ele repetia. Mais de 3 vezes por semana. Não havia problemas. "Elas não sujam mesmo!" — dizia.
Passou a infância inteira em Araguari. Acabou herdando o delicioso sotaque da região.
Seu caminho na carreira de motion começou de maneira informal. Criava gifs engraçados. Utilizava o Photoshop para tentar fazer charges animadas e contar algumas histórias.
O pulo do gato veio quando, autodidata, aprendeu a usar o Flash, aos 16 anos.
Conto essa história porque, aos 17, por um acaso estranho do destino, conseguiu estágio em uma agência de publicidade aqui em São Paulo. A mesma em que trabalha até hoje, com 25.
Esses 8 anos no ramo, mesmo após algumas promoções simples, mas com praticamente o mesmo cargo e atividades, tornaram-se bem chatos.
Ok! O ambiente, clima e as pessoas são bem diferentes de empresas comuns, que Rodrigo chamava de "coxinhas".
No mundo das agências, tudo é muito divertido e espontâneo. Piadas, comentários do último vídeo da Porta dos Fundos ou sobre algum site inovador que pega seus dados no Facebook e faz montagens com as fotos dos seus amigos em animais dançantes, ao som de alguma sátira de "dumb ways to die".
Tem sempre alguma coisa nova rolando nos papos. O problema era a disputa diária para ver quem sabia mais das inovações que surgiam.
— Você viu o aplicativo novo da Diesel? NÃO VIU? Não acredito! Vou te mandar o link para baixar! É muito louco, cara! Muito louco!
Rodrigo percebeu que uma das coisas mais prazerosas de sua vida era responder "Ah! Eu já tinha visto!" a esse tipo de pergunta. Foi aí que começou a pensar mais sobre o futuro que queria para sua carreira.
Um dia, recebeu em seu e-mail mais uma série de ofertas do Peixe Urbano. Antes, deletava essas mensagens sem ao menos ler, mas dessa vez, resolveu dar uma olhada.
— Um curso intensivo de sapateado por 250 reais! Uma semana, todos os dias e em período integral, das 8h30 às 18h30.
Comprou na hora. Rodrigo era fã de Gene Kelly. Toda vez que garoava em São Paulo, "Singin' in the rain" tocava em sua cabeça automaticamente.
Decidira fazer o curso. Mas o que ele iria falar para seus chefes? Durante o fim de semana, depois de algum tempo refletindo, optaria pelo mais irônico.
E na segunda de manhã, telefonou para o tráfego da agência:
— Alô? Oi! Tudo bem? Olha só, eu torci o tornozelo ontem... Vou ter que ficar em casa de molho essa semana.
Para ter um bom álibi, publicou no Facebook a foto de algum pé com gesso. Só teve o trabalho de procurar nas imagens no Google e colocar a legenda: "De molho em casa :(".
Deu tudo certo no curso. Aprendeu os fundamentos, comprou os sapatos, conheceu a história da arte e treinou exaustivamente em casa. Descobriu que tinha talento. Fantasiou a semana inteira sobre como seria sua vida se conseguisse dedicar mais tempo à atividade.
Tantos sonhos fizeram o tempo passar rápido. Logo chegou a sexta-feira e na segunda seguinte, voltaria para a agência e sua vida normal.
Foi o que aconteceu. Os sonhos foram praticamente esquecidos enquanto usava sua brilhante criatividade artística para replicar os banners que surgiam em sua pauta de trabalho. Alguns atrasados da semana anterior.
Com tantos trabalhos para por em dia, essa semana também passou rápido.
Toda a equipe de criação resolveu fazer um happy hour para aproveitar a noite, que estava quente e agradável.
Fecharam uma garrafa de cachaça. Mesmo beliscando diversas porções de provolone e parmesão, depois de algumas doses, Rodrigo não conseguiu se segurar.
O álcool tinha diluído sua vergonha e ele começou a sapatear ao som de Anunciação do Alceu Valença. Fazia mãos de musicais de jazz, rodava com os joelhos no chão e ia até o banheiro andando de lado, tirando e colocando na cabeça uma cartola imaginária.
Desde esse dia, Rodrigo passou a ser conhecido pelo apelido de Nárnia: a cachaça, o queijo e o sapateado.
As calças jeans ele repetia. Mais de 3 vezes por semana. Não havia problemas. "Elas não sujam mesmo!" — dizia.
Passou a infância inteira em Araguari. Acabou herdando o delicioso sotaque da região.
Seu caminho na carreira de motion começou de maneira informal. Criava gifs engraçados. Utilizava o Photoshop para tentar fazer charges animadas e contar algumas histórias.
O pulo do gato veio quando, autodidata, aprendeu a usar o Flash, aos 16 anos.
Conto essa história porque, aos 17, por um acaso estranho do destino, conseguiu estágio em uma agência de publicidade aqui em São Paulo. A mesma em que trabalha até hoje, com 25.
Esses 8 anos no ramo, mesmo após algumas promoções simples, mas com praticamente o mesmo cargo e atividades, tornaram-se bem chatos.
Ok! O ambiente, clima e as pessoas são bem diferentes de empresas comuns, que Rodrigo chamava de "coxinhas".
No mundo das agências, tudo é muito divertido e espontâneo. Piadas, comentários do último vídeo da Porta dos Fundos ou sobre algum site inovador que pega seus dados no Facebook e faz montagens com as fotos dos seus amigos em animais dançantes, ao som de alguma sátira de "dumb ways to die".
Tem sempre alguma coisa nova rolando nos papos. O problema era a disputa diária para ver quem sabia mais das inovações que surgiam.
— Você viu o aplicativo novo da Diesel? NÃO VIU? Não acredito! Vou te mandar o link para baixar! É muito louco, cara! Muito louco!
Rodrigo percebeu que uma das coisas mais prazerosas de sua vida era responder "Ah! Eu já tinha visto!" a esse tipo de pergunta. Foi aí que começou a pensar mais sobre o futuro que queria para sua carreira.
Um dia, recebeu em seu e-mail mais uma série de ofertas do Peixe Urbano. Antes, deletava essas mensagens sem ao menos ler, mas dessa vez, resolveu dar uma olhada.
— Um curso intensivo de sapateado por 250 reais! Uma semana, todos os dias e em período integral, das 8h30 às 18h30.
Comprou na hora. Rodrigo era fã de Gene Kelly. Toda vez que garoava em São Paulo, "Singin' in the rain" tocava em sua cabeça automaticamente.
Decidira fazer o curso. Mas o que ele iria falar para seus chefes? Durante o fim de semana, depois de algum tempo refletindo, optaria pelo mais irônico.
E na segunda de manhã, telefonou para o tráfego da agência:
— Alô? Oi! Tudo bem? Olha só, eu torci o tornozelo ontem... Vou ter que ficar em casa de molho essa semana.
Para ter um bom álibi, publicou no Facebook a foto de algum pé com gesso. Só teve o trabalho de procurar nas imagens no Google e colocar a legenda: "De molho em casa :(".
Deu tudo certo no curso. Aprendeu os fundamentos, comprou os sapatos, conheceu a história da arte e treinou exaustivamente em casa. Descobriu que tinha talento. Fantasiou a semana inteira sobre como seria sua vida se conseguisse dedicar mais tempo à atividade.
Tantos sonhos fizeram o tempo passar rápido. Logo chegou a sexta-feira e na segunda seguinte, voltaria para a agência e sua vida normal.
Foi o que aconteceu. Os sonhos foram praticamente esquecidos enquanto usava sua brilhante criatividade artística para replicar os banners que surgiam em sua pauta de trabalho. Alguns atrasados da semana anterior.
Com tantos trabalhos para por em dia, essa semana também passou rápido.
Toda a equipe de criação resolveu fazer um happy hour para aproveitar a noite, que estava quente e agradável.
Fecharam uma garrafa de cachaça. Mesmo beliscando diversas porções de provolone e parmesão, depois de algumas doses, Rodrigo não conseguiu se segurar.
O álcool tinha diluído sua vergonha e ele começou a sapatear ao som de Anunciação do Alceu Valença. Fazia mãos de musicais de jazz, rodava com os joelhos no chão e ia até o banheiro andando de lado, tirando e colocando na cabeça uma cartola imaginária.
Desde esse dia, Rodrigo passou a ser conhecido pelo apelido de Nárnia: a cachaça, o queijo e o sapateado.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
A difícil atualização da tecla "Foda-se".
Hoje de manhã, fomos correr com Barry White e Marvin Gaye, meus queridos vira-latas.
Sempre tive conhecimento de diversas fontes de adestramento e que é necessário um toque firme na coleira para controlar e educar o cão durante o passeio.
Como Marvin ainda não foi castrado, mesmo depois do exercício, ele ainda estava meio agitado. Corria, acelerava e queria ultrapassar o Barry que estava na frente. Por isso, eu o corrigia com o auxílio do toque na coleira. Até aí, tudo normal. Um desejo pela liderança de um cachorro na flor da puberdade esbanjando testosterona.
Eis que na rua, parou um sedan prata do meu lado com um senhor e uma mulher pouco mais nova e eles me chamaram.
Eu achei que eles queriam alguma informação. Aí, parei e me agachei para falar com eles.
Foi então que o homem me falou algo parecido com isto:
— Posso te pedir uma coisa? Não maltrate o cachorrinho. Ele é só um filhote! Se você não gosta, doa, mas não maltrata. Eu vi você puxando a coleira e enforcando o coitadinho.
Eu respondi:
— Imagina! Eu adoro eles... Isso é para correção.
— Mas você maltrata o cachorro. Ele é filhote!
Para não prolongar a conversa, abri um sorriso e respondi:
— Ok! Obrigado!
O carro foi embora e nós voltamos para casa.
Dessa cena, vieram as seguintes reflexões:
1 - Acho que tive a atitude correta de não prolongar uma provável discussão e resolver educadamente a história.
2 - Descobri que não sou tão zen assim. Momentos mais tarde, fiquei ofendido, chateado e puto da vida, ao pensar nessa intromissão do casal. A primeira coisa que pensei deles foi: eles devem ser do tipo que deixam o cachorro, ou os próprios filhos, reinarem sobre a casa e a vida deles. Mas parei de pensar dessa maneira, porque assim como eles, estaria julgando a situação e o mundo deles sem ter qualquer conhecimento.
3 - Depois até me senti culpado, pensando se eu estava realmente machucando o cachorro. Mas logo ignorei esse pensamento porque um cachorro escandaloso como o Marvin (meus vizinhos que o digam) não ficaria quieto se sentisse qualquer dor durante o passeio.
4 - Temos que tomar cuidado com o que lemos ou vemos na internet. Numa dessas, o cara poderia viralizar no Facebook uma foto minha, puxando o Marvin para perto de mim, com algum título que falasse de maus tratos de animais.
5 - Minha tecla "Foda-se" não está devidamente atualizada, porque fiquei me remoendo, a ponto de escrever este post, só por causa da opinião de um estranho idiota.
No fim, depois de divagar muito sobre o assunto, não tenho com o que me preocupar.
Marvin e Barry são saudáveis, brincalhões, carinhosos e adoram os humanos deles. Não há dúvidas disso.
Tentando ser zen novamente, posso até aplaudir o casal por essa preocupação e por terem coragem de falar com alguém sobre uma situação que os preocupou. Eles só escolheram a pessoa errada.
Segunda movimentada. A situação teria sido muito mais legal se o Marvin tivesse o impulso de mijar no carro deles, antes que fôssemos embora. Posso até imaginar uma cena assim.
De qualquer maneira, para eu não ficar engasgado com isso, uma mensagem final:
Prezado senhor do sedan prata e sua filha/esposa/companheira: vão tomar no cu.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Lâmpadas e coxinhas
A rotina diária pode não parecer uma grande luta, mas é difícil sobreviver a ela. Quando você vê, sua vida já está na mesmice, os anos vão passando mais rápido e de repente, vem o clássico arrependimento das decisões que você não tomou e das escolhas que foram feitas.
Rodolfo não tinha se dado conta disso. Reclamava para si mesmo todos os dias por ter que acordar cedo, ajudar sua esposa, colocar os dois filhos pequenos na perua do colégio e preparar o lanche deles. Tudo isso a partir das 5h da manhã.
Reclamar é um vício. Igual ao cigarro. Demanda tempo, energia, traz alívio em curto prazo a alguma angústia, mas é um hábito inútil se a pessoa está atrás de mudanças.
Bem como boa parte das pessoas, Rodolfo esperava alguma coisa mágica ou drástica acontecer para mudar sua vida. Tudo para fugir de sua própria responsabilidade pelo rumo das coisas. Por conta desse comodismo, chegou até a imaginar a morte de sua esposa e filhos. Só para poder reiniciar seu próprio mundo.
Visualizava o choque, o choro, o funeral, o consolo dos parentes e amigos, o período de luto e a recuperação triunfante. "Bom... Se ela me pedisse o divórcio, seria menos dramático, mas seria bem mais caro!" — pensava sabendo que não poderia compartilhar esse tipo de ideia com ninguém.
Nada é esperado quando se trata do destino. Sua família continuou viva e bem. Seu emprego no escritório de importação continuou o mesmo marasmo.
Um dia, em um raro almoço feliz de casual friday, foi arrastado com um grupo de amigos para um sex shop perto do escritório. Tinham tomado cerveja no restaurante e o álcool diluiu um pouco do pudor para facilitar o passeio.
Chegando lá, brincaram e tiraram sarro dos acessórios. A funcionária da loja até abriu sorrisos para a leve bagunça na loja. Rodolfo ficou imaginando suas colegas com as fantasias que elas pegavam dos cabides e experimentavam. Uniformes de colegiais japonesas, biquíni dourado da Princesa Leia e as clássicas roupas de couro sadomasoquistas.
Todos começaram a rir quando Rodolfo pegou o chicote da fantasia de dominatrix e disse: "É o Chirrin-Chirrion do diabo!".
Apontou o chicotinho para uma de suas colegas e falou:
— Biquíni da Princesa Leia, CHIRRIN!
Espanto. Todo o grupo ficou sem palavras. Inclusive a atendente da loja. A colega de Rodolfo imediatamente ficou com as roupas-fetiche da princesa.
Foi surpreendente porque ninguém nunca tinha usado um chicote sadomasoquista dessa maneira, e por um acaso bizarro do destino, era realmente o artefato demoníaco mostrado pela primeira vez numa história do Chapolim Colorado.
Rodolfo ficou confuso. Questionou se estava bêbado. A leve simpatia alcoolica passou na hora. Depois se sentiu poderoso.
— Todo mundo nessa loja, CHIRRION! — gritou.
E todos sumiram. Não se sabe para onde foram. O espaço da loja ficou vazio. Só sobrou o chão e as paredes.
— Não gostava de ninguém aqui... Tudo Pra Você Importação Ltda. CHIRRION! — e fez o escritório em que trabalhava desaparecer com todos os funcionários que estavam no prédio.
Riu maleficamente. Pensamentos vingativos começaram a surgir. Foi quando teve uma brilhante ideia. Rodolfo fora assaltado duas vezes em sua vida: uma na rua e outra em que entraram em seu bar favorito durante um longo arrastão em Moema. Isso há uns três anos. Ele não sabia se a polícia tinha capturado os bandidos e teve medo de fazer o reconhecimento quando prenderam alguns suspeitos.
— Todos os bandidos que me assaltaram, algemados em cadeiras, CHIRRIN!
E surgiram. Cinco bandidos, amarrados em cadeiras e completamente confusos. Depois de se recuperar do espanto, Rodolfo falou:
— É... Vocês provavelmente não se lembram de mim. Mas eu sei exatamente quem é cada um de vocês. Hmmm... Os dois da esquerda me roubaram um celular quando eu voltava para casa. E vocês invadiram o bar que eu estava...
Os bandidos mantiveram o silêncio. Pareciam bem desorientados. Nenhum respondeu, apenas olhavam em volta para tentar descobrir onde estavam.
Não foi o susto do arrastão, tampouco o prejuízo material. A pior sensação do assalto para Rodolfo foi a impotência. Desde esse dia, ele ficou mais ansioso. Paranoico.
— Coletes salva-vidas, CHIRRIN! — e todos os bandidos ficaram com um colete salva-vidas.
— Braços, pernas e cordas vocais, CHIRRION! — e todos os bandidos viraram cotocos mudos.
Rodolfo deixou os cinco na loja vazia e foi correndo buscar seu carro: uma Palio Weekend. Alguns minutos depois, conseguiu carregar o que sobrou dos bandidos até o porta-malas de seu carro. Entrou, deu partida, saiu e, com o chicote na mão, gritou:
— Testemunhas, CHIRRION! — Alguns transeuntes desapareceram.
Mais ou menos uma hora e meia depois, Rodolfo chegou com os desesperados bandidos no porto de Santos. Apontou o artefato para a água e disse:
— Barco, CHIRRIN! Testemunhas, CHIRRION!
Carregou cada um dos cotocos para dentro do barco e foi para alto mar.
— O olhar de vocês está impagável, galera. — disse Rodolfo, enquanto dirigia o barco. — Vale cada real de prejuízo que vocês me deram.
Desligou o motor do barco na distância em que não conseguia mais ver o porto. Um por um, Rodolfo jogou os bandidos sem braços, pernas e voz na água. Todos flutuaram devido ao colete salva-vidas.
— Boa sensação de impotência para vocês, pessoal! Até mais! — Ligou o barco e foi embora.
Foi um capricho. Mas Rodolfo era rancoroso demais e teve que fazer isso.
Chegando em terra novamente, passou a fazer seus novos planos com o Chirrin-Chirrion: criar seu atelier, tirar umas férias, viajar com a mulher e os filhos, ouvir mais música, ler mais livros... Opa! Peraí! Precisa de um artefato místico e demoníaco para poder fazer isso?
Rodolfo não tinha se dado conta disso. Reclamava para si mesmo todos os dias por ter que acordar cedo, ajudar sua esposa, colocar os dois filhos pequenos na perua do colégio e preparar o lanche deles. Tudo isso a partir das 5h da manhã.
Reclamar é um vício. Igual ao cigarro. Demanda tempo, energia, traz alívio em curto prazo a alguma angústia, mas é um hábito inútil se a pessoa está atrás de mudanças.
Bem como boa parte das pessoas, Rodolfo esperava alguma coisa mágica ou drástica acontecer para mudar sua vida. Tudo para fugir de sua própria responsabilidade pelo rumo das coisas. Por conta desse comodismo, chegou até a imaginar a morte de sua esposa e filhos. Só para poder reiniciar seu próprio mundo.
Visualizava o choque, o choro, o funeral, o consolo dos parentes e amigos, o período de luto e a recuperação triunfante. "Bom... Se ela me pedisse o divórcio, seria menos dramático, mas seria bem mais caro!" — pensava sabendo que não poderia compartilhar esse tipo de ideia com ninguém.
Nada é esperado quando se trata do destino. Sua família continuou viva e bem. Seu emprego no escritório de importação continuou o mesmo marasmo.
Um dia, em um raro almoço feliz de casual friday, foi arrastado com um grupo de amigos para um sex shop perto do escritório. Tinham tomado cerveja no restaurante e o álcool diluiu um pouco do pudor para facilitar o passeio.
Chegando lá, brincaram e tiraram sarro dos acessórios. A funcionária da loja até abriu sorrisos para a leve bagunça na loja. Rodolfo ficou imaginando suas colegas com as fantasias que elas pegavam dos cabides e experimentavam. Uniformes de colegiais japonesas, biquíni dourado da Princesa Leia e as clássicas roupas de couro sadomasoquistas.
Todos começaram a rir quando Rodolfo pegou o chicote da fantasia de dominatrix e disse: "É o Chirrin-Chirrion do diabo!".
Apontou o chicotinho para uma de suas colegas e falou:
— Biquíni da Princesa Leia, CHIRRIN!
Espanto. Todo o grupo ficou sem palavras. Inclusive a atendente da loja. A colega de Rodolfo imediatamente ficou com as roupas-fetiche da princesa.
Foi surpreendente porque ninguém nunca tinha usado um chicote sadomasoquista dessa maneira, e por um acaso bizarro do destino, era realmente o artefato demoníaco mostrado pela primeira vez numa história do Chapolim Colorado.
Rodolfo ficou confuso. Questionou se estava bêbado. A leve simpatia alcoolica passou na hora. Depois se sentiu poderoso.
— Todo mundo nessa loja, CHIRRION! — gritou.
E todos sumiram. Não se sabe para onde foram. O espaço da loja ficou vazio. Só sobrou o chão e as paredes.
— Não gostava de ninguém aqui... Tudo Pra Você Importação Ltda. CHIRRION! — e fez o escritório em que trabalhava desaparecer com todos os funcionários que estavam no prédio.
Riu maleficamente. Pensamentos vingativos começaram a surgir. Foi quando teve uma brilhante ideia. Rodolfo fora assaltado duas vezes em sua vida: uma na rua e outra em que entraram em seu bar favorito durante um longo arrastão em Moema. Isso há uns três anos. Ele não sabia se a polícia tinha capturado os bandidos e teve medo de fazer o reconhecimento quando prenderam alguns suspeitos.
— Todos os bandidos que me assaltaram, algemados em cadeiras, CHIRRIN!
E surgiram. Cinco bandidos, amarrados em cadeiras e completamente confusos. Depois de se recuperar do espanto, Rodolfo falou:
— É... Vocês provavelmente não se lembram de mim. Mas eu sei exatamente quem é cada um de vocês. Hmmm... Os dois da esquerda me roubaram um celular quando eu voltava para casa. E vocês invadiram o bar que eu estava...
Os bandidos mantiveram o silêncio. Pareciam bem desorientados. Nenhum respondeu, apenas olhavam em volta para tentar descobrir onde estavam.
Não foi o susto do arrastão, tampouco o prejuízo material. A pior sensação do assalto para Rodolfo foi a impotência. Desde esse dia, ele ficou mais ansioso. Paranoico.
— Coletes salva-vidas, CHIRRIN! — e todos os bandidos ficaram com um colete salva-vidas.
— Braços, pernas e cordas vocais, CHIRRION! — e todos os bandidos viraram cotocos mudos.
Rodolfo deixou os cinco na loja vazia e foi correndo buscar seu carro: uma Palio Weekend. Alguns minutos depois, conseguiu carregar o que sobrou dos bandidos até o porta-malas de seu carro. Entrou, deu partida, saiu e, com o chicote na mão, gritou:
— Testemunhas, CHIRRION! — Alguns transeuntes desapareceram.
Mais ou menos uma hora e meia depois, Rodolfo chegou com os desesperados bandidos no porto de Santos. Apontou o artefato para a água e disse:
— Barco, CHIRRIN! Testemunhas, CHIRRION!
Carregou cada um dos cotocos para dentro do barco e foi para alto mar.
— O olhar de vocês está impagável, galera. — disse Rodolfo, enquanto dirigia o barco. — Vale cada real de prejuízo que vocês me deram.
Desligou o motor do barco na distância em que não conseguia mais ver o porto. Um por um, Rodolfo jogou os bandidos sem braços, pernas e voz na água. Todos flutuaram devido ao colete salva-vidas.
— Boa sensação de impotência para vocês, pessoal! Até mais! — Ligou o barco e foi embora.
Foi um capricho. Mas Rodolfo era rancoroso demais e teve que fazer isso.
Chegando em terra novamente, passou a fazer seus novos planos com o Chirrin-Chirrion: criar seu atelier, tirar umas férias, viajar com a mulher e os filhos, ouvir mais música, ler mais livros... Opa! Peraí! Precisa de um artefato místico e demoníaco para poder fazer isso?
segunda-feira, 1 de julho de 2013
São Joaquim
Há tempos que estava intrigado. Se imaginava em uma situação como no filme "O Show de Truman".
Na linha azul do Metrô, reparou que ninguém entrava ou saía do trem quando ele parava na Estação São Joaquim. Tentava identificar se eram sempre as mesmas pessoas que circulavam pela plataforma. Observava atentamente se apareceriam criaturas estranhas nos cantos.
De qualquer forma, não sabia o que procurar. Uma vaca malhada estacionada? Um cachorro-quente alado? Orcs à espreita nas quinas das paredes apenas observando o movimento? Um portal para São Tomé das Letras? A sala de controle do reality show da sua vida? A imaginação ia longe.
Estaria ficando paranoico? Não queria fazer psicoterapia. Achava que psicólogos eram apenas um bando de perdidos ajudando outros desorientados. Tinha esse preconceito. Acabava tendo vários outros por pensar demais.
Não era à toa. Ficava enjoado quando lia em movimento. Também não conseguia jogar games no celular ou acessar o Facebook. Por conta disso, fazia a viagem entre o Jabaquara e o Tucuruvi completamente entediado. Um tempo perdido de sua vida.
Andava meio frustrado. Estava decepcionado com seu novo emprego. Tinha acabado de ser contratado nessa nova empresa. Era muito perto do Metrô. O serviço era o que ele sabia fazer e o salário não era mau. O problema era o chefe: um pé no saco.
— Eu ejaculei na cruz mesmo! — pensou, puto da vida. Era segunda, estava tenso, apressado e o chefe não relevaria os possíveis 20 minutos de atraso no horário de hoje.
Apesar das encheções de saco do seu gestor, era o emprego ideal. Tinha talento e experiência para as atividades. Mesmo assim, queria empreender e ter um negócio próprio, mas faltava-lhe coragem. Fez uma enorme pesquisa de rentabilidade de franquias. Tinha se interessado por uma que vendia relógios de pulso personalizados.
Mas como começar algo novo? O trabalho atual pagava bem suas contas, mas não permitia guardar muito dinheiro. Como largar essa pseudo-estabilidade para entrar em um território totalmente desconhecido? Será que ele ia gostar da vida de empresário?
Eram muitas questões de grandes consequências e mudanças. Até então, normal. Uma decisão dessas não é tomada por impulso. O que realmente estava incomodando era que o sujeito se sentia um grande covarde.
Sentir-se assim fez com que tivesse uma revelação ainda mais incômoda. Ele passou a perceber o quanto era parecido com as pessoas que ele não admirava.
Criticava uma prima solteirona que tinha vários talentos, mas que não os aproveitava. Ela ficava em depressão em casa, cultivando a hipocondria, neuroses e aproveitando os rendimentos da herança que recebera do pai. Ele a via como uma perdedora. Mas ficar em um emprego que, toda segunda-feira de manhã, o fazia suspirar de desgosto é uma vitória? Não é apenas outro tipo de acomodação?
Detestava o comportamento de um amigo, que nunca assumia as próprias responsabilidades. Esse cara sempre encontrava um culpado para tudo que dava errado na vida. Seguia fielmente a frase de Homer Simpson: "Se alguma coisa é difícil demais, então não vale a pena fazer".
Sem que esse amigo soubesse, deu-lhe o apelido de "Madre Teresa". Tudo porque o sujeito é cego para os próprios defeitos: nunca admitia ter preguiça, inveja, ou até mesmo desejar ou falar mal de alguém. Alcançara a perfeição pela cegueira.
Sentado no banco marrom do metrô, nosso protagonista pensava no quanto seu próprio mundo era perfeito pela cegueira. O que ele estava deixando de enxergar que deixava sua vida assim?
— Próxima estação: São Joaquim. Desembarque pelo lado direito do trem. — disse a voz nos altofalantes.
Pensou: "Foda-se! Já estou atrasado. Vou descer aqui mesmo para ver o que acontece!". E o fez.
Na plataforma, tudo certo. Seguiu até as escadas rolantes. Subiu, passou pelos bloqueios e foi em direção à saída.
De repente, sentiu uma enorme força o puxando progressivamente. Primeiro a ponta dos pés, joelhos, quadril, abdome, tórax e cabeça. Incontrolável. Era o vácuo vindo de um buraco negro.
Seus olhos não acreditaram no que viam: um fundo preto, estrelas, átomos circulando e cometas dourados em alta velocidade. Quando sentiu que o ar estava rarefeito, olhou para a direita e viu um cardume de sete peixes-lontra em uma formação de voo igual a de patos selvagens. Na esquerda, uma chuva de cabeças do Régis Tadeu gritando: "Eu odeio Manowar!" em contraponto de terças.
De repente, tudo apagou. O buraco negro o sugou completamente. Mas claro, pode ser que ele só tenha sido nocauteado ao escorregar em uma poça d'água e batido a nuca na calçada.
Na linha azul do Metrô, reparou que ninguém entrava ou saía do trem quando ele parava na Estação São Joaquim. Tentava identificar se eram sempre as mesmas pessoas que circulavam pela plataforma. Observava atentamente se apareceriam criaturas estranhas nos cantos.
De qualquer forma, não sabia o que procurar. Uma vaca malhada estacionada? Um cachorro-quente alado? Orcs à espreita nas quinas das paredes apenas observando o movimento? Um portal para São Tomé das Letras? A sala de controle do reality show da sua vida? A imaginação ia longe.
Estaria ficando paranoico? Não queria fazer psicoterapia. Achava que psicólogos eram apenas um bando de perdidos ajudando outros desorientados. Tinha esse preconceito. Acabava tendo vários outros por pensar demais.
Não era à toa. Ficava enjoado quando lia em movimento. Também não conseguia jogar games no celular ou acessar o Facebook. Por conta disso, fazia a viagem entre o Jabaquara e o Tucuruvi completamente entediado. Um tempo perdido de sua vida.
Andava meio frustrado. Estava decepcionado com seu novo emprego. Tinha acabado de ser contratado nessa nova empresa. Era muito perto do Metrô. O serviço era o que ele sabia fazer e o salário não era mau. O problema era o chefe: um pé no saco.
— Eu ejaculei na cruz mesmo! — pensou, puto da vida. Era segunda, estava tenso, apressado e o chefe não relevaria os possíveis 20 minutos de atraso no horário de hoje.
Apesar das encheções de saco do seu gestor, era o emprego ideal. Tinha talento e experiência para as atividades. Mesmo assim, queria empreender e ter um negócio próprio, mas faltava-lhe coragem. Fez uma enorme pesquisa de rentabilidade de franquias. Tinha se interessado por uma que vendia relógios de pulso personalizados.
Mas como começar algo novo? O trabalho atual pagava bem suas contas, mas não permitia guardar muito dinheiro. Como largar essa pseudo-estabilidade para entrar em um território totalmente desconhecido? Será que ele ia gostar da vida de empresário?
Eram muitas questões de grandes consequências e mudanças. Até então, normal. Uma decisão dessas não é tomada por impulso. O que realmente estava incomodando era que o sujeito se sentia um grande covarde.
Sentir-se assim fez com que tivesse uma revelação ainda mais incômoda. Ele passou a perceber o quanto era parecido com as pessoas que ele não admirava.
Criticava uma prima solteirona que tinha vários talentos, mas que não os aproveitava. Ela ficava em depressão em casa, cultivando a hipocondria, neuroses e aproveitando os rendimentos da herança que recebera do pai. Ele a via como uma perdedora. Mas ficar em um emprego que, toda segunda-feira de manhã, o fazia suspirar de desgosto é uma vitória? Não é apenas outro tipo de acomodação?
Detestava o comportamento de um amigo, que nunca assumia as próprias responsabilidades. Esse cara sempre encontrava um culpado para tudo que dava errado na vida. Seguia fielmente a frase de Homer Simpson: "Se alguma coisa é difícil demais, então não vale a pena fazer".
Sem que esse amigo soubesse, deu-lhe o apelido de "Madre Teresa". Tudo porque o sujeito é cego para os próprios defeitos: nunca admitia ter preguiça, inveja, ou até mesmo desejar ou falar mal de alguém. Alcançara a perfeição pela cegueira.
Sentado no banco marrom do metrô, nosso protagonista pensava no quanto seu próprio mundo era perfeito pela cegueira. O que ele estava deixando de enxergar que deixava sua vida assim?
— Próxima estação: São Joaquim. Desembarque pelo lado direito do trem. — disse a voz nos altofalantes.
Pensou: "Foda-se! Já estou atrasado. Vou descer aqui mesmo para ver o que acontece!". E o fez.
Na plataforma, tudo certo. Seguiu até as escadas rolantes. Subiu, passou pelos bloqueios e foi em direção à saída.
De repente, sentiu uma enorme força o puxando progressivamente. Primeiro a ponta dos pés, joelhos, quadril, abdome, tórax e cabeça. Incontrolável. Era o vácuo vindo de um buraco negro.
Seus olhos não acreditaram no que viam: um fundo preto, estrelas, átomos circulando e cometas dourados em alta velocidade. Quando sentiu que o ar estava rarefeito, olhou para a direita e viu um cardume de sete peixes-lontra em uma formação de voo igual a de patos selvagens. Na esquerda, uma chuva de cabeças do Régis Tadeu gritando: "Eu odeio Manowar!" em contraponto de terças.
De repente, tudo apagou. O buraco negro o sugou completamente. Mas claro, pode ser que ele só tenha sido nocauteado ao escorregar em uma poça d'água e batido a nuca na calçada.
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